TRÍADE - Página 2

- Caros soldados da legião real de Avórdia, as nossas informações passadas durante o treinamento que fez com que voltassem às pressas ao castelo foram reformuladas, receberemos três líderes do movimento nômade no castelo para uma conversação, esperamos conseguir um acordo, parece que a intenção não é uma invasão, eles estão reunidos ao sul daqui, umas 3 horas de viagem como informado, mas vieram para estabelecer diálogo e só 3 virão até o castelo, os outros 100 homens ficarão na pousada onde estão ao sul daqui aguardando nossas decisões. Os três representantes chegarão aqui assim que o soldado mensageiro entregar a eles o meu informe de que os receberei. Vocês não precisam se preocupar, graças a Deus. Porém, foi bom que vocês voltaram mais cedo do treino, vão, prepararem-se para recebermos a Imperatriz Yasmine. Faremos um jantar para ela no qual participarão os conselheiros, os ministros, o Imperador, a Rainha, a tríade dos soldados e senhorita Estela.
Levanto-me da plateia e dou um passo à frente quando ouço meu nome.
- Majestade, desculpe, não vejo razão para que eu participe do jantar com a Imperatriz.
O anfiteatro inteiro para de respirar por três segundos ao ouvir minha recusa tão pronta. O Imperador se mexe empertigado na cadeira ao lado do rei, tem um olhar que eu não consigo identificar o que diz, mas ainda parece estar com dor.
- Senhorita Estela, a senhorita conhece muito bem o meu apreço e da rainha em relação à sua família. E tenho certeza que sua amizade com o meu filho o ajudará a colocar a cabeça no lugar e repensar o seu papel nesse encontro com o governo de Moldávia.
Sento-me sentindo meu rosto queimar, minhas mãos estão trêmulas e não faço a mínima ideia em como consegui ficar em pé e muito menos a falar o que acabei de dizer. Detenho minha língua para resguardar-me de novo vexame.
Terminada a reunião me apresso em sair do recinto, sou alcançada pelo Imperador que segura meu braço e revela uma expressão de puro desolamento.
- Estela, preciso falar com você, é urgente.
Olho para os lados as pessoas estão vendo a cena com curiosidade e cochicham com seus pares o que me deixa ainda mais nervosa e tímida, me apresso puxando sua mão, levando-o para outro lugar em que possamos ter um pouco de privacidade, nem vejo a cara de decepção de Mike ao me ver puxando o Imperador pela mão.
Só paro quando encontro um nicho onde podemos conversar sem nenhum olhar de especulação.
Viro-me sem graça para Zac, pois o puxei ao longo de vários ambientes até encontrar um lugar em paz.
- O que foi Zac? Qual é o problema? – solto sem pesar as palavras e percebo a angústia em seu olhar, me arrependo de ter sido tão insensível.
- Estou aflito, não quero conhecer essa mulher, ela é mais velha e não me interessa o que ele quer de mim, não vou me unir a ninguém. Já amo uma pessoa e nem sei como dizer a ela.
Sinto-me surpresa numa mistura de medo e talvez a mesma aflição que disse sentir a pouco. Meu estômago afunda como se tivesse uma âncora puxando-o para o fundo. Não sei o que dizer, na verdade tenho medo do que ele pode revelar. Estou com uma dor no peito que não sei dizer o que é.
- Téo – ele nunca me chama pelo apelido, não sei o que esperar dessa reação.
- O que está acontecendo, não tô entendendo o que você quer de mim.
Ele olha pra mim calado e aquela dor que ele revelava volta a estampar-se em sua expressão. Hesita em soltar as palavras, subitamente se aproxima de mim, puxa-me para junto de seus braços e tasca um beijo em minha boca. Eu sinto uma mistura de surpresa, prazer, dor, a minha boca parece que gruda na dele e eu me deixo beijar como se fosse uma tábua em pleno mar revolto. Não consigo parar e sinto formigamento nas extremidades, ele me puxa pra mais perto e um sino começa a soar na minha cabeça até que a minha razão interpreta o que está acontecendo e eu consigo, com uma força que eu nem sei que tenho, afastá-lo, respiro ofegante, ele está com os olhos arregalados pra mim.
- O que foi isso, Imperador?
