TUDO PODE ACONTECER

APRECIAÇÃO

Todo fim de tarde era assim, eu observava de minha sacada uma das cerimônias mais lindas da natureza, o pôr-do-sol.
         Sentada numa cadeira de rodas fazia das ações da natureza ou dos outros homens, um espetáculo aos meus olhos, já que as minhas não poderia mais coordenar por completo. Sou paraplégica há mais de dez anos, já nem sei mais a sensação de uma caminhada, pé ante pé tocando o solo e na época em que podia, não distinguia essa sensação, voltava agora no tempo... as caminhadas que fazia matinalmente, em contato com a natureza, no parque dos... sonhos..., na verdade não era esse o nome do parque, mas para mim era como um sonho lembrar vagamente das caminhadas, que prazer inenarrável poder me deslocar livremente pelos lugares sem nenhum empecilho, sem nenhum embaraço a não ser por minha própria vontade; na época, agora trazida por minhas lembranças, as caminhadas serviam apenas para que eu mantivesse o peso equilibrado, sempre fui muito vaidosa, não gostava de ginástica, academia ou afins,  então apelava para roteiros de uma hora no parque próximo a meu apartamento, uma cobertura na Rua São João, centro de São Paulo. Se soubesse quanta falta meus passos fariam a minha memória... passos rápidos, firmes, determinados como sempre fui, desapercebia as sensações das passadas ou até do vivo aroma das plantas que me cercavam no trajeto, enfim, de toda paisagem natural ao derredor. Meus passos eram vivos, hoje mortos até mesmo nesse fio de lembrança tênue que não consegui apreender a ponto de senti-los agora. Se pudesse voltar no tempo absorveria cada detalhe como um prêmio a ser conquistado depois de muitos esforços. Recordava-me agora de meus valores... todos errados, tarde demais para perceber isso. Patético chega a ser esse pensamento, mas era o único que me tomava por completo naquele instante.
         Com um assovio curto e forte André me arranca de meus devaneios na sacada, ele dá a impressão de que não quer interferir nos meus pensamentos, por isso faz notar sua chegada com impacto.
         Girei a cadeira em 180 graus e voltei-me para dentro do quarto.
         – Você chegando sempre com notoriedade, não tem um jeito mais ameno de se fazer notar? – sorri anunciando o quão prazerosa é sua presença, apesar da desaprovação da voz. – Eu te admiro, monotonia não faz parte de sua personalidade, mas hoje acredito que a reflexão é o melhor caminho para que não sejamos monótonos verdadeiramente e não somente na aparência. Você não acha?
         – Por que filosofar tanto? – André sorri deixando à mostra seus dentes brancos e perfeitos, suas covinhas laterais que faziam dele um semideus, além de ser alto, forte, não propriamente musculoso, mas na medida certa, ter cabelos castanhos e olhos num tom de verde de tirar o fôlego da mulher mais fria deste planeta – Sempre morro de saudades quando demoro pra te ver Raquel. – as palavras soaram com a mesma sinceridade e carinho angelicais com os quais, impiedosamente, ele sempre me tratava.
         – Ah! Meu raro e doce Adônis – brinco me referindo a ele com o nome de um deus da mitologia grega cuja beleza era ímpar – Coisas de quem passa o dia com tempo de sobra para sonhar. Esquecendo os devaneios, eu também sinto saudades, como vai você meu amigo? – ele sempre torcia o nariz quando ouvia a palavra amigo, mas eu deixava claro o âmbito de nossas relações – A  que devo tão agradável visita?
         – Fico lisonjeado pelos predicativos, mas do jeito que fala, até parece que não venho quase aqui e que preciso, para isso, de motivo especial. Porém hoje vim te fazer um convite. Já que falou sobre monotonia... mas sinceramente, não vejo nada mais monótono do que todos os dias ficar nessa sacada e contemplar a agitação dos outros lá fora.
         – Quer mesmo que eu filosofe hein? – falei num tom de pilhéria – Aí é que você se engana meu caro amigo, hoje, cada forma, cada nuance, cada movimento, até mesmo uma folha caindo, é algo a ser notado em minha condição, pois se mil folhas caírem de uma árvore, cada uma dependerá da movimentação do vento, da localização do galho para chegarem ao solo, cada uma de uma forma completamente peculiar. Isso é a vida, quando se perde parte dela no seu próprio corpo passa-se a admirar e contemplar tudo o que antes nem se reconhecia existir. Viver não é somente “agitar”, comer, beber, dormir, trabalhar, acordar. Viver é olhar a cena por trás dos bastidores, onde surge toda a inspiração, ao ler-se o texto, ao montar-se o cenário, ao ensaiar a atuação, inicia-se o amadurecimento da obra que foi passo a passo fluindo do artista, a personagem é a matéria-prima do autor que vai tomar forma no ator. E depois, virão os aplausos vívidos e quentes de aprovação da plateia, que êxtase! Por mais linda que seja a história contada pelo autor, se o ator não se derramar na interpretação que começa a formar-se ali, no papel e atrás dos bastidores, esqueça, não haverá sucesso, mas ao lermos a história nas páginas de um livro, ela estará lá, intangível, inabalável, como saiu do coração de seu mentor. – percebendo o olhar de incredulidade nele, tentei voltar às trivialidades de pessoas “normais”, não que eu não fosse, mas o meu estado permitia que eu passasse a formar a elite intelectual do Café filosófico –     Perdoe-me, fui longe demais, como sempre me infiltrando nas minhas análises –  minha desculpa saiu acrescida de um sorrisinho maroto de uma criança que acabou de fazer algo errado, perguntei quebrando o clima – Que convite veio fazer?
         André olhava para mim como se não estivesse entendendo onde queria chegar e transfere sua expressão para as palavras.
         – Não sei onde quer chegar com tudo isso, mas é melhor deixarmos isso pra outra hora, você tem mesmo uma maneira diferente de enxergar as coisas, respeito suas indagações e opiniões, mas enfim, quer jantar comigo hoje? É um restaurante calmo, aconchegante e tem uma comida italiana maravilhosa. Que tal? – estava entusiasmado com o convite.
         – Não sei, me sinto um grande incômodo pra você, sabe, a cadeira, tirar e pôr no carro, por que não fica e janta aqui? Sônia já deve ter preparado o jantar.
         – Não preparou e nem vai preparar, liguei à tarde e dispensei a todos por esta noite, deixe seus empregados se divertirem um pouco, e é o que vai fazer também. – já ia me manifestar quando ele advertiu – Calma, só ficou Rosa para te auxiliar na troca de roupa. E então? Acho que não tem escolha! Posso chamá-la? É melhor não demorar, ela também vai sair e pelo entusiasmo deve ser um lugar especial e a companhia também – riu solto manifestando total descontração e felicidade, havia um brilho especial em seu olhar.
         – Você não devia ter feito isso. – disse com ar de poucos amigos e passei a sorrir mostrando satisfação também – Já que o estraga está feito, admito que todos eles merecem essa folga, você disse que Rosa está empolgada e realmente a ênfase se dá a alguém em especial com quem ela vai sair. – brinquei, piscando para André – Peça a ela pra subir e não vou me demorar.
         – Está bem, te espero lá embaixo. – ele desceu as escadas assoviando feliz com a perspectiva do programa esperado para a noite.
         Eu tenho uma bela mansão num dos bairros mais nobres da cidade de São Paulo, sou uma mulher muito rica, vivo rodeada por assistentes domésticos (como passei a chamá-los depois do acidente), os quais considero como pessoas da família. Meus pais morreram num acidente de avião quando eu era uma jovem de apenas dezessete anos, logo depois do acidente casei-me, tinha vinte um anos quando perdi meu marido, o bom, mas não muito dedicado Mauro, empresário, dono de uma metalúrgica na qual, cursando ainda o segundo ano de administração de empresas numa universidade, tive de assumir a presidência. Fui criada por meus pais junto de meu irmão Jonas (do qual não tenho notícias há mais de quatro anos) com muito zelo e amor. Meu pai também me deixou herança, ocupando um cargo de general da Marinha brasileira, sempre provia muito mais do que as necessidades da família. Grande homem foi meu pai e minha mãe, uma mulher extremamente atenciosa, dedicada ao lar e aos filhos, eu, a única filha amada e mimada por eles, parecia ser um quadro perfeito, mas não era, só consegui perceber isso mais tarde... depois do acidente de meus pais vieram os maiores erros e depois de meu acidente, as reflexões...
         O acidente aconteceu no auge de minha juventude, tinha vinte e seis anos e levava uma vida desregrada, desenfreada, bebidas fortes e muitos homens atraídos por minha estonteante beleza (ao menos isso era o que todos diziam) restara apenas um corpo vivo pela metade numa cadeira de rodas... Mas agora esta mulher podia enxergar o que é realmente viver, notar as mínimas coisas. Tarde demais, muito tempo tinha sido perdido, sabia que tinha ainda muito a descobrir sobre os mistérios da vida. Será que seriam somente mistérios? Ou será que haveria uma verdade clara e absoluta a ser descoberta sob o véu de minha história.
         Rosa entra no quarto e, mais uma vez, lá se vão meus pensamentos, para não muito distante, pois, só uma brecha e eles voltavam rápidos arrastando com eles o tempo.
         – Senhora! Senhora! A hora está passando e ainda nem escolheu o que irá vestir!
         Para dizer a verdade estava tão absorta em meus pensamentos que nem a vi chegar no quarto e lá estava Rosa em pé olhando atônita pra mim.
         – Desculpe, sempre divago. Planeta Terra chamando Raquel... – brinquei esticando meu braço para tocar em sua mão, tinha essa mania agora, necessidade de contato físico, carinho, afeto, parecia um gato manhoso, educada e prestativa como sempre e em resposta, ela esticou seu braço e tocou no meu e segurou minha mão sorrindo.
         – O que seria de mim sem vocês? Nem posso imaginar – sorri grata, agora já apontando para o closet – Pegue aquele vestido de cetim azul marinho, me sinto confortável nele, pra calçar pegue aquele sapato fechado tipo boneca de cor prata, traga também uma carteira prata pra combinar – pisquei um olho admitindo cumplicidade.
         Solícita e ágil como era me fez estar pronta em vinte minutos, somente pela dificuldade de não me movimentar da cintura pra baixo. Depois ela levou-me até o banheiro de minha suíte, esperou pacientemente na porta até que eu passasse um pó, um lápis nos olhos e um batom na boca.
         – Voilá!! Vamos minha querida, não quero que se atrase mais para seu encontro e nem eu para o meu – falei empurrando a cadeira para fora do banheiro.
         Havia muito espaço no meu quarto, no banheiro, no closet e por toda a parte, afinal, precisava disso para me deslocar com maior facilidade pelas dependências de minha casa sem importunar muito meus assistentes.
         Minha mansão teve que ser reformada depois do acidente, praticamente rearquitetada para serem instaladas rampas de acesso aos outros pisos. As rampas quebravam um pouco da elegância da decoração, mas, dos males, o menor era esse. Eu tive meu coração “quebrado” e, no entanto, tive de aprender a viver assim. Reconstruir, jamais algo que é refeito consegue ter a mesma adequação, o mesmo estilo, a mesma beleza, claro que a casa foi reprojetada por um dos arquitetos mais renomados de São Paulo, mas sabia que isso era uma metáfora de minha vida. Imaginei um vaso quebrado em muitos pedaços, tentar refazê-lo colando pedaço por pedaço, as emendas estariam sempre nítidas, era assim que eu me sentia, cada pedacinho fazia uma incrível falta (não estava falando só do físico), como cada pedacinho das coisas a minha volta a serem apreciadas minuciosamente...
         Agora eu olhava para os meus sapatos de boneca, eram tão lindos, enquanto ela conduzia a cadeira para a rampa que acessava o andar inferior da casa, eu me perdi em pensamentos admirando meus sapatos, eles só serviam para completar meu visual, para mais nada, não tinham a mesma utilidade que para as outras pessoas, porém, estranhamente, isso já não me entristecia tanto, já sabia lidar melhor com isso, apesar de não gostar ainda de ser um estorvo para quem quer que fosse.
         Chegamos ao andar inferior, na sala de estar. Como já observei, todos os espaços de minha casa são bem amplos, principalmente esta sala, mais parecia um salão de festas a não ser pela disposição dos móveis, em nenhum ambiente havia mobília em exagero, afinal, tinha de ser prático para minha suntuosa cadeira. A sala era um ambiente bem claro, sempre amei ambientes onde predomina o branco, dá mais amplitude a qualquer espaço e este não era diferente.
         Lembrei-me de algo imprescindível.
         – Vamos? – perguntou o Adônis parado na sala. Pode ser que eu esteja propensa a mais devaneios, mas confesso notar que ele estava boquiaberto com minha imagem “preparada pra sair”.
         – Espere só um minuto – virei-me pra Rosa, que ainda aguardava ordens – querida, minha cabeça está um pouco voada, esqueci-me do perfume, pode apanhar o Nina pra mim?
         – Sim, senhora. – e seguiu de volta a meu quarto com passos rápidos.
         Enquanto ela saía da sala percebi, um pouco sem jeito, que ele continuava a olhar-me com admiração, agora sorria pra mim. Apesar de conhecê-lo há um bom tempo ainda não me acostumei a seus rompantes de galanteador e ficava realmente constrangida com seus olhares, principalmente porque já havia determinado que não teríamos nada além de uma bela e prazerosa amizade.
         Nesse meio tempo Rosa retorna com o perfume na mão e o estende pra mim. Borrifei-o em meu pescoço ainda sendo observada para meu desespero. Devolvi-o a ela e me despedi girando a cadeira. Ele rapidamente alcançou-me tomando a direção da cadeira. Eu não gostava de incomodar, mas isso me tranquilizou, pois tirou seus olhos de mim para colocá-los no percurso.

