TRÍADE - Página 6

Largou meus ombros, pegou minha mão entre as suas e sem que fosse visível, depositou um papel ali, fechou minha mão discretamente, eu arregalei os olhos e ela deu uma piscada muito, muito discreta.
Claro que guardei disfarçadamente o bilhete no bolso e sorri pra ela.
-Certo mãe, tem razão, devo confiar no tino político do Rei, Vossa Majestade sempre sabe exatamente o que fazer pra alcançar seus objetivos. Eu entendo e aceito a missão. Vou me trocar, quero falar com Mike sobre os preparativos.
Dei um beijo leve em sua face e fui pro quarto fazer o que disse.
Minha cabeça girava por todas as informações que havia recolhido, nas atitudes, nas falas e no comportamento das pessoas. Como diria Shakespeare “há algo de podre no reino da Dinamarca”, nesse caso em nosso reino e isso estava me cheirando a encrenca.
Encontrei Mike na galeria dos cafés, havia cafés espalhados por toda uma ala do castelo, sentei-me na cadeira ao lado dele, pela cor da bebida ele tomava um cappuccino. Pedi um também, ficamos em silêncio por uns 2 minutos, talvez porque tivéssemos medo do que falar.
- Sabe Téo, agora mais do que nunca ao invés dos nossos músculos, vamos ter de usar nossa inteligência!
- Eu sei. – confirmei e sorri largo, indicando que estaríamos juntos e ele teria uma aliada à altura da missão – Mas vamos fazer o nosso melhor, preparado para as dificuldades?
- Eu estou, mas minha preocupação é com a sua falta de experiência e tem um outro agravante – ele aproximou o rosto do meu e disse bem baixinho – não somos diplomatas! – Voltou à posição ereta – mas faremos nosso melhor!
- Vou passear um pouco no jardim ou além dele, preciso esfriar a cabeça!
- Vou com você!
- Não, eu quero ficar sozinha um pouco antes de viajarmos, é importante!
Ele me olhou com sofrimento estampado no rosto, tentou dizer mais alguma coisa, porém desistiu, não forcei, me despedi e saí com a cabeça cheia.
Me afastei do castelo com o intuito de fugir de qualquer tipo de supervisão, nunca havia pensado nisso até minha mãe colocar discretamente aquele bilhete na minha mão, a partir daí comecei a entender que estávamos nos limites reais, não havia privacidade, deveria haver escutas e câmeras escondidas. Nunca havia sequer cogitado a situação, mas é exatamente por isso que meu pai sempre conversou amenidades com minha mãe, nunca o ouvi se aprofundar em que tipo de missões ele cumpria lá fora, ou mesmo ela nunca comentou sobre suas decisões de governo, como pude ser tão tola e avoada todo esse tempo, com certeza nunca tivemos privacidade e isso começava a me assustar porque afinal, não tinha como saber os problemas reais (no duplo sentido) que eles enfrentaram e ainda enfrentam.
Abri o bilhete com o coração descompassado porque não sabia o que esperar.
Querida
Não tenho como contar nada aqui, só quero dizer que essa missão é suicida, os nômades não vão ouvir vocês, eles não confiam no rei. Não consegui impedir que você fosse eleita pra isso e eles queriam que fosse você.
Só peço que use toda sua intuição, perspicácia e coragem e confie no Mike, ele te respeita e ... você deve saber!!!
Te amo
O papel a essa altura já estava molhado em vários pontos, minhas lágrimas caiam sem eu poder controlá-las. Sequei meu rosto e pensei que não deveria me permitir chorar, tinha muito sobre o que pensar e estudar a situação, tinha que agir com perspicácia, coragem e intuição.
O que ela quis dizer com “o Mike te respeita e... você deve saber”, não, eu não sei e agora as coisas estão muito complicadas para pensar nisso.
