TRÍADE - Página 8

Depois de mais ou menos 2 horas de viagem, estávamos num lugar bem alto e Mike me puxou pelo braço e apontou, no pé da montanha muitas tendas que se perdiam no horizonte.
Nos abaixamos e descemos um pouco para não sermos vistos, foi então que explanei minhas intenções para que o Mike soubesse o que eu queria fazer.
- Eu vou na frente, sozinha, com as mãos levantadas, como se estivesse perdida, vou dar a volta pela lateral da montanha, você me espera aqui, terá ângulo para atirar se precisar.
- Não!! – ele puxou o meu braço – você está louca? – não vou deixá-la ir sozinha!
Tirei meus óculos, fixei meus olhos nos dele e soltei.
- Você acha que eles vão confiar num homem de quase dois metros cheio de músculos com macacão de soldado, ao menos a minha figura, solitária, é vulnerável demais pra atirarem primeiro e perguntarem depois, eles não vão querer um acidente diplomático logo de cara. Pense bem!!! E eu já sei exatamente o que falar.
Ele me soltou com os olhos preocupados e marejados (tenho certeza apesar de não vê-los) por debaixo dos óculos de neve.
- Minha arma estará apontada e eu não vou ficar aqui, vou estar escondido no pé da montanha, pois desceremos pela lateral, darei um jeito de ficar encoberto, ok?
Não sabia ao certo como, mas confiei nele, sabia que disso dependia minha própria segurança, descemos ao encontro do inesperado.
Fiz exatamente como disse, com exceção de, no pé da montanha, ter pegado um pano branco que eu trouxe na mochila para abanar em sinal de paz (afinal, era linguagem universal desde tempos remotos) e pegar uma faca e passar na própria mão pra que houvesse sangue pingando que eu esfreguei por todo o macacão e no rosto também. Olhei pra trás e não vi mais Mike, ocultado pelo pé da montanha, vendo me cortar ele devia estar surtando escondido.
Encenando uma perna manca como se estivesse mesmo machucada, com as mãos um pouco erguidas acenando o pano com dificuldade, pois eu estava machucada, gritei.
- Por favor, alguém me ajude, fui atingida. – E me estabaquei no chão esperando socorro, vi de relance as armas apontadas pra mim com homens e mulheres se aproximando atônitos, ouvi vários comando e um homem se destacou no meio da massa que se amontoou a minha volta.
- Quem é você, apresente-se ou vai morrer aqui mesmo no gelo sangrando.
Meu Deus!! Eles não tinham pena de uma pobre moça sozinha e indefesa no chão sangrando, tava começando a acreditar que o Rei tinha razão em relação a esses sem pátria.
Fingi dificuldade em levantar a cabeça e dizer.
- Por favor, eu estou sozinha sangrando nesta neve por causa daquele Rei Tirano de Avórdia, será que não posso ser ao menos socorrida? Não ofereço nenhum perigo!!
Somente em pronunciar as palavras “Rei Tirano” foi meio que um código de honra para que aceitassem o sinal do homem que falava comigo e indicava para que eles abaixassem as armas, eles o fizeram.
- Por favor, preciso falar com o líder de vocês, preciso de ajuda contra aquele Rei Tirano. É por causa dele que estou aqui toda machucada.
O homem que se dirigiu a mim deu mais alguns passos para se aproximar de mim e abaixou-se pra ficar perto dos meu ouvidos se apresentando.
- Sou Rashid essa história está mal contada e se você estiver me enganando e se houver um exército em algum ponto desta montanha, você estará morta, entendeu?
- Entendi, quero que saiba que preciso conversar com você, fui enviada como está percebendo pra morrer por suas mãos, não sei por que razão, mas o Rei quer se livrar de mim, não sei se pra envergonhar ou até mesmo destruir meu pai!
Ele ergueu uma sobrancelha e questionou – Quem é seu pai?
- Meu nome é Estela Brite, sou filha do General Tomas Brite.
Ele levantou-se rapidamente e ordenou.
- Levem a moça pra enfermaria, rápido. – Virou-se pra mim e completou. – Eles vão atendê-la e daqui a pouco estarei lá pra conversarmos.
Nossa!!! Ao som do nome de meu pai, o líder simplesmente mudou completamente de atitude. Graças a Deus que meu pai veio ao nosso encontro, agora eu tinha a porta aberta para um diálogo e afinal descobriria os podres do meu querido Rei. Só estava orando a Deus para que o Mike aguardasse a oportunidade certa pra eu anunciá-lo ou perderia a confiança de Rashid, por enquanto seria atendida com segurança. Fase 1 do plano: concluída com sucesso.