BARREIRAS

Ele colocou-me no carro com a maior presteza e agilidade. Saímos para jantar, a noite foi maravilhosa.
Tinha o talento de nunca me fazer sentir um peso, mesmo nos momentos em que tinha de me carregar ao colocar-me e tirar-me do carro, continuava conversando como se não estivesse fazendo nada e para que eu não tivesse a oportunidade de dizer o quão incômodo isso poderia ser para ele.
Em qualquer ambiente que eu chegasse os olhares sempre convergiam para a cadeira, por isso, em público, ela me fazia parecer um elefante branco, ela roubava toda a atenção que antes, sempre foi dirigida somente a mim, os olhares sempre foram somente meus. Mas agora esse tipo de atenção já não me importava mais, não dos outros em relação a mim, porém, de mim em relação aos outros, se antes eu tivesse entendido o quanto se aprende em observar...
Quando já regressávamos para minha casa notei que ele ficou calado, dirigindo sério e lançando olhares esporádicos para mim, depois de uma noite tão agradável aquilo não estava sendo um bom presságio. Enfim, para meu desalento ele começou a falar.
– Será que eu poderia fazer um comentário? – disse meio desconsertado.
– Não sei. – respondi tentando não pensar no pior.
– Você é tão linda, tão doce – esse adjetivo eu sabia que era exagero – tão... você sabe os efeitos desse seu sorriso para o meu pobre coração apaixonado – desatou a falar enquanto meu estômago começava a me incomodar causando náuseas.
– Pelo amor de Deus! Eu sou tão feliz quando você não tenta estragar nossa amizade, como acha que me sinto, parece que estou cavando um poço fundo demais onde posso me jogar depois – vomitei essas palavras com dor no peito, como eu podia recusar meu Adônis? Parece estranho o que vou confessar agora, mas achava que ele tinha direito de ser feliz por inteiro com alguém muito melhor do que eu, pela metade, esse pensamento remoía e aumentava a dor que eu sentia também no estômago – Eu estou cansada de te dizer que tenho muitas descobertas a fazer com relação à vida, ao porquê de eu estar nessa cadeira, às chances que tenho de fazer tudo diferente, preciso me encontrar, preciso buscar o que falta para eu ser feliz, não quero ser um estorvo para você e sei que você é tão generoso a ponto de abdicar da sua felicidade para dar a mim o melhor e eu não aceito.
Ele já havia parado o carro dentro dos portões da mansão e me fitava com um olhar triste e vago. Meu estômago deu duas voltas e comecei a suar frio, senti uma pontada que parecia mais ter vindo da alma. Eu não queria causar-lhe nenhuma dor e era justamente por isso que aceitava de bom grado sua doce e protetora amizade. Não quero causar má impressão, porém, devo dizer que eu talvez realmente o amasse e mais até do que ele ou qualquer um pudesse imaginar, mas não tenho o direito de impor-lhe esse castigo de estar ao meu lado como homem, que tem deveres e etc.
Virei-me para a janela do carro e brotaram lágrimas dos meus olhos, não consegui impedi-las por mais que quisesse elas saíam com tanta naturalidade. Não queria que, com isso, ele sofresse mais, já havíamos conversado sobre isso e eu já tinha deixado claro que não poderíamos ficar juntos para o bem dele mesmo. Não que eu não o quisesse, meu Deus! Só se eu fosse louca, ele era esculpido em carrara, perfeito, lindo, gentil, doce, parecia um anjo que desceu do céu para completar a minha vida. Com tudo isso eu sabia que não tinha o direito de impedir sua felicidade nem por um só segundo. Uma mulher como eu pela metade e que ainda não havia encontrado seu lugar neste mundo e precisava continuar com minha busca incansável, encontrar os porquês, eu não poderia me unir a ninguém nesse momento de minha vida.
 – Me entenda, meu querido, qualquer mulher que coloque os olhos em você vai desejá-lo e qualquer mulher que conhecê-lo como o conheço vai amá-lo, por que complicar as coisas comigo e agora? Já conversamos sobre isso e você aceitou minha amizade.
– Não me importo com nada disso. A única mulher que eu quero não pensa assim.
Tentei impedir que ele visse o mar que saía dos meus olhos, mas foi inútil, ele puxou meu rosto para o seu peito e me abraçou com toda a ternura que só ele poderia conceder-me naquele momento. Tão afetuoso com quem cravava-lhe um espinho na carne, eu me sentia um monstro, mesmo assim eu sabia que minha atitude era para o seu próprio bem.
– Shshsh! Por favor, não faça isso, justamente por amá-la prometo mais uma vez que não tocarei mais nesse assunto, aceito sua amizade e não se fala mais nisso – apesar das palavras de acalanto, sentia em sua voz uma dor lancinante e a presença de um nó enroscado em sua garganta que fazia sua voz embargada e sofrível, entendi que ele choraria a qualquer instante. Para quebrar a tensão, afastei meu rosto, enxuguei minhas lágrimas e pedi que me levasse para dentro mentindo estar cansada e ainda brinquei para tentar mudar o rumo das coisas.
– Já estou tão acostumada com a inércia que qualquer saidinha é motivo para ficar exausta.
Quando já estávamos na sala de estar eu, sinceramente, não via a hora dele se despedir e ir embora, fiquei até com medo de não resistir a ele, tão amoroso, tão sensível, se eu cedesse sabia que seria o fim para nós por muitos motivos que ele ou qualquer outra pessoa não entenderiam.
– Eu acho que você deve estar cansado também, carregar-me pra lá e pra cá não é nada fácil – soltei as palavras tentando tirá-lo da minha frente o mais rápido possível, porém, para meu desespero ele avançou na minha direção.
– Estarei sempre aqui para o que você precisar, não fique brava comigo, por favor. Eu prometo me comportar bem ok? – ele sorriu sem convencer-me.
– O meu amor por você é de uma irmã para um irmão, entende? Eu é que não quero que você fique bravo comigo, mas saiba que se não quiser mais vir aqui vou entendê-lo perfeitamente e respeitar sua decisão – meu estômago revirou novamente demonstrando que eu não falava o que sentia, isso me incomodava, eu ainda era egoísta demais para abrir mão do prazer de sua companhia, sabendo que ele era tão devotado a mim, isso não era um bom sinal, no entanto, foi tudo o que eu consegui dizer.
Ele olhou-me com ternura, abaixou-se, colocou suas mãos sobre as minhas e eu tive vontade de me jogar da cadeira para que ele não ouvisse como meu coração batia acelerado naquele momento e para meu desespero ele depositou aqueles olhos imperdoáveis nos meus.
 – Se você não me deixar ser seu amigo e frequentar sua casa eu não sei o que vou fazer, não tire isso de mim, por favor, perdoe meu ímpeto, sua amizade já me basta por ora.
Aquele “por ora” não me deixou à vontade, mas meu egoísmo não permitiria que eu perdesse meu Adônis, então desconversei novamente, antes que meu coração saltasse pela minha boca e fosse parar ali, nas mãos dele.
– Tá bom, tá bom, então vá dormir, estamos cansados, certo?
Despedimo-nos com um gosto amargo na boca. O que era pior, eu não me permitia pensar no sofrimento dele para não sofrer mais.

O SOL SEMPRE NASCE APESAR DE TUDO

Rosa já estava de volta à casa de seu encontro e levou-me para cima, ajudou-me a vestir uma camisola leve e me preparei para dormir. Meu sono foi agitado, sonhei com uma escultura de deus grego gigantesca me perseguindo pelas ruínas do Partenon.
Acordei pela manhã às 8 horas, como de rotina, tocava a campainha de minha cabeceira, até que aparecia o empregado de plantão do dia, no caso, hoje, era Ana. Não dá para citar o nome dela sem detalhar um pouco mais dessa criatura que enche de luz a minha vida. Ela tem por volta de cinquenta e sete anos, não sei bem ao certo, afinal ela está com a nossa família há muito tempo, eu era criança quando ela veio trabalhar em minha casa, ela amava minha mãe, ambas tinham um carinho e um respeito mútuo que iam muito além da relação empregada e patroa, havia uma cumplicidade entre elas, de irmãs. Minha mãe sempre tratava muito bem os empregados, ela era doce, gentil, educada, eu era muito diferente, quando jovem eu era rebelde, desrespeitosa, arrogante. E Ana, as coisas com ela sempre são mais especiais, ela é, como eu posso dizer, uma mulher ímpar, tem todas as qualidades de minha mãe e um amor latente pelas pessoas que eu não vi em nenhuma outra que já tenha cruzado o meu caminho e olha que foram muitas, talvez porque eu só tenha me deparado com os pérfidos, os arruaceiros, os inescrupulosos, os invejosos e toda espécie de pessoas que, apesar de todo dinheiro que tinham, não valiam absolutamente nada.
Esse amor manifesto por Ana parecia se multiplicar em cada gesto que ela fazia para cuidar de mim.  Eu queria ser como Ana, e pensar que eu a achava uma mulher sem nenhum sem sal e sem açúcar como dizem. Odiava quando ela tentava me passar sermões e me alertar para os perigos da vida, eu era tão cruel, retrucava dizendo que ela não era minha mãe e que nem minha mãe podia mandar em mim ou me dizer o que fazer e que ela era uma simples empregadinha insolente que não sabia qual era seu verdadeiro lugar. Me arrependo tanto daquelas palavras, ainda bem que tive a oportunidade de retirar todas elas e dizer o quanto ela foi importante pra mim. Foi uma das únicas pessoas que permaneceu ao meu lado depois do acidente, tendo que cuidar diuturnamente de mim em cima de uma cama, reclamando sobre tudo, querendo morrer, tentando desistir do bem mais precioso que tinha me restado, hoje eu sei.
Apesar de ser tão cedo o sol já se mostrava com força no horizonte, ultimamente não se podia afirmar que isso era consequência da estação do ano por estarmos no mês de janeiro, afinal, o tempo andava meio estranho, principalmente em São Paulo, temperaturas dignas do Saara, de dia muito calor e à noite frio de fazer gelar até os ossos, típico de nossa terra, os meses já não orientavam as estações primavera, verão, outono ou inverno que aconteciam em épocas totalmente inesperadas e às vezes, por que não dizer, todas no mesmo dia. 
– Bom dia Ana! Descansou bastante ontem? – eu sorria tentando dissipar a nuvem que habitou minha noite e meus sonhos, todo meu esforço foi vão, ela virou-se para mim com um olhar questionador.
– Bom dia senhora. – ela insistia em manter o tratamento formal de empregada e patroa que já há muito eu havia abolido – Parece não estar muito bem esta manhã, algo a preocupa?
– Não adianta tentar esconder as coisas, não é? Você sempre foi muito parecida com minha mãe, não consigo esconder nada! É, eu tive uma noite turbulenta, mas já passou. Estou com fome – tentei mudar o rumo da conversa.
– Foi algum problema com o moço bonito? – falando assim ela parece intrometida, mas pode acreditar, ela não é, só estava tentando me ajudar como sempre fez na vida e ela sabia que tinha liberdade para isso.
– Não quero que ele sofra, mas ele insiste... – ela já conhecia meu dilema e as outras conversas desgastantes que eu já tive com ele, sabia do que eu estava falando.
– Esse moço pode fazer a senhora feliz.
– O problema é: eu posso fazê-lo feliz?, resposta: não. Ele sofreria mais ao meu lado, além de estar nesta cadeira ainda tenho questionamentos sobre a minha vida que não foram respondidos e eu sei que é uma busca que só eu posso fazer, uma busca interior, minha, só minha, entende?
– Entendo muito bem o que a senhora diz e pode acreditar que encontrará respostas para todas elas. Está certo, se acha que ainda não está na hora....
– André não é um objeto que eu possa deixar guardado até me encontrar, não posso fazer isso com ele e depois, esta cadeira... deixa pra lá, um dia ainda chego lá. – brinquei mudando o rumo da conversa.
Ela, perceptível como era, entendeu e desviou a conversa para trivialidades.
– Vamos descer então, seu café já está preparado e esperando pela senhora –  sorriu afetuosa.
Descemos e tive um dia normal como tanto outros.

ROTINA

Desde o acidente passei a tomar o café da manhã na cozinha com os empregados, se me dissessem isso antes eu gargalharia e ridicularizaria a quem quer que o fizesse, mas agora, depois de tudo que passei, percebi que eles eram melhores do que eu em muitas coisas e eram agora o que eu tinha mais próximo de uma família, então, decidi, que se danem as convenções.
Após o café sigo a minha rotina, vou à biblioteca ler alguma coisa, um livro começado, eu tenho essa mania de começar dois ou três livros ao mesmo tempo, dependendo do dia apanho um ou outro para me distrair e passar o tempo. Lá eu encontro as mais variadas épocas, os mais variados espaços, viajo sem sair do lugar, isso é maravilhoso, passo a correr, andar e até mesmo (e por que não) voar junto com os tantos personagens imaginários que se dispõem a dar o ar da graça em minhas leituras. Geralmente eu só paro de ler quando sou avisada de que o almoço está servido, claro que na cozinha também, só abro exceções para comer na sala de jantar quando tenho visitas, depois eu retorno à biblioteca para novas viagens. E, à tardezinha, o pôr-do-sol na sacada. Por muitas tardes eu também troco o mundo variado dos livros pelos passeios no Parque Ibirapuera, lá eu posso contemplar a natureza que hoje amo tanto e aprendi a apreciar, por isso tenho um lindo jardim em minha mansão, o qual supervisiono pessoalmente com o meu paisagista, que aliás é uma pessoa muito divertida e cheia de vida, como ele ainda não foi citado farei aqui parênteses para as devidas apresentações. Ele tem por volta de 1,65 m, cabelos castanho-escuros, olhos cor de mel, pele cor de bronze e um sorriso eletrizante, é extremamente agitado e gosta de fazer as pessoas a sua volta se sentirem à vontade, tem o dom de alegrar o ambiente onde está com tiradas inteligentes e divertidas. Voltando ao jardim, posso dizer que é uma das partes mais lindas da minha casa, amo mesmo a natureza. Porém, gosto de ir ao parque, pois é a oportunidade certa para eu acompanhar de perto o burburinho das ruas, o vaivém das pessoas tão ocupadas com seus afazeres, isso é a vida que, infelizmente, hoje, eu não posso ter. Não vou tantas vezes quanto queria ao parque, pois um dos meus assistentes domésticos tem sempre que me acompanhar nesses passeios, nossas ruas não são adequadas a uma cadeirante, infelizmente alguém tem sempre que ajudar-me a dirigir minha cadeira, tenho dificuldades em alguns lugares e prefiro sair acompanhada.  
 Nos finais de semana eu saio com o meu Adônis (risos), o André é um amigo especial, ele não se incomoda com minha cadeira, vamos a shoppings, restaurantes, teatro (minha paixão) e, algumas vezes, vamos a sua fazenda, no interior de São Paulo, mais precisamente no Vale do Paraíba.
André realmente é um homem ímpar, ele se dedica muito mais a mim do que deveria, sinto-me egoísta demais ao revelar isso, porém, devo confessar que a companhia me faz muito bem, nem sei se conseguiria ficar sem ele, não sei se o que estou contando é bom, mas é a verdade, uma das coisas que, agora, eu não abro mão, a verdade.