Voltei pra casa e posso dizer que não consegui pregar os olhos a noite toda, de manhã evitei muitas despedidas, só dei um beijo e um abraço apertado em minha mãe (o que  era difícil acontecer) e ouvi um “se cuida” acompanhado de olhos vermelhos, não me detive, saí carregando uma mochila, apesar de saber que havia suprimentos e uniformes preparados no nosso planer. Iríamos chegar bem rápido por causa do supersônico, em questão de hora estaríamos lá, se tudo corresse bem, eles já haviam nos dado um GPS com as coordenadas de localização dos nômades, coisa que sabíamos que poderia se complicar se eles se locomovessem durante nossa viagem. Contávamos com as indicações dos satélites que enviavam orientações para o GPS, mas sabíamos da capacidade de camuflagem.
Cheguei ao hangar no dia seguinte com cara de poucos amigos, me deparo com Zac andando de um lado para o outro, ao me ver ele se joga sobre mim e me aperta, Mike, que já estava me esperando, fica parado apenas olhando com aquela expressão indecifrável!
- Téo, não pude evitar, discuti com meu pai para que ele não a enviasse, queria ir no seu lugar, mas ele é cabeça dura e não houve sequer diálogo, mas se você quiser (baixou a voz e aproximou mais sua boca de meu ouvido) podemos fugir.
Eu não aguentei e ri, na verdade eu dei uma gargalhada nervosa.
- Não Zac, não é assim que as coisas funcionam, pense bem, pra onde iríamos? Seu pai é o Rei deste país, deixe que as coisas sigam seu fluxo, tudo vai dar certo. – eu não tinha essa certeza, mas tinha que transmitir isso a ele, nesse momento tão difícil pra nós dois.
Sem se incomodar com todos os olhos cravados em nós, ele apertou seus lábios contra os meus e me beijou de uma forma tão intensa que passei os braços sobre seu pescoço e me esqueci por alguns segundos de toda a plateia. Só ouvimos um “hã hã” atrás de nós depois sabe-se lá de quanto tempo e nos separamos. Seus olhos estavam cheios de água e eu estava me segurando pra não chorar. O dono da voz que nos interrompeu continuou com uma voz mais grave que a habitual.
- Vamos Téo, temos uma missão a cumprir. – olhei pra Mike, ele tinha uma expressão bem séria.
- Ok, só me dá mais um minuto. – ele se afastou a contragosto.
- Preciso que aceite o que tenho pra fazer – ele quis dizer algo, mas eu o interrompi, não havia tempo para contradições – temos que encarar a situação, tenho que ir, farei o meu melhor, ok?
- E se não for o suficiente? Se acontecer... não quero sequer pensar em te perder Téo! – sua voz estava suplicante e embargada.
- Hei! Sou eu, a Téo que te vence em todas as lutas! Vou me cuidar, prometo e o Mike vai garantir que voltemos em segurança, ok? Tenho que fazer isso. – não tinha certeza de nada, no entanto tinha que passar essa confiança pra ele, era necessário pra que ele me deixasse partir.
Extenuado e triste ele soltou minha mão.
- Se cuida, saiba que eu te amo!! – e depositou em minha mão um anel maravilhoso com uma pedra azul linda. – eu tentei recusar, mas ele já estava sofrendo o suficiente. – Coloque-o pra que você se lembre de que eu te amo e quero fazer de você minha esposa.
Queria recusar e dizer que isso não era hora, na missão não poderia usar aquele tipo de joia, que tudo isso era muito precipitado porque eu não sabia o que iria acontecer, mas a dor que invadiu meu peito e o apertou como se ele não tivesse mais espaço dentro de mim, fez com que me calasse, balançasse a cabeça positivamente e colocasse o anel com carinho, sabia que aquilo amenizaria um pouquinho nossa dor. Virei-me e ignorei seu choro pra que eu pudesse seguir em frente naquilo que era necessário fazer.
Ao entrarmos no planer, nos ajustamos aos comandos, fizemos uma oração (pois o impossível é pela fé como críamos) e partimos. Afastei da minha mente a imagem dolorosa de Zac, tinha que me concentrar em minha missão. Mike não deu uma palavra a respeito do que presenciou, porém suas atitudes demonstraram total insatisfação, não sabia ao certo por quê.
Eu sabia que o lugar era bastante instável, estamos falando da Sibéria onde os nômades se instalavam, baixas temperaturas, nevascas, tudo isso se juntava ao fato de estarmos indo conversar com um povo que não conversava com enviados do Rei Urias.