- Foi a minha resposta à sua pergunta. Téo, eu estou apaixonado por você!!
Aquela revelação me faz perder o controle das pernas dou um passo pra trás, meu corpo fraqueja, recupero meu autocontrole. Olho em seus olhos e vejo uma dor que até então não conseguia entender.
- Zac, eu não sei o que dizer! – ele se vira e sai do nicho com uma expressão que me deixa petrificada, acabei de causar o incidente diplomático que nem sabia que existia.
Vou para o meu quarto com a desculpa de me preparar para o jantar, quando chego ao isolamento de meu quarto, choro copiosamente, de um modo que nunca havia feito antes, depois da primeira vez que me lembro de meu pai partindo para uma missão, das tantas que já fez. Eu reconheço que sinto alguma coisa pelo Imperador, só não conseguia atinar se é amor, sei que quando estou com ele fico sem graça, ele me constrange dum jeito que antes não fazia, mas daí a entender que estou apaixonada!!! Isso não é nada bom, a sociedade não espera isso de nós, principalmente dele que deve ser um político acima de tudo. Essa não é minha função.
Chorei talvez porque não queria admitir que sinto o mesmo por ele. Mas sei que isso não está certo, tenho responsabilidades a cumprir. Para piorar meu estado de ânimo, tenho que me vestir a altura para um jantar oficial, vestido longo que já está a minha espera no meu quarto. Chegou à tarde, as costureiras reais já o trouxeram, minha sorte é que não preciso escolher, elas já têm as nossas medidas e fazem as roupar para eventos oficiais para todos os membros do governo que participarão.
Troco-me automaticamente, olho no espelho e vejo um vestido verde musgo, justo, abaixo do joelho, tomara que caia deixando meus ombros e minha tatuagem “Deus é maior” que pega toda extensão da base do meu pescoço nas costas, à mostra. Coloco um salto de 15cm prateado e sem forças me dirijo ao salão de cabeleireiros real que atende todas as mulheres do reino para fazer o cabelo e a maquiagem.
A moça que me atende pergunta o que quero, eu digo que deixe os cabelos soltos e a maquiagem, o mais natural possível, terminado o serviço olho pro espelho e não reconheço aquela mulher, parece mais velha, tem olhos grandes e verdes e o cabelo loiro desce em cachos pelas costas.
Como se fosse autômata, nem vejo minha mãe que estava o tempo todo ao meu lado tagarelando com a cabeleireira, posso dizer que não ouvi uma palavra do que elas disseram. Dirijo-me ao salão oval onde cearemos.
Encontro todos em pé na pré-sala de jantar tomando aperitivos e discutindo coisas de governo, bato os olhos em um canto e vejo uma linda oriental com um vestido estupendo cor de anil com um ombro só, pele bronzeada, olhos puxados e um sorriso de tirar o fôlego de perfeição e ao seu lado, para minha total perdição, Zac conversando alegremente, sorrindo, sendo um gentil e excelente anfitrião. Meu estômago dá voltas e parece pesar arrobas.
Parece que estou realmente perdida até que um aperto na cintura me faz girar 180 graus e descobrir um Deus Apolo atrás de mim, Mike de terno, não posso descrevê-lo, os cabelos soltos até os ombros num loiro dourado, as covinhas aparentes num sorriso eletrizante e um porte de galã das antigas de Hollywood (que já não existe mais desde que a América foi praticamente dizimada por bombas nucleares).
Piora meu estado de ânimo saber que meu treinador é tudo de bom, menos acessível a uma soldadinha rasa e que mal saiu da infância como eu, apesar de musculosa, tenho corpo de criança, tenho quadris largos, mas tábula rasa na frente. Tenho vontade de chorar e ele percebe a minha aflição, puxa-me pro lado e desfaz-se o sorriso atraente estampado em seu rosto.
- O que foi Téo!! Está triste por quê? – ele vaga o olhar pelo salão, vê o Imperador se derretendo com Yasmine e volta os olhos pra mim. – Você sente alguma coisa por ele?
- Não, claro que não. Por que está dizendo isso? É que tivemos uma discussão de manhã, por questões políticas das quais discordo dele, só isso.