DIVAGAÇÕES E MAIS LEMBRANÇAS

Eu fico pensando o porquê dele, apesar de saber que será sempre só um amigo, ainda insistir em bancar a ama seca de uma mulher que não tem absolutamente nada a lhe oferecer. Ele é um publicitário muito respeitado, tem sua própria agência e tem sucesso em tudo o que faz, se você me perguntar o que um homem desses está fazendo em minha vida, eu vou responder “não faço a mínima idéia” e ainda sob condições tão delicadas, sou sortuda mesmo, não há nenhuma outra explicação plausível no momento.
Conheci esse deus grego num campeonato de tênis, num clube frequentado pela high society em São Paulo, foi há três anos. Por tanta insistência de uma amiga, a qual não tive mais oportunidade de rever, sabe como é, agenda cheia, muitas baladas, claro que a amiga paraplégica sempre acaba em último plano, mas, como eu disse, acabei topando o programa. Claro que eu iria apenas assistir ao campeonato, não sou e estou longe de ser uma cadeirante excepcional como os atletas paraolímpicos que merecem medalha só por terem a garra que têm. Fui, como já informei, por pura insistência e, por pura sorte, conheci o Adônis, ou melhor, o André, que participava do campeonato, aliás ele é um exímio tenista, apesar do esporte para ele ser apenas um hobby. Após o jogo ele, como não poderia ser diferente, ficou rodeado de mulheres bonitas, todas muito solícitas em dizer o quão maravilhoso ele esteve em quadra, humildemente (outra coisa maravilhosa nele) se safou de todas elas e veio parar perto de minha amiga, quem ele já conhecia, ela educadamente nos apresentou e ele surpreendentemente se pôs a conversar animadamente comigo perguntando se eu havia gostado do jogo, se curtia esporte. Acredito que aí já dá para perceber que ele não é um homem comum, como todos os outros, nem preciso dizer o porquê. André é realmente um presente para mim.
PRESENTE, talvez desde criança essa palavra já não tem mais o mesmo valor para mim, tantos dissabores que a vida me proporcionou.  André é especial, mas ele também não tem respostas para as minhas perguntas. Respostas para a vida, para as desilusões, para a enfermidade que hoje flagela o meu corpo. Mas quem pode responder às minhas perguntas?
É estranho, mas eu sinto um alívio quando me refiro a tudo isso, pois eu sei que ao menos tenho tempo para tentar solucionar esses mistérios e que posso ainda encontrar as respostas, já que apesar de tudo que passei, fui poupada para viver e buscar o que preciso saber. Tenho a certeza no fundo de minha essência que isso é bom, acordei a tempo para a vida e tenho tantas perguntas quantas possam elucidar minhas dúvidas. Boa também é a sensação que tenho hoje, de que existe algo além, além da metade morta e da metade viva do meu corpo, talvez até posso considerar isso uma metáfora, de que agora questiono, porém, espero ainda por respostas que me tragam os porquês. Acredito hoje que nada na vida é coincidência, existe alguém nos olhando por trás dos bastidores quando estamos no palco da vida e esse alguém não é passivo. Será que eu estou viva de verdade nessa metade de corpo que ainda me resta? Será que estar viva é somente respirar e repetir todos os dias as mesmas ações? Essa é uma das tantas perguntas que ainda não consigo responder, mas uma certeza eu tenho, quero estar viva agora mais do que nunca.

MAIS UM DIA EM MINHA VIDA

Numa tarde, após o almoço, resolvi preencher o meu tempo com a leitura do livro Eclipse, a história de um vampiro que se apaixona por uma garota comum, lindo romance composto por quatro livros, esse é o terceiro da série. Ana entra na biblioteca e interrompe a minha leitura.
– Senhora.
– Fale minha querida!
– Desculpe interrompê-la, mas eu queria perguntar se posso levá-la ao parque hoje.
– Você, como sempre, tão solícita, não se cansa de carregar este peso aqui? – eu disse isso apontando para a minha cadeira e com um sorriso bem humorado.
Ela devolveu o sorriso.
– Para mim não há nenhum problema e a senhora sabe que tenho prazer em ser útil.
– Eu sei minha querida – respondi recordando de alguns fatos pesarosos. – O que me deixa mais intrigada com seu comportamento Ana é que quando eu era jovem, te tratava tão mal, com tanto desprezo, tanta soberba, como você pode retribuir sempre com tamanha bondade tudo que fiz de mal a você? – falava agora com a voz embargada por lembrar das humilhações que a fiz passar tantas e tantas vezes tratando-a com tanto desrespeito.
         – Senhora, por que razão fica lembrando dessas coisas, se a entristece, a magoa, esqueça, já passou, não devemos lembrar do que nos causa dor a não ser para aprendermos com isso e a senhora não é mais a mesma pessoa, já aprendeu muito com a vida e com suas experiências.
         – Eu também sei que ainda há muito o que aprender, tenho sorte de ter pessoas tão boas a minha volta, que se preocupam comigo, que me queiram bem. Ironia do destino, são as pessoas que eu desprezava que estendem a mão hoje, que são amigas, que fazem o melhor por mim.
         As lágrimas rolaram na minha face sem o menor esforço.
Eles eram verdadeiros anjos em meu caminho e quem os colocou ali? De repente os serviçais eram as únicas pessoas que se preocupavam e cuidavam de mim, com zelo, não pelo dinheiro, mas, por amor. A maioria dos meus assistentes domésticos, já estavam trabalhando com minha família há muito tempo. Alécio, o jardineiro; João, o motorista; Ana, a faz tudo; Sônia, a nossa incrível cozinheira; só Rosa que auxilia as outras e está sempre à disposição para me ajudar, é novata no pedaço, começou a trabalhar em minha casa há pouco mais de um ano, mas ela é sobrinha de João e de Sônia, então, rapidamente se tornou parte dessa família. João e Sônia são casados e não têm filhos, sempre moraram em nossa casa; Rosa é bem jovem, não dorme no emprego, mora com os pais, seu pai é irmão do meu motorista; Alécio é casado, tem filhos e netos também. Já Ana é viúva, quando o marido era vivo ela não dormia no emprego, depois que o marido faleceu ela ficou morando com o filho, depois, o filho foi viajar pelo mundo e ela, passou a dormir no emprego, às vezes, ainda com o marido vivo e o filho por perto ela dormia em nossa casa, pois tinha trabalhado até tarde e como sua casa ficava muito longe acabava dormindo na minha, como eu já disse, minha mãe e ela eram como carne e unha, interessante isso. Sempre tivemos muitos quartos de empregados. Só para esclarecer alguma dúvida por não fazer referência anterior, a mansão em que vivo hoje herdei de meus pais, depois da morte do meu marido e depois do fatídico acidente em que perdi meus movimentos, reformei-a e passei a viver aqui. A mansão nunca ficou abandonada, conservamos os assistentes domésticos de antes e as coisas todas como estavam desde a morte dos meus pais até os dias atuais em que escrevo minha saga.
Falta falar da fisioterapeuta que frequenta minha casa três vezes semanais, ela é um doce de menina, é bem jovem e chama-se Daniele, tem uma paciência incrível comigo. Pode parecer estranho, mas um paraplégico precisa disso, como disse meu médico, quando acordei do trauma ele explicou tudo, desde a minha lesão irreversível até o fato de que “a fisioterapia é extremamente benéfica ao paciente e todos os lesados medulares têm que ser submetidos a sessões de fisioterapia motora”, palavras dele.
Ana e Rosa sempre se revesam para me ajudar, afinal, apesar da minha cadeira ser automática, às vezes (como era o caso nas ruas inóspitas de minha cidade) eu preciso de uma força com a cadeira, mas, na maioria das vezes é para me trocar, me arrumar ou até mesmo para usar a outra cadeira adaptada para as minhas necessidades fisiológicas. Tudo foi disponibilizado na mansão para eu ter acesso, porém, sempre há situações em que precisamos de ajuda. 
– Senhora! – ela responde o meu questionamento inicial sobre o zelo que eles têm comigo apesar de todo o mal que causei-lhes, com uma meiguice e um talento ímpar para desanuviar o ambiente. – Não se subestime, inteligência e sagacidade sempre foram seu forte, a senhora tem questionado tantas coisas e aos poucos encontrará as respostas certas.
Aquele ser tão singelo e tão afável ali, na minha frente, me dizendo coisas que aconteciam na minha cabeça, como ela podia falar que eu sou sagaz se era ela quem estava revelando os meus pensamentos.
– É Ana, eu realmente me faço muitas perguntas todos os dias, penso, reflito demais em tudo o que aconteceu, revivo lembranças para tentar encontrar nelas, como você disse, aprendizagem, para não repetir os mesmos erros.
– A senhora está no caminho certo. Há pessoas que mesmo tendo passado por tantas coisas, não param para replanejar a vida, rever o que estava errado e tomar atitudes diferentes que alterem o rumo das coisas.
Como eu poderia agora ser indiferente a tantos avisos do destino, como eu não poderia aprender com a paciência e delicadeza nas atitudes e conselhos de Ana?
– Tem tantas coisas que eu recordo com amargura, das vezes que eu ou o Jonas te destratávamos e você, pacientemente, dizia para a minha não brigar com a gente, pois não a ofendia e que era coisa de adolescente ser rebelde mesmo. Como a vida é irônica, me esbofeteou com luvas de pelica, hoje preciso e dependo de você, até para ser feliz, pois vocês são companhia para mim, são minha família. – falei com os mais sinceros sentimentos.
Como ela estava um pouco distante de mim, ela atravessou a biblioteca, deitou-se sobre mim e deu-me um beijo na testa, depois apertou a minha mão e nos abraçamos, eu realmente nunca conheci alguém assim. Ela é, o que eu então conheço, como ideal de pessoa.
Fomos ao parque e eu me senti tão leve e feliz que nem vi as horas passarem.

MAIS APRESENTAÇÕES E DIVAGAÇÕES

Minha família era bem comum pelo que eu me lembro, meu irmão Jonas era um rapaz muito tolo que vivia rodeado de más companhias. Era pretensioso, cheio de si, poderia se chamado Pitboy, como hoje se rotula rapazes ricos que procuram encrenca por onde passam e acham que são os “donos do pedaço”, depois da morte de meus pais ele casou-se como eu, mas passou a beber mais do que o habitual, tornou-se um alcoólatra e sabe-se lá o que mais.
É estranho não? Duas pessoas educadas num lar tão rico, tão sadio, com pais tão maravilhosos e que se amavam tanto, não tínhamos a desculpa de um lar destruído, não sei o porquê e apesar de tudo faltou estrutura, suporte, ao surgirem os problemas fomos “desmontados” pela vida, era como se nossa família fosse um castelo de cartas, essas fragilmente instaladas umas sobre as outras, veio uma ventania forte e lá se foram, espalhadas, nada restou do castelo, dos sonhos, da imagem formada pelo jogo da vida. Meus pais erraram em alguma coisa, parecia tudo tão perfeito, mas não era, eu sabia que não tínhamos base o suficiente para suportar tudo aquilo. Eu cometi tantos erros, depois da morte de meus pais, casei-me por pura acomodação, estava acostumada a ter alguém que cuidasse dos meus negócios, enquanto isso eu, aproveitava a vida da maneira que achava correta, traía meu marido, me envolvia com os mais diversos tipos de homem que se possa imaginar. Foi então que perdi meu marido, rapidamente tive que me adaptar à nova situação, fazia faculdade na época e tive de “tomar pé” dos negócios, o que fiz com bastante sabedoria, apesar de não ter experiência, perdi muito dinheiro com a esperteza das pessoas que aproveitavam-se do fato de eu ser inexperiente até que aprendi, com muito custo a controlar tudo e não ser mais passada para trás, voltei a multiplicar o dinheiro que tinha.
Meu pai era General da Marinha, deixou-me por herança vários bens, incluindo a mansão em que moro. 
Nem mesmo quando perdi dinheiro empobreci, sempre tive muito e não posso reclamar.
Foi então que veio o golpe de misericórdia, acho que essa expressão veio bem a calhar, porque quem viu o carro em que sofri o acidente diria que ninguém poderia sair vivo de lá.
É claro que eu continuava libertina demais, uma noite quando saía da casa de um rapaz que tinha acabado de conhecer, em plena madrugada, depois de abusar do álcool e de orgias, fui dirigindo até minha casa, porém, não cheguei ao meu destino, quando trafegava por uma grande avenida no centro de São Paulo em alta velocidade e bêbada (combinação explosiva), perdi o controle do carro totalmente e fui parar praticamente embaixo de um caminhão. Quem viu o carro tinha certeza absoluta que ninguém poderia ter se safado nele. Pois é, devo considerar isso um milagre, como as pessoas dizem, não era para eu estar aqui falando com você, mas estou e acredito piamente que não é à toa. Tenho que acreditar que há um ser maior que nos vê e que comanda todo esse mistério e refletir por que cargas d’água (usando um ditado popular) resolveu me dar outra chance.
Agora você deve entender por que eu divago tanto, não é? Talvez, como eu, você que lê a minha história também tenha a oportunidade agora de refletir sobre muitas coisas.
  
PASSEIO NO CAMPO E NOVAS DESCOBERTAS

Eu estou acostumada com os mimos e atenção de André, hoje ele me convidou para mais um final de semana na fazenda dele. Já estava arrumando as minhas malas com a ajuda de Ana, claro. Estava ansiosa pela viagem, sempre me divirto nessas ocasiões. O contato com a natureza é algo que me dá muito prazer, o cheiro da terra, o perfume das flores. É tudo tão bom!
Ana vai comigo, sempre levo alguém para ficar mais à vontade e ela ama ir à fazenda.
Troquei de roupa e já estava pronta para ir, dou mais uma olhadinha no espelho. Engraçado! Até agora não disse como sou fisicamente, vocês já devem ter feito uma imagem de mim. Devo dizer que não sou convencida, em absoluto, mas as pessoas, principalmente a ala masculina, sempre foi a favor de minha aparência, nunca entrei num lugar sem ser notada, sem que olhos interessados ou mesmo curiosos se voltassem para mim. Sou vaidosa e bastante, mas agora eu acredito que isso não é o mais importante em uma pessoa.
Antes do acidente eu pesava 48 kg, depois engordei um pouco, pela falta de movimentação, apesar da fisioterapia constante, é claro que engordei, porém, pouco para as circunstâncias em que vivo, meu peso hoje varia de 54 a 58 kg. Tenho 1,62, sou baixinha para os padrões, mas sempre compensei minha estatura com saltos bem altos, eles deixam a mulher mais elegante, porém, no meu estado, já não faz mais tanta diferença; meus cabelos são loiros acetinados (vivo fazendo muitas mechas, luzes, etc), mas agora eles estão com luzes em tom mais loiro que meu natural e chocolate, uma mistura que me cai bem. Meus olhos são verdes segundo a minha própria lógica, mas para a maioria de meus amigos são azuis escuros, minha pele é bem clara, tudo isso me faz parecer muito com meu pai.
Talvez você se pergunte se ainda atraio os olhares na minha direção onde quer que esteja, acredito que agora existe mais curiosidade, pois as pessoas não encaram naturalmente as minhas condições, infelizmente.
– Senhora! A senhora está linda, podemos descer? O senhor André já está nos esperando.
– Ah! Sim, claro, só estava me lembrando como era antes do... deixa pra lá. Vamos?
Ela parou um instante a me olhar no espelho e em questão de segundos girou a cadeira em direção ao andar inferior, achei que, por um relance, no espelho havia visto uma lágrima, deve ter sido apenas minha impressão, pois ao chegarmos na sala ela já estava sorrindo, demonstrando entusiasmo pelo passeio que faríamos.
André estava lá embaixo sorrindo e alegre como uma criança que acaba de ganhar um lindo brinquedo, parecia um pouco cansado apesar disso.
– Hei! Como vai a minha amiga? Espero que este passeio seja reenergizante para todos nós. As malas já estão no carro. Vamos?
Como sempre fazia, debruçou-se sobre mim dando um beijo na minha face esquerda e depois dirigiu-se para a parte de trás de minha cadeira e começou a movê-la em direção ao carro, sob protestos, pois ela poderia muito bem ir sozinha naquele trecho, afinal, ela é motorizada. Quando ele estava comigo, somente ele me ajudava com a cadeira, ele é um gentleman e não aceitaria menos, mesmo que pedíssemos ou inventássemos qualquer desculpa para poupá-lo, essa tarefa seria sempre dele enquanto estivesse por perto.
O trajeto foi bastante tranquilo, não havia nenhum tipo de congestionamento em nenhuma parte da estrada. Chegamos duas horas   depois, pois fomos devagar e pegamos um pouco de trânsito (o que é natural) até sairmos da capital, íamos conversando animadamente.
A fazenda fica nos arredores de uma cidade chamada Jacareí, lugar muito agradável e convidativo, cerca de 80 km da capital. Ao chegar fui logo fazer a toalete no meu quarto para me refrescar um pouco, estava muito calor. Ana me auxiliou. O quarto era mobiliado com muito bom gosto. Havia no chão longas tábuas de uma madeira escura e brilhosa, um tapete de pele de urso recobria o espaço próximo à cama, esta era grande, estilo king size com uma cabeceira talhada em mogno fosco, como a maioria do mobiliário da casa. Havia também um armário embutido feito na mesma madeira fosca da cama e imenso como o quarto, ia de parede a parede, uma das portas do armário escondia um banheiro bem claro e luminoso em contraste com o quarto, havia uma porta que dava para a varanda que rodeava toda a casa, na porta, uma cortina de cetim grosso e escuro que impedia a claridade de entrar, como forro havia uma cortina de voal, para quando ninguém estivesse dormindo e a claridade pudesse penetrar à vontade, mas quisesse manter  recluso o ambiente.
 Quando eu já estava pronta para explorar o território, saímos para a sala que era absolutamente imensa, havia três ambientes, as tábuas do chão eram como as do quarto, todos os cômodos eram imensos e possuíam móveis de mogno fosco, a sala de jogos, os outros quartos, apenas um deles, o que André sempre usava, tinha a madeira dos móveis pintada de branco, era menor que o meu, mas era muito claro e aconchegante e a cozinha tinha um fogão a lenha gigante que me lembrava a fazenda de meu pai.
Meu pai sempre nos levava à fazenda quando éramos crianças, eu e meu irmão, quando chegamos à idade de quinze anos começamos a nos recusar, passou a ser um passeio cansativo e chato. O velho ficava muito triste, pois eram ocasiões importantes para reunir a família. É claro que preferíamos ficar na cidade, tínhamos mais liberdade para fazer nossas arruaças. Eu, tão jovem e já saía com as amigas para festas, bares e ficava até muito tarde, já bebia um pouco, acompanhada sempre de um rapaz mais velho. Meu irmão aproveitava para cometer as piores atrocidades nas ruas com os seus malfadados “amigos”. Um dia chegaram a pôr fogo em um mendigo, fiquei horrorizada quando ele me contou aquilo, claro que isso nunca chegou aos ouvidos de papai que morreria do coração.
Meu irmão herdou a fazenda, mas torrou toda ela com drogas e apostas. Depois da morte de meus pais ele sumiu e a única notícia que tive dele e de sua pobre esposa foi essa através de um daqueles amigos que ele teve e que o acompanhava nas farras e nas crueldades, esse amigo havia mudado tanto, agora parecia outra pessoa, podia dizer que era uma pessoa de bem.
Ao contrário do que eu esperava, apesar disso, meu irmão não me procurou. Além da fazenda que ele dilapidou, havia joias de minha mãe que ele também herdou e outras propriedades menores, com certeza ele pôde se virar com isso, pois nunca mais o vi.
Aquela tarde estava bem clara e o sol bem quente, eu passei quase um tubo de protetor solar. Antes do acidente eu vivia tomando sol de piscina, por isso a minha pele era um pouco mais resistente ao ardor, porém, agora eu não tomo quase sol, apenas uma hora, no máximo, por dia porque é vitamina para os ossos, mas meu objetivo não é o bronzeamento, minha pele mantém-se bem branca desde o acidente. Daí a necessidade de usar tanto protetor, e aquela região é sempre muito quente o que não foi diferente neste dia. Tudo estava tão maravilhosamente agradável.
Fomos para a sala e os assistentes domésticos da casa grande da fazenda já estavam preparados para servirem o almoço. Eles eram muito gentis conosco toda vez que íamos lá, gente boa mesmo.
Após o almoço resolvemos dar um passeio, eu e Ana, convidamos André, ele nunca se recusa, mas alegou ter trabalho para fazer e estaria preso ao seu notebook por algumas horas, então fomos sozinhas.
A estrada era bem plana, como toda a paisagem a nossa volta e até onde nossos olhos alcançavam. No caminho, passamos pela plantação de crisântemos, de orquídeas e de lírios, André havia mandado fazer uma estufa, ele gostava muito de flores, um jardineiro cuidava delas, também foram cultivadas em campo aberto, os lírios eram maravilhosos, o cheiro que deixavam no ar era delicioso. As produzidas em campo aberto não tinham a mesma atenção que as outras, porém, apesar disso, eram viçosas, lindas, parecia um mar de beleza e cores a olhos nus. Eu sempre me deslumbrava com aquela cena, por mais insensível que fosse um ser humano, não ficaria indiferente àquele espetáculo natural e gratuito.
Contemplando aquele cenário e sem palavras para dizer, ouvi Ana dizer quase que em sussurro, como se estivesse falando consigo mesma.
  – “Olhai os lírios do campo, como eles crescem: não trabalham nem fiam; e eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.”
Pensei nessa frase analisando, realmente, apesar do jardineiro cuidar, como já disse, em campo aberto elas não tinham tanta atenção e mesmo assim, não foi a mão do jardineiro que as fez, e eram de uma beleza incomparável, nenhum homem, por mais que tentasse, poderia reproduzi-las.     
Já li tantos livros e aquela citação não me era familiar, então questionei por curiosidade.
– Quem foi Salomão?
– Ah! Foi um grande rei e o mais rico que já houve sobre a Terra.
– É, e nem ele foi tão bem vestido como os lírios que são belíssimos! Comparação sábia.
– Interessante a senhora ter usado essa palavra, ele foi o rei mais sábio que já se teve notícia.
– Pelo jeito tudo nele foi mais, não? – ri com a evidente descoberta.
Ana riu em resposta e continuamos a contemplar aquele cenário.
Retornamos à casa grande carregando nos olhos e no coração toda aquela beleza inebriante. Estávamos sendo aguardadas para o anúncio do jantar.
– Parece que só viemos aqui para comer. – eu sorri lembrando que sempre ao chegarmos o almoço já estava pronto e nos esperando, agora era o jantar.
Fui me recompor do passeio, Ana me ajudou a tomar um banho, a me trocar, deitei-me um pouco esperando que ela também fizesse o mesmo.
Jantamos e, como Ana devia estar bem cansada em ajudar-me no passeio, perguntou se eu não precisaria mais dela, pois ela pretendia deitar-se, prontamente André se ofereceu para auxiliar-me no que eu pedisse, ela poderia descansar tranquilamente, assim ela o fez indo para o seu quarto. Os outros também se retiraram, ficamos sós na grande sala de estar.
Sempre sentia-me um pouco incômoda sozinha com ele, mas eu estava tão cansada que não pensei em nada demais que pudesse acontecer naquela noite, porém, estava enganada.
Ele começou a falar do seu trabalho, eu já tinha sido empresária, e agora cuidava pessoalmente dos meus investimentos, estava ligada em tudo que acontecia no mundo dos negócios, por isso sempre conversávamos bem à vontade sobre isso. Pediu-me algumas sugestões para uma campanha sobre absorventes íntimos, perguntei se era sobre isso que ele trabalhou a tarde toda, ele disse que não, mas não deu detalhes, continuamos a conversa descontraidamente até que o diálogo se enveredou para uma área perigosa, o pessoal, campo que já deixei claro não querer entrar.
– Você pensa em algum dia abrir as portas do seu coração para o amor novamente? Já deixou claro que não comigo, mas eu estou dizendo, com alguém, entende? Qualquer pessoa.
– Acho que você nunca entendeu meus motivos, não quero voltar a falar sobre isso.
– Por favor, só por curiosidade. Já que não será comigo, me encare como um confidente.
– Eu nunca disse isso a você, o problema não é você, sou eu. Claro que se algum dia eu pensasse...
– Continue, se algum dia você pensasse...
– O primeiro seria você. – maldita sinceridade, deixei escapar o que vigiei para que ele nunca ouvisse, droga. E agora? Como ele encararia isso?
Não consegui refletir nos momentos que se seguiram, foi tudo tão rápido que quase não tive tempo sequer de deixar o ar entrar em meus pulmões e ele já estava sobre mim, beijando-me, numa fúria que parecia um etíope a se deparar com um prato de comida. Meu Deus! E eu não consegui reagir, parecia que a minha fome também estava guardada há séculos e ... estava.
Ele pegou-me no colo com uma delicadeza e rapidez concomitantes, impressionantes. Colocou-me no sofá e eu continuei me deixando levar (que raiva tenho de me lembrar disso), ele tocava meus lábios com uma sofreguidão, meu corpo todo respondia em chamas e ele, nem sei explicar parecia tão quente, de sua pele macia e cheirosa emanava um calor de chama de fogão, os meus sentidos já não respondiam mais às minhas ordens, apesar do meu subconsciente acender um painel de neon dizendo “campo perigosíssimo” eu não conseguia mais coordenar minhas vontades. Ele deitou-se ao meu lado, o sofá era bem largo, ele me abraçava, me apertava contra o peito, me beijava, acariciava o meu corpo, minha respiração ofegante me denunciava de uma forma constrangedora e eu retornava as carícias naquele corpo perfeito e agora tão meu que colocava por terra toda a armadura criada até então. Quando ele começou a abrir a minha blusa e tocou-me o sinal de alerta chegou ao ponto máximo, extraí forças de onde nem eu sei, consegui afastar sua mão, e automaticamente afastei sua boca da minha e me pus a chorar feito uma idiota. Nunca vi um homem ficar tão desorientado, ele não sabia o que fazer, mas após alguns segundos de pânico, porque foi exatamente isso que vi em seus olhos, ele levantou-se rapidamente, pegou-me com a mesma delicadeza e colocou-me na cadeira sentando-se na minha frente para poder falar olho no olho.
– Perdoe meu atrevimento, por favor, eu não queria chocar você, te desrespeitar ou algo parecido. Fui um grosseirão, pelo amor de Deus, não fique triste comigo ou pense que sou afoito assim. Perdoe-me, por favor.
Ele repetiu a palavra perdão umas dez vezes, no mínimo, e eu continuava a chorar feito uma tola, como há muito tempo não fazia, senti-me uma néscia, mas era a única reação que cabia em mim naquele momento.
Acalmei-me e tentei preparar um discurso que pudesse re-estabelecer o status quo, mas sabia que seria tarefa impossível.
– Você não tem que se desculpar, por favor digo eu, eu me deixei levar também, correspondi ao seu apelo, deixei-me levar. Eu é que devo pedir desculpas, pois não quero que você pense que, com isso, alguma coisa mudou. – falava e não conseguia parar de tremer, não sei se pelo corte brusco de emoções há tanto tempo não mais vividas ou se pela ânsia de tentar arranjar desculpas inválidas, tentar mostrar o oposto do que ele descobriu há poucos instantes, no sofá.
– Eu sei que já fui longe demais, me perdoe mais uma vez.
– Pare de pedir desculpas, sou tão culpada quanto você, esqueça isso por favor, é o que pretendo fazer.
Ele olhou para mim de forma penetrante, encarou-me, nesse momento ele parecia não estar entendendo o que eu queria dizer.
– Você vai mesmo conseguir ignorar o que houve aqui? – aquelas palavras chegaram perfurando minha pele e o meu interior como agulhas. O que eu temia, aconteceu. Como justificar a minha negação a partir daquilo.
 Arranjei uma desculpa, pois precisava de qualquer uma que viesse a minha mente.
– Simples, não aconteceu e pronto, já disse que somos amigos e continuaremos sendo, só se você não quiser mais.
– Não é possível, o que eu senti nesse sofá não foi nem de longe o tratamento gélido que você sempre me deu, reconheci outra Raquel aqui hoje, aquela que eu espero com paciência há tanto tempo. Não vê que você nega o óbvio?
Desejei que ele nunca tivesse dito aquilo, uma fúria descomunal tomou conta de mim e eu falei, não, eu vomitei tudo o que não sentia e o que não devia, nunca poderia tê-lo magoado daquela forma.
– É assim que você trata as mulheres, estava esperando o momento para dar o bote, é isso? Você não é diferente dos outros homens, só quer me usar e tem certeza que a sua beleza não seria irresistível por tanto tempo assim, sabia que iria acabar me atirando em seus braços como as outras. Mas que droga, será que não vê que não sou mais aquela vadia, vulgar que eu já fui? Que estou tentando recompor os pedacinhos da minha vida. Tentando mudar como pessoa, construindo um caráter melhor, tentando me descobrir como alguém a quem valha a pena realmente amar? Por que você está brincando comigo, sou só mais uma conquista, a coitadinha da paraplégica? Ou será que fui uma aposta com seus amigos? Dou cinquenta mil como pego aquela aleijada, ela é  difícil, mas eu chego lá.
Minhas palavras vomitadas congelaram o meu ser e eu consegui, finalmente, após meus instantes de cegueira e diarreia verbal, vislumbrar a face pálida de André, ele olhava para mim com um misto de raiva e dor que eu nunca queria ter provocado, senti-me um monstro, mas palavras ditas nunca voltam atrás, tinha aprendido isso a duras penas em minha vida.
Nenhum de nós disse nada e ele continuava ali, agora sem mais me olhar e com o rosto entre as mãos. Nunca vi um homem chorar, a não ser meu pai ao descobrir que meu irmão era viciado, por infelicidade, André chorou, na minha frente, por minha culpa. Eu era a mais cruel e infeliz das mulheres.
Fiquei esperando o efeito do meu veneno sair de suas entranhas, mas eu sabia que não sairia. Só aguardei a retomada de uma conversa para tentar aplacar um pouco da dor que causei. Sabia no mais profundo do meu ser que ele não era, decididamente, o tipo de homem descrito por mim, igual a tantos que já cruzaram o meu caminho e que compará-lo a eles causou a maior dor que um ser humano íntegro como ele poderia suportar, talvez ele não sentisse tanto se eu enfiasse uma espada afiada em seu peito.
Ainda com lágrimas nos olhos, levantou seu rosto e olhou-me novamente, forçando-me a engolir de seus olhos todo aquele amargor.
– Eu nunca faria isso com você, não sou assim e você sabe disso muito bem, porque me ferir tanto? Eu amo você como nunca amei outra mulher, pode ser piegas para você, mas, infelizmente, como pensa, é a mais pura verdade e hoje, eu achei que você sentia o mesmo por mim. – deu um sorriso triste – E é claro que eu estava completamente enganado.
Várias agulhas remexeram dentro de mim, cortando-me por completo, meu coração parecia que explodiria a qualquer momento, tamanha a dor que me dilacerava por dentro. Havia sentido isso tantas vezes em minha vida, não queria mais passar por isso, mas, dessa vez eu mesma infligi essa dor a mim e a ele e, o que é pior, diretamente. Se eu tivesse me calado, tudo voltaria a uma certa normalidade, porém, eu o afastei de vez, naquele momento eu tinha certeza disso.
– Perdoe-me, eu já passei por muitas coisas difíceis, não tinha o direito de magoar você por causa de minhas experiências nefastas, por favor eu não sei como me desculpar.
Não havia mais o que dizer.
– Fique tranquila, vou levá-la para o seu quarto e amanhã será um novo dia. Prometo não me aproximar mais de você. – falou com tanta tristeza e dor no rosto que poderia vê-lo contorcendo-se a qualquer momento, mas ele manteve sua postura e gentilmente conduziu-me até o quarto.
No outro dia, a dor não abandonou seu rosto, porém, ele manteve-se amável e solícito como sempre. Pedi a ele que nos trouxesse de volta, afinal, não havia mais clima para ficarmos ali depois de tudo, claro que não precisei dar-lhe meus motivos, ele concordou e voltamos à mansão no domingo de manhã.
  