Conversamos durante a viagem, pois ligamos por um longo tempo o piloto automático e decidimos que desceríamos há algumas horas de viagem para chegarmos a pé até o local, porém quando ainda conversávamos fomos atingidos por um laser e soubemos que as dificuldades seriam maiores do que pensávamos.
Rapidamente tomamos os controles da nave e desviamos de outros ataques, o laser atingiu um motor, fomos obrigados a diminuir a velocidade, assim ficamos mais expostos, mísseis de longo alcance estavam sendo atirados em nós.
- Não consigo estabilizar a nave, um dos motores já se foi com essa velocidade ficamos mais vulneráveis – estávamos agora sob ataque cerrado – Téo, temos que descer e seguir a pé, assim não conseguiremos nos aproximar, prepare-se para atirar.
- Não! – eu gritei – nossos esforços para um diálogo serão inúteis se atirarmos uma só vez.
Ele olhou pra mim incrédulo, estávamos sob fogo cruzado, ataques constantes.
- Então, segure-se, vamos descer! Mas estamos há uns dois dias de viagem do ponto em que eles, segundo o GPS, se encontram.
- Não importa, é nossa única chance!
Ainda desviando dos ataques, fomos atingidos mais algumas vezes e, apesar da blindagem da nave, não podíamos estimar as avarias, a nave estava perdendo altitude e não havia muita estabilidade, Mike, exímio piloto, conseguiu, apesar dos percalços, quase estabilizar a nave para a queda inevitável, saímos da linha de combate ao cairmos, Mike tentou estabilizar os controles, mas estava quase impossível, a nave imbicou para o chão e achei que iríamos nos estraçalhar no pé de alguma montanha, o impacto na neve foi forte, porém, graças a Deus, em razão da blindagem e da tecnologia de espuma contra impactos que foi lançada automaticamente pela nave, durante a queda, conseguimos sobreviver. O caos havia se instalado, os controles e a nave estavam muito avariados, não sabíamos naquele momento se conseguiríamos levantar do chão novamente.
Descemos da nave, com nossas armas em punho, mas só vimos neve até o horizonte, ou melhor até onde podíamos enxergar, porque havia uma forte nevasca onde caímos. Permanecemos dentro da nave até descobrirmos o quanto tinha sido afetada e prontos para um ataque por terra, mas algumas horas se passaram, pelo jeito acreditaram que havíamos morrido na queda.
Não era seguro ficar na nave, mas arriscamos porque é difícil sobreviver durante uma nevasca, além de analisarmos os danos, ainda tínhamos que preparar suprimentos em nossas mochilas que dessem para quanto tempo precisássemos, seja lá quanto fosse, segundo o GPS estávamos há um dia e meio de viagem da localização do acampamento nômade.
Mike parou pela primeira vez, depois de tudo que aconteceu e de passar tantos comandos pra mim, não tivemos tempo sequer de concatenar as coisas, entender a situação. Ele me olhou com um misto de surpresa e desolação.
- Você foi fantástica Téo, quando está sob grande tensão age com uma precisão incrível, quanto mais adrenalina melhor você funciona, isso é demais! Obrigada por estar comigo! Não queria que fosse você para sua própria segurança, mas nenhuma outra pessoa teria tanto sague frio.
Ele me olhava até com admiração, isso era extremamente acolhedor naquele momento tão caótico. Eu nem percebi o quão ágil fui dentro da situação que acabamos de passar, simplesmente fazia o que ele pedia com presteza e habilidade, apenas um erro seria fatal, afinal, nossa vida dependia de nossas ações sob muita, muita pressão.
Eu sorri e ele retribuiu meu sorriso deixando nosso espaço mais acolhedor. Abracei-o sem pensar, seguindo meus instintos, ele retribuiu, mas seu aperto se intensificou e ele puxou meu queixo para encará-lo. Estávamos a milímetros do rosto um do outro. Eu enxergava os riscos de sua íris maravilhosa de cor âmbar. Aquela aproximação, o calor de nossos corpos emanando de um para o outro.