Não sei ser convincente e a última coisa que posso esperar de Mike é que ele seja burro, então tenho certeza de que ele sabe a verdade, ou parte dela.
- Sei que você não discute política com Zac e desconfio dos sentimentos dele por você, só não imaginava ser recíproco. – Ele diz isso com um olhar estranho, parece que emana uma mistura de raiva e decepção, mas não entendo a razão.
- Vou pegar uma bebida para nós e que isso nos ajude a sobreviver ao jantar. – Ele sai com uma elegância que lhe é natural, cumprimentando todos pelo caminho, disfarçando a expressão que enxerguei a pouco. Percebo como as mulheres olham pra ele, meu Deus como elas são descaradas!!!
Ele traz a bebida e tomamos em silêncio até que o jantar é anunciado, nos dirigimos à sala de jantar, ele me puxa pra sentar perto dele, eu dou graças a Deus, senão ficaria perdida em meio às pessoas, só então Zac coloca os olhos sobre mim, percebo a surpresa em seu olhar ao me ver vestida daquele jeito, mas ele disfarça e continua conversando com Yasmine, senta-se próximo à cabeceira da mesa onde sentam rei e rainha, ele fica ao lado de Yasmine e não param de trocar confidências. Minhas bochechas estão em chamas, tento manter-me ereta e preocupo-me em não derrubar nada, sou um desastre em eventos sociais.
Porto-me com zelo à mesa, fomos ensinados a nos comportar de maneira sóbria, cada prato servido é degustado como se eu não estivesse comendo de verdade, foi tudo muito automático e quando me dou por mim já estamos na pré-sala novamente e todos conversam, riem. Eu encaro o mestre que se mantém calado sem me deixar sozinha, respeita meu silêncio.
- Desculpe senhor, fui péssima companhia hoje.
- Téo, quero te pedir uma coisa, não me chame de senhor, somos instrutores de treino, trabalhamos juntos agora e... – ele titubeia, olha nos meus olhos e só complementa. – E seremos parceiros em breve. – Não entendo suas palavras porque minha cabeça está cheia de pensamentos confusos, me despeço e vou pra minha cama.
Antes de dormir ainda choro pensando que talvez perdi a oportunidade de amar e ser amada. Me esqueço que nessa fase tudo é muito grande dentro de mim.
Acordo sem vontade de levantar a cabeça do travesseiro, fico lá deitada e reservo-me o direito de tirar um dia de folga por conta própria, escuto umas vozes altas se aproximando da porta do meu quarto e ouço a voz de Mike, abrindo a porta com tudo, percebi que ele discutia com minha mãe.
- Vamos dorminhoca, já passamos da hora do treino, vamos treinar sozinhos já que você resolveu desistir do treino em grupo. – Ele se dirige a minha mãe que está atônita ainda com a invasão, talvez ela nem soubesse que ainda estava no quarto porque ela olha pra mim espantada.
- Tá bem Mike, cuide dela pra mim. – E me deixa sozinha com Mike enfiado dentro do meu quarto. Eu cubro a cabeça morrendo de vergonha do meu instrutor.
- Téo, levanta, antes que eu arranque essas cobertas. – Eu noto que estou com um short curtíssimo de seda e um top também curtíssimo, fico rubra e me desespero.
- Pelo amor de Deus eu estou quase nua, você é meu instrutor, eu tô morrendo de vergonha, você pode por favor sair do meu quarto e eu prometo que vou me arrumar, ok?
- Te dou 2 minutos, Téo e volto aqui dentro não me interessa como esteja. – Ouço a porta fechar, salto da cama e me troco rapidamente para não ser pega sem roupa como ele prometeu e sei que cumprirá, saio do quanto com cara amassada, o cabelo em desalinho, estou um desastre ambulante, ele sorri e segura uma xícara de chá.
- Tá feliz assim??? Dá pra eu, pelo menos escovar os dentes, me arrumar melhor e sair sem parecer o lendário monstro do Lago Ness???
Ele ri disfarçadamente, adota novamente a postura rígida e indica o banheiro de forma cortês.
Passo por ele pisando duro, já pronta e com olhos de ressaca, começo a caminhar em sua frente para chegar ao galpão sem dizer palavra. Ao chegarmos percebo que ele está vazio.