CONFISSÕES E CULPAS

Como eu temi, a semana passou e ele sequer deu um telefonema para casa e muito menos apareceu. Pensei em ligar, mas não tive coragem, achei que ele precisava de tempo e espaço, depois de tudo. Nem sei se ele iria querer algum dia voltar a falar comigo.
Era duro reconhecer, eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele seguiria seu destino, ia encontrar a mulher ideal que eu não poderia ser agora para ele. Mas não passava pela minha cabeça que tudo aconteceria assim de uma forma tão brusca, tão horrível. Senti um peso de consciência que me deixou angustiada e depressiva por muito tempo e isso não era bom. Já havia passado por tantos golpes, a grande maioria deles gerados por meus próprios erros e, quem diria, esse não seria diferente.
Minhas lembranças começaram a me atormentar, remorsos antigos vieram acompanhar o mais recente. O que vou contar me deixa mais triste do que já estou, porém, são esses pensamentos que me perseguem nos últimos dias e vou compartilhá-los.
Não é segredo que eu já fui muito libertina, não tinha nenhum pudor quanto aos meus casos. Meu marido era vinte e dois anos mais velho que eu, ele tinha, quando nos casamos, exatos quarenta anos. Você deve pensar o porquê eu fiz isso, se eu era tão linda e tão atraente. Ele era um homem muito experiente nos negócios, era muito amigo de meus pais, eu precisava de alguém que cuidasse de mim, dos meus caprichos e, principalmente, do meu dinheiro. Eu era muito jovem, estava cursando a faculdade e não tinha ideia do que fazer, mas tinha certeza de que ele faria tudo por mim.
Ele gostava muito do meu pai e eu, muito egoísta, me aproveitei de sua bondade, de seu ombro e conquistei seu coração, o que não foi nada difícil. Ele cuidou de absolutamente tudo desde a transferência e reconhecimento dos corpos, de cada investimento e negócio de meu pai, sua aposentadoria pela Marinha que seria então passada para mim até a minha maioridade. Foi muito fácil, mostrando-me frágil como eu estava, ficar com ele. E para mim, na época, casamento não era coisa séria, se não desse certo que acabasse e pronto, eu só pensei em meu bem estar. Eu era um monstro, eu sei, isso dói muito hoje.
Já disse também que eu o traía sem nenhum pudor, saía com os homens mais lindos e sacanas que conhecia. O pior eu ainda não contei, Mauro começou a desconfiar de mim, da minha distância, das minhas agressões verbais, ele passou a beber muito e chegar à casa tarde também. Nunca fora tão presente como marido, mas é porque trabalhava demais, fazia todos os meus caprichos. Desconfiado como estava, contratou um investigador particular que, é óbvio, me flagrou num motel da cidade em plena luz do dia. O homem ligou para ele e foi infarto fulminante. Descobri tudo depois, assumi a presidência da empresa dele, herdei-a também (ele era separado quando me casei com ele, porém, sem filhos) e passei a ocupar a sala que ele ocupava. Havia lá uma linha particular que eu lembrei dele ter me dado o número numa certa ocasião, mas, nunca usei e até me esqueci que essa linha existia. Quando acionei a secretária eletrônica, congelei por dentro, parecia que meu estômago ia sair pela boca, havia uma mensagem do detetive avisando-o da minha estada no motel. Aquilo foi um baque e tanto para mim, apesar da minha suposta frieza, meu remorso soou como um sino em minha cabeça e eu realmente quase não suportei a dor de conviver com esse peso, eu o havia matado.
Isso deve ter embrulhado o seu estômago como também revira o meu até hoje, mas infelizmente, é a verdade com a qual eu passei a viver. Nunca me deixei envolver por drogas, mas as minhas doses de uísque e conhaque  aumentaram consideravelmente.
Durante o dia tornei-me a empresária forte e batalhadora, mas, à noite, a alcoólatra, libertina inveterada. Sem controle das minhas emoções eu passei a viver como um robô que fazia as mesmas coisas e cometia sempre os mesmos erros, me deixava enganar por qualquer cafajeste que quisesse uma boa noitada. Parece forte, impactante e, infelizmente, foi real.
Não sobrou nada dessa Raquel e, sinceramente, fico feliz por isso. O único problema é que essas marcas se perpetuam em mim e, pelo jeito, me fazem magoar as pessoas que mais considero.

FALAR COM ANDRÉ

Após um mês de silêncio e tentativas frustradas no celular, que denunciam que ele não quer realmente falar comigo, resolvi apelar para o escritório, afinal, anunciada pela secretária, talvez ele se sentisse impelido a atender. Estava enganada, ela atendeu cordialmente como sempre e pediu para que eu esperasse um minuto, depois veio com a desculpa de que havia saído para uma reunião importante sem hora para voltar. Uma pontada me atingiu no peito, tinha a certeza que ele, decididamente, não queria mais falar comigo.
Só me restava a dor e a esperança de que um dia, talvez, ele me perdoasse e voltasse a, ao menos, atender-me ao telefone. O silêncio dele estava me matando por dentro.
O pior de tudo é que meus dias se tornaram mais entediantes e eu necessitava fazer algo que me deixasse feliz, então, me enfiei nos livros de cabeça, era o único universo que agora não me aborrecia.
Estava a folhear um livro, quando me lembrei das palavras de Ana, sobre os lírios. Na juventude eu não gostava de natureza, no entanto, agora, era um dos passeios mais prazerosos para mim, o cheiro das flores, o vento no rosto. Como o texto dizia, sem fazer nenhum esforço o lírio é lindo, a orquídea também e tudo o que a natureza produz tem sua beleza e seus meios para se reproduzir e se perpetuar. É simples. Já com os homens... como complicamos as coisas!  Corremos, investimos, sofremos, humilhamos, desprezamos, lutamos por nossos ideais, para chegarmos... onde? No vazio de uma existência sem sabedoria, sem amor, sem esperança, sem paz, pois não conseguimos, no auge de uma vida próspera, acrescentar um só centímetro em nossa estatura e não há dinheiro algum neste mundo que nos livre das fatalidades. Meu dinheiro, por mais que eu pudesse pagar os tratamentos mais caros, não pôde devolver a vida às minhas pernas e nem apagar as amarguras do passado que costumavam ainda, me assombrar.
Vivia como cega, só que enxergando.
Não falar com André estava me deixando desesperada. Queria, ao menos, expressar meus sinceros pesares pelo que havia acontecido, dizer que tudo o que eu disse não era e nem nunca foi o que eu pensava dele, só falei num momento de descontrole para tentar afastá-lo, com sempre fazia.
Percebi que ia ter que conviver também com isso agora.

CONVERSAS REVELADORAS

Numa determinada manhã, após tomar o café, Ana sentou-se ao meu lado na biblioteca e mostrou-se interessada em conversar.
Fechei o livro que estava lendo e, entendendo seu comportamento, inclinei-me para a frente.
– Quer falar alguma coisa, não é? Sou toda ouvidos.
         Ela olhou-me com uma expressão de quem concorda balançando a cabeça positivamente e começou.
         – Estamos todos preocupados com a senhora, não anda se alimentando direito e vive triste e mais reclusa do que nunca, dentro desta biblioteca, não estou dizendo que ler não é bom, mas há outras coisas a se fazer, e a senhora não nos parece bem.
         Temia que ela me questionasse sobre isso, não sabia esconder as coisas dela, minha vida para ela era como um livro aberto.
         – Não se preocupem comigo, eu estava mesmo precisando de uma dieta e tristeza não me matou antes, não é agora que pode fazê-lo, certo? – sorri com um ar maroto que obviamente não convenceu a ninguém ali, nem a mim mesma.
         Ela continuou a olhar-me, agora com uma expressão de “pena”. Isso me deixou transtornada e me fez recordar de uma noite em que cheguei completamente bêbada à casa, meus pais ainda eram vivos (quanto desgosto eu não dei a eles), subi as escadas bastante tonta, meu estômago começou a revirar e corri para o meu banheiro despejar o vômito que já chegava à boca, não deu tempo, cambaleante como estava, vomitei no quarto. Ainda cambaleante, desci as escadas e como todos já estavam dormindo e eu precisava de um remédio para tirar aquele mal estar e aquele peso da minha cabeça, resolvi ir até o quarto de um empregado, eu nem sabia que tinha feito tanto barulho que alguns já estavam acordados. Abri a porta do quarto de Ana e me deparei com a cena mais inusitada de toda a minha vida, ela estava ajoelhada perto de sua pequena cama, aos prantos, com as mãos estendidas e dizendo “Senhor, tem misericórdia dessa menina”. Fiquei tão aturdida com aquilo, mesmo no meu estado não suportava alguém tendo pena de mim, muito menos aquela mera empregadinha, que não passava de uma serviçal. Quando me lembro do que fiz, meu estômago volta a doer e aparece um oco sem fim no meu peito. Eu gritei com ela, disse, num tom pastoso de bêbada, que ela não era digna de lavar os meus sapatos, que eu era rica, bonita e não precisava de sua pena. Ela olhava para mim com ternura, eu parei e não consegui dizer mais nada. Só pedi, por favor, que ela me desse um remédio e que limpasse o vômito do meu quarto.
         Ela levantou-se, pegou o meu braço e me conduziu com carinho até a cozinha. Minha mãe já estava no pé da escada com os olhos cheios de lágrima, meu pai sabendo de meus ataques e de minha bebedeira nem desceu, deve ter chorado no quarto mesmo. Ela passou por minha mãe, ainda me conduzindo com um carinho típico dela, as mãos no meu ombro e disse para minha mãe ir dormir que ela cuidaria de mim. Sentamos caladas na cozinha, ela me deu um café bem forte, um comprimido, depois, saiu da cozinha, com certeza nesse tempo ela limpou meu quarto, pois, quando voltou, levou-me para lá e já estava tudo limpo. Assim é a Ana.
         Voltei de minhas lembranças arrastada por aquele olhar que agora eu sabia não era de pena, era de compaixão.
          – Não se sinta mal por mim, eu devo resolver as coisas que eu mesma estrago – sorri novamente, agora, triste – você sabe muito bem que tenho esse dom. – falei isso e lágrimas saltaram dos meus olhos, traindo a minha intenção de não preocupá-la.
         Ela aproximou-se de mim e então eu pude ver que ela carregava um livro nas mãos, ela abraçou-me com doçura, depois foi recitando.
         “Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu:
         Há tempo de nascer, e tempo de morrer: tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou:
         Tempo de matar, e tempo de curar: tempo de derribar, e tempo de edificar:
         Tempo de chorar, e tempo de rir: tempo de prantear e tempo de saltar:
         Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras: tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar:
         Tempo de buscar, e tempo de perder: tempo de guardar, e tempo de deitar fora:
         Tempo de rasgar, e tempo de coser: tempo de estar calado, e tempo de falar:
         Tempo de amar, e tempo de aborrecer: tempo de guerra, e tempo de paz...”
         Não consegui articular nenhuma palavra e as lágrimas brotaram com arroubo, soluçava compulsivamente ainda abraçada por ela.

REVELAÇÕES

         É claro que depois da cena descrita eu quis saber de onde ela havia tirado palavras tão sábias e que se encaixavam tão bem às situações da vida. Ela revelou-me um universo de profundas descobertas existenciais, um livro de onde comecei a tirar as respostas que tanto procurei. Ela deu-me uma linda bíblia cor de rosa com escrita dourada na capa “Bíblia Sagrada”. Eu não lia, eu devorava as palavras com tanta sede, é, eu tinha sede de conhecimento e fome de palavra de vida. O texto que ela havia citado sobre Salomão e os lírios, estava lá também. Mas ela não só deu-me o livro como também começou a mostrar-me algumas coisas que antes, por mais óbvias que parecessem, eu não enxergava. Ela falou-me sobre JESUS, a história Dele, o mestre que Ele foi e é porque Ele está vivo, foi o único, na história da humanidade que ressuscitou, seu corpo não está lá onde foi sepultado. O sacrifício, que maravilhosamente foi descrito por Isaías, profeta que contou a história 700 anos (aproximadamente) antes dela acontecer, sacrifício de morte de cruz feito por nós, para nos salvar.
         Salvar de quê? Perguntava eu, na minha falta de conhecimento, sempre me achei tão inteligente e não entendia o que Ana queria dizer com salvar.
         – Oras, de nossos pecados, nossas transgressões, Ele veio quitar nossa dívida, seu sangue lava-nos de nossas impurezas!
         Foi como se uma luz tivesse se acendido dentro de mim e tudo ficou completamente cristalino como a água.
         – Então Ele quitou as dívidas que eu angariei ao longo de toda uma vida insana e frustrada? Meu Deus, será que Ele me deu outra chance de viver para que eu descobrisse isso e mudasse e compensasse os erros que cometi? – eu queria saltar de felicidade com a descoberta, era como se as peças de um quebra-cabeças fossem se encaixando na minha mente e tudo começasse a ter sentido completo.
         – Você não precisaria compensar nada, minha querida, nós não seríamos capazes de fazê-lo, Ele pagou o preço naquela cruz por todos nós, a única coisa que Ele quer é que você seja fiel a Ele como Ele tem sido para você. – Ana já falava entre lágrimas tendo a certeza de que eu já havia descoberto o que procurei, a VERDADE.
         – Você tem toda razão, como eu poderia, por exemplo, compensar os sofrimentos causados nos meus pais, se eles já morreram, como eu poderia trazer o meu marido de volta, se minhas ações o levaram à morte. Eu não poderia fazer nada, com todo dinheiro que tenho, para compensar isso!!! Mas JESUS já o fez por mim.
         Ana abre a Bíblia e lê a seguinte passagem: “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho. Mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós.” (Isaías 53: 4 a 6).
         – Foi exatamente assim que JESUS morreu uns 700 anos depois do profeta Isaías escrever esse texto, era dele que Isaías falava, não é impressionante, o profeta via em espelho, falava e era como enigma, muitos não entendiam, o que hoje já aconteceu há mais de 2000 anos, por isso a Bíblia é tão especial, ela se cumpre e na nossa vida também, a cada passo que damos ela tem um conselho sábio para nós. Você verá como é maravilhoso viver com esse Deus, só é preciso entregar-se a Ele.
         Com a minha boca e em voz alta eu pedi:
         – Eu me entrego a ti Senhor Jesus, cumpra em mim o teu querer – fiz essa oração orientada por Ana que caminhou comigo por essa nova e emocionante vereda pela qual eu me embrenhava agora...