- Téo, você é especial demais pra eu te perder, por favor, não faça nenhuma tolice, sei que é inteligente e há pouco deu provas disso novamente, mas não brinque com sua vida, eu quero e preciso protegê-la. – afastei-me com delicadeza e diria que, com certo esforço e resolvi quebrar o clima esquisito em que havíamos mergulhado.
- Eu sou seu melhor soldado, não me confunda com uma mocinha em perigo, ok? Vamos conseguir, calma, estamos só começando! – sorri e dei um soco em seu bíceps que, claro, só machucou a minha mão, não moveu um milímetro seu braço.
Não estava tão tranquila quanto procurava demonstrar e eu sabia que ele percebia isso. Me conhecia muito para ser enganado.
- O que você acha que aconteceu? Não esperávamos por uma ataque a essa distância do acampamento, foi tudo tão repentino!
- Eu deveria ter previsto que eles estariam preparados quando entrássemos no espaço aéreo “deles”, afinal, a proteção que tinha que estar realmente antes do acampamento e não tão próxima quanto pensei. Um erro que não podemos cometer novamente, deles valem nossas vidas! – ele olhou-me novamente com desolação.
- Você ainda não me disse nada sobre os nômades, preciso saber mais do que sei, pois vamos ter que tentar um diálogo.
- O que sei também não ajuda muito, eles são treinados pra batalha, têm muita tecnologia, afinal, conseguem viver nesse ambiente inóspito, conseguem se camuflar dos satélites, não têm muito coração, são pessoas que visam poder, dominar territórios e não são nada generosos com intrusos.
- Algumas coisas se contradizem na sua fala, eles não têm país, como lutam por domínio??? Por que nunca conseguiram formar um país se lutam por territórios desde sempre?
- É – coçou a cabeça pensativo – isso realmente não tinha cogitado.
- Vamos, temos que enfrentar o tempo lá fora, se quisermos chegar antes que eles se afastem tanto, porque com a nossa chegada já devem ter levantado acampamento.
- Não sei, somos apenas uma nave, será que eles não estariam curiosos em saber o que realmente viemos fazer?
- Pensando bem, você pode ter razão! Vamos confirmar nossas suspeitas, precisamos ir agora.
A nave, depois de uma análise de todos os equipamentos, estava realmente muito avariada e acreditávamos que talvez não conseguíssemos levantar voo sem consertos e ajustes. Mas não havia nada que pudéssemos fazer naquele momento a não ser seguir a pé. Nos preparamos para enfrentar o tempo lá fora, mas, para nossa surpresa, quando saímos as coisas estavam mais amenas, já conseguíamos enxergar além, colocamos nossos óculos de neve, porque dentro da nave os vidros tinham blindagem e proteção contra a luminosidade.
Tínhamos botas especiais para caminharmos, roupas que mantinham nossos corpos quentes e todo tipo de proteção que precisávamos para a tarefa. Como havíamos saído muito cedo agora não passava do início da tarde.
No trajeto ficamos o tempo todo bem atentos para qualquer ataque inesperado. Porém acreditamos que eles achavam que já estávamos mortos. Carregávamos armas pequenas para não chamar atenção, afinal, se eles nos vissem por algum sistema de satélite espia não poderíamos manifestar qualquer tipo de tentativa hostil.
Andamos durante toda a tarde e quando a temperatura começou a baixar ainda mais, olhamos em nossos relógios e soubemos que já era hora de levantar acampamento pra passar a noite, Mike montou a barraca com tanta facilidade que nem pensei em oferecer ajuda.

Fizemos um fogo artificial dentro da barraca somente para esquentar os alimentos, comemos calados. Até que ele esticou o saco de dormir e percebi que era um largo pra duas pessoas. Ai meu Deus, tudo bem que estávamos cobertos de grossas roupas, porém eu ainda era uma mulher e ele era Mike, meu Deus. Tudo bem, pensei “sua idiota, você consegue derrubar naves, consegue vencer um homem numa luta e não consegue dormir ao lado de um? Eu nunca estive nessa situação antes, não faço ideia de como agir ou como vou reagir!! Ah! Tanto faz, não há escolha”. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário