TRÍADE - Página 3

- Oi, Zac, ou será que vou ter de chamá-lo Imperador de agora em diante. – Fecho a cara e volto a me largar no banco como se não estivesse preocupada com sua proximidade.
Ele sorri e se senta ao meu lado.
- Já que você não se interessa pelos meus sentimentos, acho que me chamar de Imperador Regente é uma excelente ideia. – Automaticamente dou um soco em seu braço e ele reclama.
- Ai, Téo!! Você quer me espancar??? Deixa pro treinamento, tá, lá você pode dissolver sua raiva em mim, eu sinto muito em te decepcionar por gostar de você...
- Gostar de mim???? – Eu salto do banco, fico de frente pra ele e quase enfio o dedo em sua cara. – Como assim, você gosta de mim e fica se oferecendo para Yasmine e finge que eu não existo durante todo o jantar. Não entendo como você demonstra que gosta de mim dessa maneira.
Ele sorri, talvez porque eu dei a ele a certeza que ele queria.
- É bom saber que você não é indiferente a mim como mostrou na última manhã em que falamos a sós. Em primeiro lugar sou um cavalheiro e tinha que me comportar a altura de um Imperador, como você mesma aconselhou, em segundo lugar você também estava acompanhada com o grandalhão do Mike e em terceiro lugar você parecia bem distante de tudo no jantar, não estava incomodada com as minhas gentilezas à Imperatriz.
Olho pra frente desejando não ter dito nada do que em minha explosão de fúria, eu disse. Mas percebo com certa satisfação que ele tem ciúmes do Mike, olho pra ele com um sorriso vingador no rosto.
- Mike é bastante lisonjeiro e disse que vai dançar comigo no baile já que você só vai ter olhos para Yasmine. – Essas palavras libertam um Zac que eu não conhecia, ele se lança pra frente e atinge minha boca com ânsia, aproxima seu corpo do meu e eu retribuo, beijo-o com ardor, tudo se acende em mim e aquele sinalizador que desperta dentro de mim indicando perigo iminente como se fosse em uma guerra. Ele me envolve com seus braços e aperta minha cintura, seus lábios pressionam mais os meus e ele revela uma torrente incontrolável de um sentimento que antes eu não me permitia sentir. Os alarmes se espalham pela minha cabeça e eu o afasto.
- Acho que devemos permanecer numa zona de controle, Zac.
- Não quero ter controle quando estou com você.
- Eu não sou seu brinquedinho que você pode se aproveitar quando quer. – Falo com uma certa mágoa, não gosto de me sentir usada.
- Não, você não entendeu, eu sempre amei você, minhas intenções são as melhores Estela, quero fazer de você minha esposa.
- Zac, não é isso que seu pai espera de você, esses encontros com Yasmine são uma pretensão de união entre os países.
- Estela, não vivemos mais numa época em que os casamentos são arranjados e que a política vem antes do amor. Eu serei um rei com diplomacia, mas acima de tudo sou homem, quero escolher meus próprios caminhos. Vou pensar sempre no bem do meu país e do povo, porém não vou sacrificar meus sentimentos por isso. E você é a melhor rainha que poderíamos ter.
Meu estômago dói, minha cabaça dói, eu penso em tudo que ele diz, estou feliz, mas não completamente, me preparei a minha vida inteira pra ser uma combatente, não pra ser uma rainha empertigada, cheia de vestidos, serviçais e pensamentos românticos. Sinceramente, não sei o que dizer a ele.
- Você deve entender que o meu treinamento me torna uma mulher diferente das outras, nunca sequer cogitei em ser rainha e ficar o dia inteiro sentada no trono.
- Minha mãe não é uma pessoa superficial que só pensa em manicures e cabeleireiros e em belos vestidos!!! Você não entende que é exatamente uma mulher forte como você que preciso ao meu lado. Eu a admiro tanto Estela!
Vejo em seus olhos um amor que antes não achava que tinha o direito de enxergar. Ele tem razão em suas considerações.