NOVOS PASSOS

         Nos dias que se passaram continuava a ler, a aprender e a descobrir coisas maravilhosíssimas como está escrito: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem.” (Jô 42: 5).
         E realmente agora eu enxergava claramente coisas que dantes eu procurava e não conseguia as respostas. Comecei a frequentar uma comunidade, as reuniões eram muito abençoadas, passei a usar o vocabulário deles o que é muito interessante, minha vida parece ter mudado de cor, passou a ter um novo sentido, eu já não estava triste, descobri que quando Jesus morreu na cruz, deixou-nos um consolador, o ESPÍRITO SANTO, para quem não sabe, Ele habita dentro de nós e nos ajuda em absolutamente tudo.
         Você que está lendo deve estar se perguntando se me esqueci do André, é claro que não, pelo contrário, aprendi a falar com Deus e falo muito sobre o André para Ele. Peço que o ajude, que dê a ele o melhor e que faça-o feliz. Sei que ainda faz uma indagação, se eu não vou ligar para ele, você deve lembrar que uma das minhas primeiras lições neste caminho que agora eu trilho é que há tempo para tudo debaixo dos céus, sei que vou re-encontrar o meu Adônis na hora certa.
         Falar com o Senhor e obter respostas, ajuda, consolo, perdão, é o que há de mais lindo nesse mundo, nunca tinha vivido isso antes, as culpas que eu carregava, os fantasmas que viviam a me rondar, as dores do passado foram todas embora e só restou conforto no meu coração. Estou compartilhando com você uma experiência muito íntima, espero que entenda que cada pessoa tem que ter a sua, mas o Senhor não é grosseiro, Ele só faz se aceitarmos sua ajuda e apoio como eu aceitei. Tem outra coisa que quero compartilhar, não há coincidências, nada acontece por acaso, tudo tem um propósito na vida, o fato de você estar lendo este livro já é uma resposta que você tanto buscava, pois a minha experiência pode ajuda-lo a trilhar o seu caminho como estou trilhando o meu.
         Não se esqueça, “Em verdade, em verdade, te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3: 3). Eu não entendia isso até perceber que o nascer de novo significa se libertar de todas as convicções que até então eu tinha e achava corretas sob o meu ponto de vista. Não conseguia ver que somos tão limitados como seres humanos e Ele sabe tudo e nos ensina, eu não sei o que é melhor para mim, mas Ele sabe.
        
MEU IRMÃO

         Certa tarde, estava na biblioteca conversando animadamente com Ana e outros assistentes domésticos que também leem a Bíblia e eu não sabia, quando o interfone tocou, fiquei ansiosa pensando que pudesse ser o meu Adônis, mas Rosa atendeu e veio avisar que o Jonas estava na porta da mansão. Senti um misto de felicidade, ansiedade em revê-lo, pedi que ele entrasse e me dirigi à sala para recebe-lo. A cena que segui-se foi um tanto chocante para mim, vi um homem que nem de perto lembrava o meu irmão jovem, vi um maltrapilho, cheirava muito mal, sujo, descalço, desgrenhado, cheio de marcas na pele, só o que reconhecia era o olhar de um azul profundo e muito, muito triste. Tive vontade de chorar na frente dele, mas consegui me manter firme, aproximei-me e estendi meus braços para um abraço.
           – Venha cá meu irmão, abrace sua irmã, que saudade, por onde você andou, o que tem feito da vida?
         Ele estava reticente como se talvez não devesse ceder àquele abraço, porém, ele se curvou sobre mim e começou a chorar convulsivamente, deixei que ele ficasse ali pelo tempo que precisasse até desabafar toda sua dor naquele pranto por muito tempo guardado em seu peito. Eu passava a mão por aquele cabelo meio comprido até os ombros, todo desalinhado e sujo, não reconhecia mais o jovem que já não via há muito tempo naquele homem parado ali na minha frente. Quando ele parou de chorar, levantou-se e olhou com aqueles olhos melancólicos e tristes, eu tinha chorado com ele.
          – Ah!! Minha irmã, você está linda como sempre foi, essa cadeira não te mudou em nada.
         – Engano seu meu querido, minhas mudanças ocorreram por dentro, mas fizeram muito bem para a minha vida – dei um sorriso triste em resposta a sua dor. – Saiba que fico muito feliz em revê-lo, quero saber tudo de você e ajuda-lo no que for preciso.
         – É, realmente você está mudada, vejo isso até nos seus olhos, e se oferecer para ajudar... esperava que me botasse pra fora da mansão a pontapés – agora já expressava um sorriso tímido.
         Ele contou-me todas as suas desventuras, disse que a esposa o havia deixado, não aguentara tamanho sofrimento ao lado dele, eles tinham dois filhos, um casal, o vício o tinha aniquilado por completo. Ele confessou-me que perdeu tudo com drogas, que não havia restado nada de sua herança e que já vivia nas ruas por aproximadamente dois anos, já nem sabia direito porque na rua ninguém conta os dias. Eu ouvia tudo enternecida e preocupada, perguntei a ele se ainda era viciado, apesar de já saber a resposta.
       Não, eu já não cheiro mais há algum tempo.
Aquela resposta, claro, não me convenceu, quem mora na rua não consegue perder o vício assim facilmente, a não ser que tenha ajuda de fora e não foi isso que demonstrou.
É claro que antes de conversarmos tudo isso, mandei que ele tomasse um banho, dei comida, comprei roupas, levei-o ao cabeleireiro, mudei a sua aparência. Depois de dois dias que ele havia batido na minha porta ele já se sentia outra pessoa, mas eu percebia que ele tremia, tinha uns tiques meio estranhos, coisas de viciado que está tentando deixar o vício. Falei com ele sobre internação, mexi na ferida, ele ficou bastante irritado e pela primeira vez revi seu comportamento agressivo que eu conhecia muito bem.
– Não, você tá louca, não volto pra esses lugares de jeito nenhum, já fui maltratado em um deles e não quero reviver essa experiência, vê se me deixa em paz, quer ajudar, ajuda, se não quer eu vou embora e pronto. – falou aos berros como se estivessem espetando umas agulhas no corpo dele.
         – Calma aí, eu não vou mandá-lo para lugar nenhum sem seu consentimento, você é um adulto, sabe que só quero seu bem, mas você precisa querer certo? – respondi percebendo seu olhar de fúria pousar em mim.
         Nos dias que se seguiram notei uma porção de coisas que temia, começaram a sumir objetos de valor da mansão, até mesmo minhas joias, e ele saía furtivamente sem falar para onde e voltava transtornado. Passei a sofrer com um inimigo morando em casa.
         Orei a Deus pedindo que me ajudasse como sempre fazia e, num desses dias, estava saindo das reuniões na comunidade que eu frequentava e uma irmã na fé me puxou e me deu um recado.
          – Irmã, Deus tem ouvido tua oração e diz que vai haver um rebuliço e você não deve ficar com medo porque Ele estará no negócio e vai fazer para o seu bem.
         Na hora eu ouvi, agradeci, mas não entendi nada. O que descreverei a seguir vai fazer você e eu entendermos perfeitamente o que Deus quis dizer.

O TRABALHAR DE DEUS

         Numa certa tarde, eu estava em casa com o coração apertado por não saber onde meu irmão estava, pois desde o dia anterior não havia retornado à mansão.  Ouvi nitidamente uma voz falar ao meu ouvido “Clama a mim”. Olhei atônita para os lados, à procura de alguém e nada, estava sozinha sala de TV assistindo ao noticiário. Fiquei perplexa, nunca tinha ouvido voz tão nítida sem perceber ninguém a minha volta. De repente, novamente a voz “Clama a mim”. Demorou para cair a ficha, mas decididamente era Deus quem falava comigo. Ajoelhei e comecei a pedir piedade, ajuda, para mim e para meu irmão, o qual não sabia o paradeiro.
         O telefone tocou e eu ouvi Ana atendê-lo, ela trouxe-o até mim e anunciou que André estava na linha, eu gelei, não sabia o que ouviria depois de tudo e da ausência tão longa dele.
         – Alô! André, como você está? Há quanto tempo hein? – minha voz estava ligeiramente trêmula e ansiosa.
         – Desculpe ter demorado tanto para ligar, é que eu andei realmente ocupado. – sua resposta veio como uma pancada no meu peito, é esquisito dizer mas eu esperava que ele dissesse agora, “estou ligando para convida-la para meu casamento”, afinal já havia se passado sete meses desde o nosso passeio à fazenda. Porém suas palavras não prenunciavam nada, eu é que estava suscetível demais naquele momento com a ausência do meu irmão.
         – Estou com saudade de você! – falei sem pensar muito na resposta só para quebrar o silêncio e não deixar que ele dissesse o que eu aguardava.
         – Eu viajei a trabalho para o Oriente Médio, fazer publicidade lá não é tarefa fácil, os costumes, hábitos são completamente diferentes, tive que vivenciar um pouco a realidade do país para me inspirar. Mas nessas andanças fui à Jerusalém, você nem sabe quantas coisas tenho pra contar e quantas descobertas eu fiz, acredito piamente que o que eu encontrei trará suas repostas. – suas palavras soavam com alegria e entusiasmo. Fiquei aliviada ao saber o verdadeiro motivo de sua ausência e feliz por imaginar que sua descoberta também seria a minha.
         – Fico feliz que tenha encontrado um caminho, mas acho que o que eu tenho para contar é semelhante, também fiz muitas descobertas, mudei, renasci.
         – Sério – ele já falava quase saltando do outro lado da linha, senti o entusiasmo em sua voz – então precisamos conversar, se você descobriu o mesmo que eu não haverá mais nenhum embaraço para nós certo?
– Podemos conversar quando você quiser – eu respondi de forma evasiva para não perder a satisfação de falar pessoalmente o que sentia por ele, percebi que minha resposta deixou-o um pouco frustrado, porém ele aceitou marcarmos um encontro, me pegaria no sábado, porque ainda estava fora do país e voltaria exatamente no sábado e não perderia nem mais um minuto sem me ver, palavras dele. Despedi-me feliz. Contaria tudo a ele, diria que o amo e que não queria viver nem mais um minuto longe dele e que fossem embora meus medos, porque já não deveria tê-los. Com a ligação havia me esquecido de contar a Ana minha experiência de ouvir a voz de Deus. Animada como estava, convidei-a para irmos ao shopping queria comprar roupa nova para o evento do sábado, seria maravilhoso, mal sabia que o lindo vestido que comprei não seria usado... 
Nem sinal de meu irmão. Mal sabia eu tudo o que ainda estava por vir...

O SONHO

         Naquela noite sonhei com um rio de águas cristalinas e que estava numa margem, na outra havia um homem cujas vestes eram resplandecentes, o rosto eu não poderia descrever, pois me ofuscava seu brilho, ele fazia sinal para que eu atravessasse, eu pensava, mas não há nenhum barco aqui, olhava em volta buscando a resposta, ouvi uma voz dizendo “Vem, não tenha medo, você pode andar sobre a água”, eu, resoluta, comecei a atravessar andando, pé ante pé, meus passos eram firmes e confiantes, porém quando cheguei na metade do rio, lembrei-me que eu não podia andar, o pânico começou a tomar conta e comecei a afundar e ele tranquilamente observava do outro lado, minha angústia e medo confundiram meus pensamentos que até então eram claros e seguros, e eu pensava como ele podia estar tão calmo se eu ia morrer naquele rio de águas, despertei angustiada como estava no sonho e não consegui entender o que significava tudo aquilo.
Mais um dia se passou sem notícias do meu irmão.

RETORNO ÀS LEMBRANÇAS

Já estávamos em dezembro, era sexta-feira e no sábado eu ia rever o meu doce Adônis. Apesar da ausência do meu irmão e do sonho ainda me angustiarem, eu estava ansiosa para chegar o sábado, tinha boas perspectivas para o nosso encontro.
Eu estava na sala de TV assistindo ao noticiário da tarde, todos os cantos da sala já estavam decorados com objetos de Natal, eu amava essa época, apesar das desventuras que já sofri, ainda me lembrava família reunida, comida em abundância e muitos presentes. E o mais gostoso, viagens a Europa, meus pais faziam questão de levar-nos a outro país, geralmente, a Europa, um ou dois anos me lembro de ir a Nova Iorque, porém, na maioria dos anos passávamos na Europa, até eu e meu irmão nos desgarrarmos de vez.
         Deparei-me com um enfeite de Natal que me lembrava papai, uma bola de vidro com flocos de neve com um boneco de neve e uma casa linda com as dos Alpes suíços. Ele adorava esse enfeite, era o preferido dele, o primeiro que ele colocava na sala antes de montar a árvore e colocar as meias na lareira. Meu pai era muito caprichoso, enfeitava a casa toda e colocava lá fora uma iluminação de fazer inveja à cidade de São Paulo inteira, pena que nossos muros e portões sempre foram muito altos e os de fora não poderiam ver a beleza de decoração que ele sempre fazia.
         Mas o que me prendeu naquele tarde foi a bola de vidro, peguei-a e virei-a para baixo para que os flocos de “neve” flutuassem na água, minhas lembranças voltaram numa cena, numa véspera de Natal na Europa, em que estavam meu pai e eu, ainda bem pequenina, na porta de uma linda loja, em uma pequena cidade no interior da Itália, nevava muito e nossos pés iam afundando na neve fofa. Entramos na loja, onde o ambiente aquecido era aconchegante. Lembro-me de que as lojas estavam todas enfeitadas com luzes piscantes, papais noéis e bonecos de neve, as renas no trenó e toda sorte de enfeites que já conhecemos. Esta era uma loja de brinquedos, havia tantos que eu poderia me perder no meio deles, meu pai abaixa-se perto de mim, e vejo nitidamente aqueles olhos de um azul profundo a me observarem, como seu eu o estivesse vendo agora, ele diz: “Filha, escolha o que quiser da loja.”. Eu já estava absolutamente acostumada com seus mimos e respondi manhosa: “E se eu quiser a loja toda?”. Meu pai ri solto e responde com firmeza “Podemos fechar a loja agora se você quiser!”. Eu, entre o malicioso e o ingênuo afirmo com um dar de ombros de indiferença “Só quero aquela boneca ali”. E aponto para uma enorme e linda boneca no meio da loja. Volto com meus pensamentos para a sala de TV onde estou sentada com minha bola de neve na mão, coloco-a no lugar e entendo o porquê da lembrança, para lembrar-me de onde meu pai errou em nossa educação, onde todos erram, tentando dar-me tudo, perdi-me no nada. Eu não valorizei nada do que tive, exemplo disso é que só passei a valorizar meu corpo quando perdi minhas pernas. As perdas nos ensinam a valorizar o que temos e o que ganhamos, parece contraditório, mas é sabedoria.

AINDA NAQUELA TARDE...