- Não é tão tarde assim, onde estão todos?
- Foram convocados para uma reunião extraordinária para as coordenadas de proteção e serviço na hora do baile, como não estaremos em serviço, achei que seria uma ótima oportunidade para treinarmos sozinhos e conversarmos.
A última coisa que eu queria agora era ficar sozinha com Mike e ainda conversar, seria uma catástrofe.
- Não quero falar de ontem, ok?
- Quem disse que vou falar com você sobre seu comportamento antissocial de ontem? – ele ri, apesar de perceber uma pontada de decepção por trás de suas palavras.
Ele se prepara para uma simulação de luta, eu me arrumo, coloco as luvas de boxe e inicio os movimentos sem falar nada. Assim ficamos por uns 3 minutos, até que ele começa a sessão de perguntas e pra minha surpresa vai direto a um ponto bastante delicado.
- Téo, você gosta do Imperador?
Paro de me movimentar, abaixo os braços e fico com cara de painel de aeroporto que anuncia voos cancelados, não sei o que responder e não espero esse tipo de pergunta de Mike. Será que os homens resolveram de uma hora para outra agirem de maneira estranha!!!!
- Por que tá me perguntando isso? Senhor, gosto do Zac da mesma maneira que o senhor gosta de mim.
Ele para, devolve um olhar desamparado, tira as luvas e senta no tatame. Bate no lugar ao lado dele, me sento obedientemente aguardando um pronunciamento. Ele respira fundo, expira o ar e começa.
- Eu sou homem e sei quando um homem está interessado em uma mulher e notei que o Imperador há algum tempo tem manifestado sentimentos mais profundos por você. Mas você o tem ignorado, até a última noite em que saíram da reunião e depois, enfim, a noite passada foi uma incógnita. Acredito que você o tenha desmotivado a ter qualquer esperança em relação a uma aproximação.
- Não consigo me sentir à vontade pra falar sobre isso com o senhor mestre. – Meu rosto já está em chamas novamente.
- Téo, apesar de não perceber por causa do treinamento em que somos tratados de forma tão igualitária, você cresceu, se tornou uma bela mulher e tem admiradores, um deles é o Imperador. E, por favor, pare de me chamar de senhor, eu sou jovem também.
Essas palavras batem com força em meu peito e eu tenho vontade de cavar um buraco sob meus pés e me afundar, meu estômago já afundou por conta própria, não sei, como sempre nessas ocasiões, o que dizer.
- Não posso responder a esse tipo de expectativa, fui treinada para lutar lado a lado com ele e não vê-lo como candidato a namorado. Politicamente ele tem que se preocupar com o que é importante para o país e nesse momento deve conhecer Yasmine e se interessar por ela.
Vomito as palavras com vontade de gritar, de sair correndo, mas digo tudo o que fui preparada a vida inteira para compreender e me comportar à altura.
- Téo, você tem sentimentos e ele também, aquele teatro de ontem só revela que ele está com o orgulho ferido. – Como não reajo a sua fala, voltamos pra luta calados, ele deixou minhocas em minha cabeça.
Depois do jantar em minha casa, eu e minha mãe ligamos o painel da parede para ouvir as notícias, não consigo me concentrar em nada que o jornalista diz, peço licença pra sair um pouco, minha mãe concorda.
- Filha, está tudo bem? – Minha mãe sempre respeitou meu silêncio, não costumamos conversar muito sobre muitas coisas.
- Sim, só quero dar uma volta. – Com sua aprovação, saio de novo para o ar fresco do jardim.
Estou sentada pensando em tudo que me aconteceu, há 3 noites minha vida tá mudando e estou perdendo o controle, sempre sonhei em me formar soldado real, compor a legião e viver tão somente pra isso. Minha cabeça ainda não tinha sequer cogitado qualquer ligação emocional, mas sei que meu coração é um traidor da causa e ele já estava com tendências suicidas e eu já estava sentindo algumas coisas com relação ao Imperador, as quais me recusava a sequer pensar.

- Oi – dou um pulo no banco do jardim e me coloco em guarda sem perceber, o Imperador está na minha frente com uma expressão indecifrável, meu coração salta dentro do peito. – Calma Téo, sou eu.

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