- Desculpe, não quis dizer isso da Rainha, eu a admiro muito, ela é uma mulher excepcional, ela faz confidências pra mim que nem minha própria mãe faz. – Lembrei-me das vezes que chegava da escola emburrada e a Rainha me chamava a um canto e conversava comigo como uma mãe faz, me ajudava a lidar com problemas simples, o que muitas vezes minha mãe, por suas ocupações como conselheira, não fazia, enquanto ela reunia-se com o Rei e outros estadistas eu ficava em companhia da Rainha e conversávamos abertamente sobre muitas coisas. A Rainha podia ser tudo menos frágil ou superficial. Ela já suportou crises terríveis ao lado do Rei e sempre lidou com as situações de maneira exemplar. – Sua mãe é uma guerreira em outro sentido da palavra.
- Entendo o que quer dizer. – Ele toma meu rosto em suas mãos. – Deixa eu amar você, Estela, é só isso que eu quero agora.
Deixo-me ser abraçada e ficamos assim juntinhos no jardim, até que nos beijamos e nos despedimos. Não sei o que há entre nós, se poderei namorar o Imperador, porém sei que agora é exatamente isso que me permito querer.
Acordo disposta para o treino na manhã seguinte. Tomo meu café, dou um bom dia vivaz a minha mãe e saio em direção ao galpão. Estão todos lá e hoje, em especial, nosso treino será assistido pela Imperatriz Yasmine que, para meu desespero, está com um vestido vermelho deslumbrante que contrasta com seus cabelos negros e suas feições delicadas. Finjo que não a vejo e me dirijo para o centro do tatame onde meu instrutor me chama e quem me espera lá é o Imperador. Começo rodeando aos pulos a volta do ringue, como todo boxeador, me preparo para meu ataque rápido, ao me aproximar abaixo e dou-lhe um soco no estômago, minha maior vantagem sempre foi a rapidez, ele se recompõe se lança sobre mim dando um gancho de direita, eu me esquivo e pego seu pescoço forçando-o a se abaixar ele soca minha lateral, mas eu dou uma rasteira e o derrubo, assim consigo imobilizá-lo e nos soltamos. Ele me cumprimenta.
Sentamo-nos no tatame para acompanhar a próxima luta e observo um sorriso estampado no rosto de Mike.
- Téo, você podia ter permitido que eu ganhasse para que não fizesse feio na frente da Imperatriz. – diz o meu parceiro de luta fingindo desolação.
- Você sabe que pretendo decepcioná-la, não é? – Informo sorrindo e ele me devolve o sorriso. Viro-me para olhar a plateia e me deparo com o Rei numa expressão séria, bastante dura. Como eu já esperava, ele parece não gostar de minha aproximação com o Imperador, apesar de dizer o contrário, acredito que ele tenha receio de que nossa relação vá além da amizade, suas intenções reais são casar Zac com Yasmine. Isso seria excelente politicamente, ele já deixou isso claro.
O Rei faz um pronunciamento para anunciar o baile à corte. Nós ouvimos com atenção, na verdade meu pensamento viaja entre os desejos do Imperador, os meus e os desejos do Rei.
Retornamos ao castelo, depois de um exaustivo treino e me deparo com Rei vindo em minha direção com os braços abertos.
- Minha querida Téo, posso falar com você a sós!! – Olho pros lados, o Imperador já não estava conosco, sua presença foi solicitada em uma reunião no castelo, eu aceno afirmativamente com a cabeça e o acompanho.
Quando já estamos sozinhos numa das salas de estar do castelo, ele senta-se numa poltrona acolchoada e aponta outro assento pra mim. Eu me sento e permaneço calada esperando o que ele tem a dizer.
- Minha bela e doce Estela. Seu pai e sua mãe são pessoas de grande importância em meu reinado, tenho vocês em alto apreço e você, que até pouco tempo era uma menina que brincava com meu filho, tornou-se uma bela mulher, cheia de atrativos, mas continua sendo um de meus melhores soldados, você sabe que soldados são fiéis aos seus senhores, certo?