         Cochilei no sofá com a TV ligada e acordei com algo frio e apertado contra a minha cabeça, acordei atônita com o cano de uma arma apontando para mim, ainda zonza me vi sozinha, cercada por quatro marginais que espreitavam o meu sono. O mais alto deles era o que segurava a arma e começou a bate-la com força contra a minha cabeça dizendo:
         – E aí madame, to pra vê mulhé bunita igual a sinhora, só que tamo aqui pra pega as joia, onde é que tão?
         – Calma rapaz, eu falo onde estão, só peço que fique calmo. – eu falava ainda meio zonza de sono e também zonza com aquelas pancadas na cabeça que me deixavam mais atordoada ainda. O que apontava a arma era alto, como eu disse, mais ou menos 1,85m, magro, usava gorro, um bafo horroroso, olhar de gente má e dentes bem estragados para a sua idade. Os outros eram mais baixos de estatura, eram magros, um deles, moreno claro, usava um gorro como o do rapaz alto, outro, para minha surpresa era loiro como meu irmão, mas (graças a Deus) não era ele, me culpei pelo meu pensamento, o último deles que vislumbrei tinha cabelo castanho bem escuro e era o mais moreno deles, era mulato.
         Fomos para cima, um deles, o mais alto empurrava minha cadeira e ainda apontava a arma para a minha cabeça, e para a minha infelicidade eu não ouvia nenhum barulho dentro da mansão a não ser o nosso. Eles me levaram ao cofre tirei todas as joias, descemos e um deles disse para o loiro me colocar na van. Eu fiquei aflita, descobri nesse momento que eu era o principal, eles me levariam sei lá para onde. Eles não levaram muita coisa da mansão, achei muito estranho meus assistentes domésticos não estarem em nenhuma parte e eu não ver nem sinal deles, fiquei preocupada e arrisquei perguntar:
– Por favor, o que vocês fizeram com os empregados da casa?
– Não se preocupa não dona – respondeu o mulato com pouco caso eles tão de boa, num matamo não, vão achá eles, pode dexá.
Alguma coisa falava ao meu coração que eles realmente estavam bem, só não sabia onde. Mais uma coisa eu sabia, não sei onde eles me levariam, mas eu estava sendo sequestrada.
Eu fui vendada, só ouvia o ronco do carro, a conversa nauseante deles, a preocupação do que eles fariam comigo no assunto nauseante de dizerem que eu “dava um bom caldo”, é claro que eu estava orando em espírito, sem pronunciar palavra para que eles me deixassem em paz. E foi o que fizeram, apesar dos protestos, o loiro dizia que ninguém ia tocar em mim e o assunto tava encerrado, o que eu dei graças a Deus. Vê-se que, de alguma forma, aquele era o líder do bando. Chegamos num lugar cheirando à urina. Senti quando me tiraram da van, levaram-me até um quarto e tiraram a venda. O lugar era horroroso, um cubículo onde já haviam defecado e urinado por ali. Só não sabia o verdadeiro inferno que seriam os próximos trinta dias da minha existência.

O DESERTO

Assim que cheguei, não pense que fiquei na minha cadeira, não. Fui jogada no chão como se joga lixo no caminhão do lixeiro, atirada literalmente. Só não pisaram na minha cabeça, mas cuspiram em mim e me chamaram de vadia rica. Isso foi só o primeiro dia de minha clausura. Dormi no chão é claro e a partir daí não vi mais minha cadeira de rodas, levaram-na dali, disseram que eu não precisaria mais dela. Uma mulher veio ter comigo, eu estava com as mãos amarradas na frente do meu corpo, ela perguntou-me o que eu queria, não poderia descrevê-la porque estava muito escuro no quarto e já era noite e eles não colocaram nenhuma luz para mim, só havia claridade fora do quarto onde eles se reuniram e eu ouvia tudo o que diziam, eu disse que queria uma Bíblia e uma lâmpada para lê-la. Ela riu alto, de forma zombeteira e soltou um palavrão.
 – Ainda por cima tu é crente? Sua filha da p... eu vou trazer tua Bíblia, mas você podia ter pedido um vibrador, sei lá qualquer coisa útil.
– Você verá o quanto ela me será útil nos próximos dias, ela trará uma solução para essa situação.
Com minhas palavras ela ria ainda mais alto e balançava uma cabeleira tão vasta que mais parecia um ninho.
– Já que tu é otária, vou trazer o livro, quero ver onde eu vou arranjar essa m... a essa hora da noite, ninguém aqui lê isso. – Saiu do cubículo, quando abriu a porta pude vislumbrar seu rosto, era até bonito para uma mulher tão relaxada quanto ela, talvez ache isso porque tenha olhado de relance, não sei.
Ao sair contou a novidade aos comparsas e eles, logicamente, caíram na gargalhada.
– Quer dizer que a filha da p... quer uma Bíblia? Passa lá em casa pega a da minha mãe escondida, senão a veia fica loca, ela lê essa m... aí. Vive rezando pra eu saí dessa vida. Vai lá, dá uma desculpa qualquer entra no quarto que é comunitário e pega o negócio que é pra satisfazer os poucos dia que resta pra essa ricaça aí.
Aquelas palavras atravessaram meu peito, eu já imaginava, mas vindo da boca dos bandidos era diferente, a intenção era conseguir algo e depois me matarem. Que fosse feita a vontade de Deus.

MAIS UM DIA DE CÃO

Acordei no dia seguinte com a cabeça latejando, talvez por causa dos maus tratos, talvez pelo mau cheiro que exalava aquele lugar, enfim, doía demais. Os raios de sol penetravam pela porta sinal de que o lugar era pequeno e o sol se projetava pela sala onde eles se reuniam por alguma janela. Sondei o lugar onde estava com a luz que penetrava pela fresta da porta e não encontrei sinal de janela, talvez houvesse e estivesse pintada, mas não havia sinal de luz a não ser a que era projetada pela fresta da porta. Alguém abriu-a trazendo uma bandeja e já fechava a porta atrás de si, no ângulo em que eu estava só dava pra ver um sofá velho e uma parede toda mofada. Na penumbra deu pra vislumbrar que quem carregava a bandeja era o loiro. Ele não falou nada e depositou a bandeja ao meu lado, desamarrou minhas mãos e sentou-se ao lado, no chão. Na bandeja havia um pão amassado e um copo de café com leite morno, ao lado, a Bíblia solicitada, era preta e bem surrada.
– Dá pra colocar luz aqui? Não dá pra ler nessa penumbra! – arrisquei um pedido com jeito.
O rapaz ainda me olhava com pouco caso.
– Vô pensá no seu caso, falô? – respondeu e levantou-se num salto. Abriu a porta com força e bateu atrás de si, deixando-me de novo na penumbra.
Comi, apesar de não suportar o cheiro do lugar, sabia que tinha que me manter saudável e viva, não podia reclamar, é claro, iriam me chamar de fresca e sabe-se lá que maldades fariam. Aguentava o sofrimento infligido calada para não piorar as coisas.
Após o malfadado café, tentei ler a Bíblia, ele havia me deixado desamarrada, encostei-me num canto e senti que precisava ir ao banheiro, arrastei-me com cuidado para não tocar alguma coisa suja no chão fétido e bati na porta, logo saí do caminho para que não abrissem e me acertassem com a porta.
Veio a mulher atender ao meu chamado.
– Fala piranha, que é que cê qué dessa vez? – ela me trata como tratam a ela, com certeza.
– Preciso ir ao banheiro.
Ela ri debochadamente e responde batendo a porta.
– Seu banheiro é aí, aleijada.
Aquelas palavras doeram fundo no meu coração não sei se pelo fato de que ali seria minha privada, se pelo fato de que ela usou o termo “aleijada” daquela maneira tão irônica, se pelo fato de eu ter que me virar para fazer as minhas necessidades fisiológicas naquele cubículo e mais, o cheiro pioraria a cada “xixi” ou “cocô” que eu fizesse. Chorei lágrimas amargas naquela manhã ensolarada e quente. Eu estava na olaria de Deus.
Depois de abaixar minha calcinha como pude e urinar num canto para onde me arrastei, morrendo de medo que alguém entrasse e me pegasse naquela situação, voltei para o meu “lugar de dormir”, onde decidi que iria ficar limpo. Abri a Bíblia e li: “Palavra do Senhor que veio a Jeremias, dizendo: Dispõe-te, e desce à casa do oleiro, e lá ouvirás as minhas palavras. Desci à casa do oleiro, e eis que ele estava entregue à sua obra sobre as rodas. Como o vaso que o oleiro fazia de barro se lhe entregou na mão, tornou a fazer dele outro vaso segundo bem lhe pareceu. Então, veio a mim a palavra do Senhor: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? – diz o Senhor; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.” (Jeremias 18: 1 a 6).
       Aquelas palavras me atingiram com força, eu percebi que Deus tinha um propósito em tudo isso, por que reclamar da situação?, somos tão pequenos diante de Deus, Ele é Senhor de todas as coisas e Ele age como quer, eu não conhecia seus planos permitindo todo aquele sofrimento, mas Ele sabia o que ia fazer e eu entendi a metáfora, se você nunca viu como se faz um vaso de barro é exatamente assim, molda-se na roda, se não ficar bom desfaz-se e volta a moldar, é assim que o artesão faz, depois vai para o forno muito quente, se não ficar bom, quebra, volta a ser barro que vai de novo para a roda e depois novamente para o forno até ser material aprovado, com qualidade. Somos comparados ao barro, mas nas mãos do artesão ele torna-se objeto de valor que tem de ser moldado para tornar-se algo útil como o vaso, e de  qualidade, mas dói, moldar, desmanchar, passar pelo fogo, ser quebrado, para enfim, tornar-se provado e aprovado. Você deve estar pensando que Deus é mau por me permitir passar por esse inferno, eu não enxergo assim, eu vejo um Deus maravilhoso moldando a minha vida para eu ser provada e aprovada, se Deus permitisse que eu saísse de lá, eu sairia mais madura como ser humano e mais madura em minha fé. Aproximei-me de Deus, passei a orar constantemente, quando não estava lendo a Bíblia, ou comendo, ou dormindo, estava orando.
O almoço foi pior que o café da manhã, era um arroz e feijão com jeito de azedo e um ovo mal passado que me reviraram o estômago, resolvi não comer.
– Olha, se vocês querem me manter viva, é melhor trazerem coisa melhor para eu comer, não dá para comer essa comida, ela está estragada, sinta o cheiro! – falei corajosamente para o loiro que empurrava o prato na minha direção.
– Dona, você não tá em condição de dá orde, entendeu? Mais eu vô vê o que dá pra fazê, tá certo?
– Tudo bem. – eu respondi, já arrependida pela cobrança. Ele saiu e ouvi as vozes cochichando, a mulher falava alto.
          – Num sei cuzinhá direito não, cara, faiz você a comida da enjoadinha.
          – É melhor a gente cuidá dela, certo? A gente num sabe se vai ter que usá ela como trunfo, falô? Compra marmitex, a grana que o cara já deu dá pra comprá isso e muito mais. Dessa fonte inda vai saí mais dinhero, vamo sigurá a grãfina até tirá muita grana desse troxa, nóis nem imaginava que esse playboy ia aparecê pra livrá a cara dela. Vai lá comprá o marmitex, e fica acertado que cê vai fazê isso todo dia, tá ligada?
         – Tô ligada – respondeu uma voz insatisfeita sabendo que deveria cumprir as ordens à risca.       
Fiquei imaginando sobre quem estariam falando, logo associei a figura descrita ao meu Adônis, é claro que ele entrou na negociação e já despachou o dinheiro solicitado pelos sequestradores. Comecei a pensar nele e senti um gosto amargo na boca e a vontade de chorar voltou, agora que iria me acertar, agora que eu decidi ser feliz, talvez nunca mais colocasse os olhos nele, nem viveria tudo que imaginei ao seu lado, fui uma tola, chorei compulsivamente, procurando não fazer tanto barulho para não chamar a atenção dos bandidos.
Eles passaram, desde a discussão narrada entre os bandidos, a me servir comida decente, o pão já não era amassado, mas sim fresquinho (nem sempre), o café com leite era bem quentinho, o almoço era marmitex simples, mas com um cardápio até que variado. Imaginei que as orações chegaram ao trono de Deus e que Ele tinha movido o coração daqueles bandidos para me darem comida melhor. A partir do que imaginei ser o terceiro dia, o loiro (já começava a reconhecer as vozes fora da sala e a voz que eu ouvia de comando era do loiro) começou a ficar incomodado com o cheiro de fezes e urina e mandou limpar o cubículo. Enquanto isso me tiraram vendada de lá, me colocaram de volta na cadeira, levaram-me ao banheiro, chegando lá ela tirou minha venda e me colocou na privada para eu fazer minhas necessidades.
 – O mala tá achano aquele quarto muito fedido, não dava mais pra entrá lá, a partir de agora cê me chama quando tivé com vontade de ir no banhero, só que eu te ajudo a sentá e saio que num quero ficá cherano bosta de ninguém, falô? – indagou muito mal humorada.
– Falô – eu respondi sem ter a intenção de imitá-la, mas para que ela entendesse que eu aceitei o acordo.
Ela deixou-me lá, vendada, e fiquei aliviada de poder fazer minhas necessidades no lugar certo, sem parecer um porco no chiqueiro. Entendi que minhas orações estavam dando certo, tudo o que eu pedia era atendida, não pedia para os bandidos, mas sim para Deus em minhas orações, passei a não falar com eles, tinha alguém muitíssimo melhor a quem pedir as coisas que eu precisava. Foi assim que, a partir do quarto dia, as coisas começaram a melhorar, eu enxergava dessa maneira.