A primeira coisa que fizeram na enfermaria foi usar um aparelho para detectar rastreadores, mas nada encontraram. Depois dos curativos feitos na palma de minha mão, eles cuidaram também das bolhas dos meus pés da longa jornada que fizemos. Levaram-me pra tomar um banho. As tendas eram amplas, ao menos a da enfermaria era e tinha muitas camas desmontáveis. Assim como a que eu estava agora, ela era particular tinha uma cama enorme desmontável, mas parecia extremamente confortável, telão projetado na lona da tenda, assim como um lugar isolado pra um chuveiro improvisado com uma caixa grande ao lado de onde bombeava água quente para o chuveiro, havia um sabonete delicioso com cheiro de erva doce, shampoo e condicionador. O banho foi uma bênção, no meio da Sibéria, dentro da tenda tínhamos um ambiente agradável, a lona com certeza era feita, como nossas roupas, de material térmico e ocupava o chão e as paredes, apenas com abertura para entrada que era mantida fechada para preservar a temperatura interior, tudo muito confortável. Minha visão de que eles viviam em péssimas condições na neve, morriam aos montes e eram cruéis e molambentos foi pro espaço. Não era nada disso. Havia muita tecnologia ali. Detalhe importante é que todos exibiam netpis, porém, pelo que percebi, melhor que os nossos, havia outros aplicativos que desconhecia. Pedi pra moça educada chamada Diana que me acompanhou, ajudando na tenda, imaginei que era dela, de sua família, ela me recebeu muito bem sob as ordens de Rashid.
Mais tarde depois de terem me alimentado com cordeiro assado e patê de menta com condimentos. Eu pensava o tempo todo que estava bem ali e Mike naquele gelo lá fora, nossa barraca também era aquecida, mas não se comparava nem de longe no conforto que tinha ali.
Achei que Rashid demorou pra vir falar comigo, não sei ao certo  quando chegou, nem quantas horas depois de terem cuidado de mim, eu estava bem ansiosa pelo que iríamos conversar, afinal, meu destino, eu tinha certeza, tava enroscado naquele diálogo.
- Boa noite, senhorita Estela! Está se sentindo melhor? – ele entrou na tenda depois de ser anunciado por Diana.
- Sim, senhor Rashid! Muito obrigada, não imaginei que depois de pronunciar o nome de meu pai seria recebida com tamanha hospitalidade. Na verdade, achei que seria picada em pequenas fatias de Estela e lançada aos ursos.
Ele abriu um largo sorriso para minha grande surpresa.
- Só quero perguntar-lhe uma coisa antes de começarmos explanar o problema aqui. – Fiquei tensa ao ouvir a palavra “problema”, até então achei que estávamos indo bem.
- Sim, senhor Rashid! Pode perguntar o que quiser.
- Não está sozinha, está? – seus olhos perscrutavam insistentemente os meus com muita cautela.
Fiquei preocupada com minha resposta, mas depois de ponderar imaginei que um homem que reconhece meu pai como boa pessoa, não nos faria nenhum mal.
- Realmente, mas é apenas um e da minha mais absoluta confiança e também de meu pai. Não é nenhum espia, ele só se ofereceu para cuidar de mim, nem era pra ele ter vindo e arriscado sua vida junto com a minha. Se o senhor puder oferecer-lhe a mesma hospitalidade serei muito grata.
Ele continuou com os olhos pregados nos meus, talvez pra pesar se eu estava realmente dizendo a verdade e após alguns segundos para minha total angústia resolveu se pronunciar.
- Vou mandar chamá-lo, mas sinceramente, acredito que é melhor que ele não participe da conversa se a senhora não quiser que tenha problemas também em seu Reino, porque eu sinto dizer, mas a senhora já está numa grande enrascada por causa das intenções políticas do Rei. Se é que a senhorita me entende?
- Entendo plenamente e concordo com os termos. É melhor que ele não se envolva até o pescoço como eu já estou envolvida.
Ele sorriu novamente demonstrando reconhecer alguma coisa de valioso ali.
- Senhor Rashid, se importa se eu for buscar Mike, estou preocupada, ele está sozinho lá fora na neve espessa.
- Oh claro! Vou pedir que vá escoltada por uns 4 homens e fale com ele que estamos em paz. Enquanto oferecemos nossa hospitalidade a ele em outra tenda, teremos nossa conversa, ok?
- Sim, por favor, agradeço imensamente! – levantei-me, ele já se retirou chamando homens para cumprir a nossa tarefa.
Quando já estávamos no pé da montanha onde fui abordada, gritei o nome de Mike.