Empertigo-me no lugar, sabendo que o discurso está se encaminhando para uma terreno perigoso e percebo intenções obscuras por trás de suas palavras. Tenho muito respeito pela figura a minha frente, ele é o meu Rei, fui treinada a defender-lhe a vida com a minha própria se preciso fosse, porém tenho a impressão que sua voz tende a me diminuir de alguma forma, continuo em silêncio, meu reflexo apenas faz com que eu balance a cabeça afirmativamente, eu continuo escutando.
- Preciso que compreenda, sei que meu filho tem por você uma grande amizade, afinal, foram treinados juntos. Ele será um estadista, o principal homem de nosso governo, terá o dever de pensar em primeiro lugar no bem dessa nação para apenas depois pensar nos seus próprios interesses, como todo bom Rei deve fazer.
Não consigo me conter mais e começo meu discurso suicida.
- Sei onde quer chegar, mas quero lembrá-lo de que todo Rei também possui sentimentos e que toda Rainha deve ter inteligência, perspicácia e ser uma verdadeira diplomata ao lado de seu Rei e também devo lembrá-lo de que não somos escravos de nossas posições e temos sentimentos que devem ser levados em conta para o bem do povo é necessário que o Rei seja feliz.
- Ah, minha doce Estela!!! Não é à toa que sempre foi a primeira da sala de aula, sempre foi inteligente, forte, perspicaz. São qualidades, mas lembre-se de que há uma linha tênue entre qualidades e defeitos, meu anjo. – Suas palavras são doces, mas seu tom é duro como navalha. Nunca conheci esse lado do Rei e ele, particularmente, me surpreende, mas não me intimida.
Levanto-me, curvo-me num cumprimento cortês e solto o último fato que entrega a minha cabeça ao meu algoz.
- Pense como quiser. – Saio da sala sem olhar pra trás e sem pensar que isso geraria mudanças profundas em meu futuro.
Sábado de manhã ao acordar, me lembro de que tenho um baile mais à noite, tomo meu café em silêncio enquanto minha mãe assiste ao jornal. Ela sempre assiste aos noticiários, em seu cargo ela precisa estar informada de tudo o que acontece pelos país. Ouço parte da notícia que diz que o país está vivendo uma crise de água. Não havia pensado nisso, mas realmente há muito não tem chovido na região em que fica o castelo. Estamos sempre tão preocupados com os assuntos locais que não parei pra pensar nos problemas das cidades. O que não está certo, afinal, sou uma cidadão de Avórdia, devo me preocupar com tudo o que diz respeito ao nosso povo.
Ainda pensando em tudo isso, ouço o som da campainha.
- Deixa que atendo Joana. – Joana é uma senhora de uns cinquenta que trabalha com a gente desde que eu nasci ou desde que meus pais se casaram na corte, ela é uma segunda mãe pra mim.
Abro a porta e me esqueço de que estou de camisola de seda que não cobre direito a minha lingerie. Fico roxa ao avistar Mike na porta. Ele tem uma reação engraçada, sorri abertamente. Ultimamente tenho visto ele fazer algumas coisas que não são corretas pra um mestre como ele.
- Bom dia Téo!! Saiu da cama agora? – Me contorço toda e corro pro quarto pra me trocar. Droga, meu comportamento é lamentável e na frente do mestre!!!
Quando volto pra sala ele está aconchegado no sofá perto de minha mãe discutindo as notícias.
- Agora sim está vestida de acordo com o que vim pra fazermos. – Tinha vestido uma calça jeans e uma regata vermelha escrito “Tô cansada, mas não tô morta”. – Interessante a frase, Téo!! – Ele cai na gargalhada como eu nunca vi antes.
- Dá pra devolver meu mestre que você engoliu!! Não é possível, não acredito em alienígenas, mas parece que foi abduzido, devorado e devolveram essa pessoa aqui na minha frente.
- Ah, Téo, relaxa, eu sempre fui assim, é que agora estaremos mais próximos do que nunca.
Mais um mistério pra eu entender, do que raios ele está falando. Será que isso tem algo a ver com a bendita surpresa do baile pra mim? Pode ser, no entanto não consigo imaginar o que seria, deixo as dúvidas pra depois e questiono.