- Mike!! Pode vir, eles me receberam muito bem, onde você está, apareça. – meu coração começou acelerar porque eu não ouvia nenhuma voz em resposta. Resolvi caminhar um pouco além dos homens, fiz sinal para que me esperassem e eles concordaram. Caminhei fazendo o contorno no sopé da montanha e me deparei com um Mike desmaiado, corri até onde ele estava chamando seu nome, tomei seu pulso, meu coração quase saltou do meu peito, ele já não batia, rimbombava; ele estava bem, até que percebi um pouco de sangue na lateral de seu corpo, fiquei desesperada e gritei por ajuda, os homens se aproximaram e um deles, ao ver o sangue, percebi que trazia uma maleta de primeiros socorros, olhou o sangramento e pediu para que os outros ajudassem a montar uma maca onde o colocaram e o levamos para a tenda da enfermaria.
Chegando lá o médico pediu para que eu saísse para eles verificarem a gravidade da ferida, mas eu insisti e não arredei pé. Eles tiraram o macacão de Mike, meu rosto começou a esquentar, infelizmente não tinha como ficar imune a tudo aquilo, pernas torneadas, bíceps, mas não me esqueci de que ele estava perdendo sangue e eu não sabia a razão, como será que estava o ferimento? Era o motivo da minha angústia.
Eles examinaram e o médico voltou até mim e disse que foi algum animal das montanhas que o atacou e com certeza ele, não querendo fazer barulho, não usou a arma. Todavia o sangue já tinha sido estancado e ele seria cuidado agora.
- Pode ir senhorita, seu companheiro vai ficar bem, ele é forte.
Eu já estava chorando sem perceber, as lágrimas rolavam quentes no meu rosto. Solucei e me aquietei com a notícia.
- Foi culpa minha, deixei-o lá sozinho por muito tempo.
- Não, senhorita, como poderia saber o que aconteceria e não podia arriscar a vida dele também. Pode ir continuar a sua conversa com Rashid, ele ficará bem, levarei notícias.
Me acalmei sabendo que realmente eu não poderia fazer nada e tinha, até por instinto, a certeza de que ele estaria em boas mãos.
Dirigi-me à tenda novamente onde conversávamos, acompanhada por Diana que não saiu do meu lado permanecendo calada. Chegando lá o Senhor Rashid levantou-se para receber-me com uma reverência (costume diferente do meu que apenas estenderia a mão).
- Tive notícias de seu amigo, ele vai se recuperar logo, fique tranquila. - Sentei-me e vergonhosamente fungando por ter soluçado de tanto chorar. Mike era tudo o que eu tinha ali.
- Desculpe pelos meus modos, é que foi por minha culpa que ele permaneceu lá à mercê de animais, nem atirou para que não me colocasse em risco.
- Calma senhorita, ele vai ficar bem. Mas fique tranquila, todos choramos quando estamos preocupados com quem amamos, todos que têm humanidade, isso tem muito valor para nós.
Eu parei de fungar e confirmei minhas suspeitas, aquele povo não tinha nada de cruel, as minhas dúvidas estavam se tornando reais, a sordidez e a vileza não estavam ali, eu havia, durante toda a minha vida, trocado os papéis.
Enquanto conversávamos, o médico se fez anunciar por Diana e entrou na tenda com a permissão de Rashid.
- Senhorita, vim para tranquilizá-la ainda mais, ele já foi sedado, já fizemos a sutura do local do rasgo feito, provavelmente por um urso (viu meus olhos se arregalarem e se apressou em dizer), porém ele está bem, não corre nenhum risco, o local foi desinfetado e ele está respondendo bem aos remédios para acelerarem o processo de fechamento da ferida. Está dormindo agora.
Levantei-me sem pensar no que estava fazendo, abracei-o e agradeci.
- Muito obrigada, muito obrigada! – me afastei um pouco preocupada com minha reação, o homem estava vermelho como pimenta e o senhor Rashid ria. O médico fez uma reverência e saiu da tenda.
- Vocês ocidentais são ainda muito calorosos. Se houvesse alguma dúvida quanto a sua índole, neste gesto ela teria se dissipado instantaneamente. – ele parou de sorrir, franziu o cenho e começou num tom quase monótono.

- Imagino que não tenha entendido a princípio a missão imposta por seu Rei dada a uma garota tão jovem para tentar dialogar com um povo tão rude que poderia matá-la na primeira oportunidade, mas como já deduzi que a senhorita é bastante inteligente, também estabeleceu pontes de conexão entre sua missão e a posição de seus pais no governo, principalmente, de seu pai.

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