- Onde você quer me levar? – Nos despedimos de minha mãe, não tenho o hábito de beijá-la ou abraçá-la, só digo um “tchau, até mais” e saio com ele. Ela não questiona, afinal confia no meu instrutor.
Caminho ainda ao seu lado sem saber o destino.
- Estamos indo ao ateliê de costura, quero que veja seu vestido e quero que palpite sobre minha roupa.
Deus eterno parece que ele me deu um soco no estômago, odeio isso, não é possível que além de vestir ainda terei que palpitar, estou num pesadelo. Viro no calcanhar pra voltar pra minha casa, Mike me agarra pelo braço e aproxima seu corpo do meu, demais pro meu gosto. Sinto seu hálito de menta no meu rosto, seus olhos cor de mel depositam-se em minhas faces que já estão bem quentes.
- Me solta mestre! Não quero uma sessão de compras no shopping como se dizia antigamente.
Ele permanece com uma mão em meu braço a outra está dentro do bolso de seu jeans e pra dizer a verdade ainda não havia reparado que ele estava de baby look bem justinha, seus músculos saltavam pra fora e seus bíceps, paro de observar porque acredito que estou me entregando. Olho fixo em seus olhos que carregam algo estranho, melhor mudar o rumo das coisas.
- Vamos mestre, o senhor...
- Opa, já não disse que não sou senhor?
- Ok, você está me levando pra uma vexação pública, pelo amor de Deus, não posso fazer isso!!
- Calma mocinha. Vamos aproveitar pra uma conversa descontraída!
Meus pés se arrastam para o local de punição, mas ao chegarmos somos recebidos tão bem pelas costureiras reais, elas são bastante agradáveis, como eu já expliquei todas conhecem nossas medidas e têm o calendário de eventos do reino, devem costurar para toda corte, por essa razão, ainda bem, não temos que nos preocupar com isso. Há pessoas que acompanham e palpitam sobre seus figurinos, exigem mais roupas, eu estou satisfeita com meus uniformes.
Quando elas me levam até meu vestido, perco o fôlego e penso no sonho que tive, ele é de um carmim cor do vinho, lindíssimo, todo bordado no peito, é tomara que caia com pregas que deixarão meus peitos maiores do que eles são graças aos enchimentos, é todo justo e tem uma fenda, meu Deus, ela vai até o alto da minha coxa, isso não parece certo. Abro a boca pra falar algo e pra minha surpresa o mestre diz que coordenou o modelito.
- Como assim, você pediu que elas fizessem essa fenda enorme que arremessa meu corpo por todo o salão?
- Não seja exagerada Téo!! Todas as outras moças vão desejar ser você esta noite, o vestido teria que estar à altura, Vossa Majestade pediu para que eu acompanhasse o processo todo com você, como sei que você não se embrenha nesse campo, resolvi dar uma mãozinha às nossas amadas costureiras para que tudo saísse perfeito.
- Não tinha a mínima ideia de que você é entendido de moda, mestre.
- Você não tem a mínima ideia de muita coisa, Téo! Hoje tudo isso vai começar a mudar.
Novas referências aos mistérios do que irá acontecer mais à noite. Nem sei se quero perguntar alguma coisa, porém isso já está me deixando bastante assustada.
Ele pega minha mão e me leva até seu terno, antes que eu palpite algumas mudanças necessárias em minha roupa, bato os olhos em um terno maravilhoso cor de chumbo com corte impecável, nem posso imaginá-lo naquela roupa, desvio o olhar e apenas solto um suspiro e um “uau”.
Ele parece feliz com minha reação, nos sentamos a um canto do ateliê onde as pessoas aguardam para ver suas roupas. Pelo seu semblante ele vai dizer algo sobre o que vai acontecer, só aguardo em silêncio.

- Sabe Téo, você sempre foi minha melhor aluna, o Imperador não tem seu talento e posso dizer com toda certeza, não tem sua audácia e sua perspicácia pra enxergar além. 

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