CHOQUE

Já não havia mais cheiros horríveis no ar, graças a Deus, havia sempre um cheiro de pinho forte que ficava quando, uma vez ao dia, vez na qual eu era levada ao banheiro vendada (somente nesses momentos eles me colocavam na cadeira, ela nem ficava no quarto comigo), acredito que alguém, fazia uma limpeza no cubículo, ao menos desde o terceiro dia já não tinha mais cheiro de esterco e se eu tivesse vontade de ir ao banheiro mais vezes, alguém sempre me levava, me deixava lá e eu fazia força pra me virar sozinha, o importante era estar no banheiro.
Aprendi a contar os dias, claro, conforme levavam a comida, por isso acredito que o dia a partir daqui descrito deva ser o nono dia de martírio. Acordei com uma luz brilhando na minha cara, colocaram luz no meu cubículo, agora a leitura da Bíblia não forçaria mais tanto a minha visão e eu não precisaria mais me rastejar procurando o ângulo melhor da luz que vinha da fresta da porta. Porém, ao lado da brilhante luz o que eu vi me deixou petrificada, num misto de aterrorizada e infeliz, vi meu irmão parado ali a me olhar.
  – Meu Deus!!! – não conseguia dizer mais nada, só tinha vontade de chorar – O que você faz aqui? Não me diga que ajudou a planejar tudo isso? Como fui tola, é claro, quem abriria a mansão, você deve ter sondado e sabia a senha do alarme, por isso não soou, você abriu a minha casa para eles. Eu confiei em você, você é meu irmão!!! – eu gritava a plenos pulmões com vontade de esmurrá-lo, entre perplexa e com raiva, muita raiva. Eu vivendo aquele inferno por culpa dele, eu estendi minha mão para ele e olha como ele devolve, meus pensamentos vinham em profusão lembrando tudo o que eu havia feito naqueles dias e como ele havia desaparecido sem deixar rastro, agora eu entendia, tudo se encaixava.
– Sou um bom ator não sou? – e ria de forma desprezível, realmente eu já não o conhecia mais – Eu planejei tudo sim, eles são meus comparsas, minha vestimenta de mendigo foi bastante convincente, não? Maninha, nem dinheiro você me ofereceu, continua sendo a mesma sovina de antes né? Pensa que é esperta, já viu que não é, certo? – e ria debochado, um sorriso maligno que eu sei, apesar dos pesares, não era dele.
– Eu só vim aqui falar contigo porque peguei dois de seus cartões na minha estada na casa, porém, não sei a senha e preciso delas, fala quais são.
Dei as senhas para ele, mas pensei que já deveriam talvez estar bloqueadas em razão de meu sequestro, ele poderia ser pego ao tentar sacar no banco meu dinheiro, mesmo no caixa, sei lá, não sei como funcionam nesses casos, isso nunca havia acontecido comigo, não sei como a polícia age, com certeza ela já estaria envolvida, mas ele já deve ter feito isso muitas vezes, deve saber muito bem como agir, não faria nada que colocasse tudo a perder e ele ainda estava comigo. Em pensar que meu irmão era um bandido revirou o meu estômago, tive vontade de vomitar. Ao sair ele ainda riu ironicamente, eu me virei e perguntei:
– Você não respeita nem a memória dos nossos pais, nem os laços familiares que temos, era só pedir que eu daria dinheiro, não precisava jogar tão sujo.
– Você não ia me dar dinheiro pra eu me drogar, ia? – a pergunta ficou sem resposta, ele levantou-se e foi embora.
Aquele dia eu orei a Deus para Ele tirar o ódio do meu coração. Não queria sentir aquilo pelo meu próprio irmão e aquele sentimento não me fazia nada bem.
Naquela tarde Deus trouxe a minha memória meu irmão pedindo ao meu pai que o levasse para assistir a um jogo de futebol, meu pai disse que um dia talvez, ele não era fã de futebol e nunca levou meu irmão, mas eu tinha certeza que se fosse eu que tivesse pedido ele faria o esforço, meu pai sempre me tratou como a bonequinha da casa, e meu irmão sabia tanto quanto eu  sobre a diferença de tratamento, daí vinha uma grande revolta, ele cresceu assim. Senti muita pena de meu irmão, e notei que o ódio tinha dado lugar à compaixão, chorei novamente, por dentro, quase sem lágrimas, a dor na alma era tão grande que posso descrevê-la fisicamente, uma dor no peito forte e aguda, já senti isso antes, todas as vezes que sentia remorso.

APRENDENDO NO DESERTO

         Depois do nono dia, com luz no cubículo, passei a ler quase o dia todo e falando com Deus, era o melhor a fazer. Os livros de leitura agora eram Mateus, Marcos e Lucas e sempre o Espírito Santo me levava a ler os milagres que Jesus realizou:
         “Tendo Jesus chegado à casa de Pedro, viu a sogra deste acamada e ardendo em febre. Mas Jesus tomou-a pela mão, e a febre a deixou. Ela se levantou e passou a servi-lo.” (Mateus 8: 14 e 15).
         “Tendo Jesus chegado à casa do chefe e vendo os tocadores de flauta e o povo em alvoroço, disse: Retirai-vos, porque não está morta a menina, mas dorme. E riam-se dele. Mas, afastado o povo, entrou Jesus, tomou a menina pela mão, e ela se levantou.” (Mateus 9: 23 a 25).
         Eu meditava nessas palavras tentando entender o que Deus queria dizer, eu só passei a ler os milagres e aconteceu de novo, a voz que eu já tinha ouvido antes, falou-me “Pede o milagre”. Eu olhei a volta de forma automática como sempre fazia quando a ouvia, não havia ninguém como era de se esperar. A ficha caiu e eu entendi que precisava clamar que Deus iria realizar um milagre, qual não importava, eu tinha que clamar, passei a orar assim. “Senhor, me concede um milagre, me livra destes malfeitores e, por favor, livra meu irmão do mal”. Essa passou a ser termitentemente a minha oração naquele lugar. E eu continuei a ler os milagres que Jesus e seus discípulos realizaram. Era fantástico, quanto mais privações o ser humano tem mais ele se apega a Deus, só assim aprende a ouvi-lo e ter maior intimidade com Ele. Só no meu martírio pude entender tudo isso, então havia esperança para mim.

NOVAS EMOÇÕES

         Foi no que eu acreditei ser o décimo terceiro dia que eu ouvi uma conversa, eles quase não conversavam na minha “antesala” talvez porque achassem temerário eu conhecer as suas movimentações, não sei, mas neste dia eu ouvi claramente dizerem que teríamos de mudar daquele lugar. As coisas não estavam muito bem entre eles, já estavam desconfiados uns dos outros, acreditaram que houve vazamento de informação e que teríamos de ir para outro lugar.
         Não pense que eu senti medo, não, eu sabia que tudo estava no controle de Deus e que Ele tinha um propósito também nisso, talvez o outro lugar fosse melhor por algum motivo.
         O que sei é que uns dois dias após essa conversa, logo de manhã cedo, levaram o meu pãozinho matinal, e, ao invés do leite com café, levaram-me um copo de suco. Estranhei a mudança de cardápio, mas tomei obediente. Ao ficar sozinha no cubículo comecei a sentir o corpo pesado, os olhos pesados e adormeci.
         Acordei zonza no banco de trás de um carro, vendada, imaginei que houvesse mais uma pessoa comigo no banco de trás, eu estava com as mãos amarradas. O carro devia estar em alta velocidade e uma janela devia estar bem aberta porque o vento batia forte no meu rosto. Senti-me angustiada, mas resolvi não mostrar que havia acordado, fingi-me adormecida no que eu imaginei passar quinze minutos ainda de carro até chegarmos. Ao estacionarem tentei ouvir algum barulho que me dissesse onde poderíamos estar, inútil, só o vento, o balançar de galhos e pássaros. Claro que deveríamos estar no campo, onde havia muito mato, lugar bem afastado da civilização. O ar era bem quente, um calor de enlouquecer, era difícil até de encher os pulmões.
         Tiraram-me do carro e me carregaram por uns dez metros talvez até chegarem ao meu novo quarto, aqui havia uma cama e o cheiro era agradável. Senti-me esperançosa, não sei por que. Quando retiraram a venda, vi um lugar simples, mas com janela, uma penteadeira bem antiga, um guarda-roupa e a cama com um colchão horrível de molas, mas perto do lugar onde eu estava, aqui era o paraíso, tudo é relativo dependendo do ângulo em que enxergamos as situações. A janela dava para um matagal sem fim, não fazia a mínima ideia de onde estaríamos.
         Não trocaram uma palavra sequer comigo como na maioria do tempo em que estive naquele suplício. Melhor, assim eu não ouvia ofensas, palavrões que é o só o que sabiam proferir.
         Eu comecei a me sentir mais segura e achei que não foi à toa que fui levada para outro lugar, por se paralítica eles acreditavam que não havia nenhum problema em ter uma janela, ainda mais que ela dava para o nada. Porém, ainda não sabia por que razão, mas uma esperança brotou no meu peito e continuei a orar pelo milagre.
        
MUITOS DIAS DE CATIVEIRO

         Certa manhã, no que eu calculei ser o vigésimo dia, eu estava lendo (como sempre) a palavra e li a história de Moisés e como ele foi usado para tirar o povo de Israel do Egito onde eles eram escravos. O povo passou quarenta anos no deserto, mas lá eram alimentados, à noite havia uma coluna de fogo que os acompanhava e de dia uma nuvem que abrigava-os do sol escaldante, isso tudo era providência divina para que nenhum se perdesse, eles não tinham saído do Egito para morrerem no deserto. Fiquei a meditar nessa palavra e pensei que a situação se encaixava na minha, eu não tinha descoberto tantas coisas para morrer nesse deserto em que estava vivendo. Não é por acaso que Deus mandou-me orar pelo milagre. Olhei à volta, e comecei a bolar uma forma de fugir daquele lugar, vocês devem pensar  “como uma paralítica pode se arrastar por aí, principalmente, porque a cadeira de rodas nunca ficava em meu quarto e no meio do mato, para que serviria uma cadeira de rodas?”. Mesmo assim, não desisti do plano, faria qualquer coisa para sair de lá. A partir daqui, noite por noite eu me arrastava até a janela e ficava ouvindo os barulhos externos, não havia nenhum, só barulho na casa e de uma ou duas pessoas, no máximo, o bando não ficava todo ali,  talvez para não levantar suspeitas sobre o lugar.
         Imaginava que o lugar poderia ser uma chácara, então deveria ter vizinhos, distantes, mas haveria. Eu ouvia ao longe barulho de animais, não sei quais, pois não convivi em lugares rurais, a não ser a passeio, mas acredito que ouvia barulho de gado, porém, era um barulho bem distante, mas era sinal, talvez, de que houvesse vizinhos. Claro que eram somente suposições, eu só observava.
         Numa das noites em que eu fingia dormir e me arrastava até a janela para ouvir os sons dos outros cômodos da casa e, principalmente, os que vinham da janela, ouvi uma conversa que vinha de outro cômodo da casa.
Tô cansado disso, é melhor a gente apagá essa mulher, chega, já consiguimo dinhero bastante daquele troxa. Num guento mais, ainda por cima, só nóis fica aqui, eles nem vem mais aqui, a gente num sabe mais o que tá aconteceno.
Reconheci a voz como sendo do homem que me apontava a arma durante o sequestro, o mais alto, o que, às vezes, trazia a comida no lugar da mulher.
– Tô notano cara, também acho que é melhor a gente apagá e dizê que ela tentô fugi, damo uma discupa qualquer certo? Eles tão dano dinhero sem prova de que ela ta viva. – respondeu a mulher.
– O playboy já falô com o mano dela, ele sabe que ele tá envolvido e ele diz que ela tá viva, o cara acredita nele apesar de tudo o que o Alemão feiz. É a única saída dele, acreditá.
Aquelas palavras me deixaram aflita e com mais vontade de fugir dali, sabia que era agora ou nunca, não podia esperar mais. Eu imaginei que eles estivessem falando sobre o André e meu irmão, este já tinha negociado com o meu Adônis, que acreditava que eu ainda estava viva, segundo a palavra do meu irmão, era só no que ele podia confiar. Ele estava sustentando aqueles bandidos, meu Deus. Pensei no pior, como eles me matariam, mas esse pensamento me angustiou tanto, eu nem podia ler a Bíblia porque estava tudo escuro e conforme o meu plano, eu fingia que dormia.
Ouvi uma movimentação na casa estranha, achei que eles entrariam a qualquer momento ali para acabarem comigo. Comecei a orar em pensamento “Senhor, faz o milagre”, oração que eu vinha repetindo há algum tempo. Quando pensei ouvir o som da fechadura coloquei-me de pé, aflita, fui até a janela e forcei, nada, estava emperrada, era daquelas janelas de erguer o vidro antigas, com duas folhas de madeira, tentei novamente, ela cedeu, consegui erguê-la, agora meus movimentos eram lentos para não fazer barulho, forcei a trava da folhas de madeira, elas cederam facilmente, consegui, senti o perfume do mato na noite quente lá fora e a lua muito redonda se mostrava brilhante no céu, prenúncio do milagre, subi na janela e saltei para fora tentando fazer o mínimo de barulho, claro que fechei as folhas de madeira para que eles não percebessem minha fuga, me enveredei pelo mato e disparei a correr sem parar e sem olhar para trás, a adrenalina correndo em minhas veias, quando de repente, estaquei, atônita, olhei para as minhas pernas e não conseguia entender abobalhada que estava, EU ESTAVA CORRENDO, como podia ser aquilo?? Como?? A voz familiar soou em meu ouvido “Você não pediu um milagre”. Comecei a chorar convulsivamente e rir ao mesmo tempo, chorava de pura alegria, uma alegria pura, cheia de fé na vida.
Meu instinto de sobrevivência me obrigou a continuar correndo, correndo, correndo. Eu me sentia livre, feliz, nunca mais veria a vida do mesmo jeito. Eu sabia agora que eles não me alcançariam, eu não consegui um milagre por acaso, eu viveria para contá-lo.

UMA CASA PARA ME ABRIGAR

Parei sem ar diante de uma casa, bem simples, havia claridade e sons lá dentro, havia gente lá, a voz que já havia se tornado minha íntima companheira soou novamente “Pode bater”. Bati insistentemente na porta, olhando a minha volta, com medo de ser abordada. Uma senhora humilde, com um coque na cabeça, roupa surrada abriu e olhou um pouco assustada para mim, afinal, nem sei que horas da madrugada eram e eu, que não devia estar nada apresentável, batendo em sua porta no meio do nada. Não dei chance da mulher dizer nada, já fui logo me justificando, louca para entrar e sair do perigo que eu imaginava nos rondar.
 – Por favor, eu fui sequestrada, consegui escapar e preciso de ajuda, não quero lhes fazer nenhum mal, só quero poder avisar minha família que estou aqui. – enquanto falava já ia me esgueirando para dentro da casa e já estavam à porta com a senhora, um senhor bem idoso, com cara de bonzinho e uma mulher, que apesar de judiada, devia ter mais ou menos a minha idade com uma criança de uns cinco anos no colo. 
Eles ainda me olhavam desconfiados, mas a mulher com a criança avançou e fechou a porta atrás de mim.
– Senta, cê deve de tá bem cansada né moça? A gente tem um telefone aqui, cê pode ligar pra sua família e me levou até o telefone, os idoso só continuavam a me olhar, sem nada dizer, pareciam ainda preocupados, claro.
Eu perguntei onde estávamos, qual era o lugar para eu avisar. Ela me deu o endereço certo, era um lugar chamado Jarinu, interior de SP. 
Enquanto discava, ouvia a mulher se aproximar dos idosos e começaram a conversar entre si.
– Minina, e se os bandido chegá aqui pra levá essa moça, qui é qui a gente faiz? Meu Deus, qui pirigo!!! – o senhor estava muito preocupado, naturalmente, com a segurança da família.
– Pai, a gente num pode dexá a moça sozinha no meio do mato a essa hora, como bons cristão, a gente tinha que dá abrigo, Deus sabe o que faiz.
Aquela expressão eu identifiquei e sorri ao telefone, eles conheciam o Deus que me curou e me tirou daquele inferno, Ele não iria nos deixar na mão, nem a mim e nem àquela família.
Do outro lado da linha atende uma voz aflita.
– Alô!!! Quem está falando? – era uma voz masculina que eu logo reconheci ser o meu Adônis, ele deve ter passado a morar na minha casa para receber as ligações do meu irmão e dos sequestradores.
       Alô meu querido, sou eu, a Raquel.
– Raquel, Raquel, onde você está, meu Deus, você ta viva!!!! – ele falava e chorava sem controlar a emoção que sentia depois de tanta angústia por notícias minhas.
– Escuta bem, eu tô numa casa protegida, mas não sei quanto tempo eu tenho para os bandidos me acharem vou te dar a localização certinha de onde estou ok?
       Tô voando praí.
Disse ele depois deu passar o endereço para ele e desligou o telefone, eu sabia que ele estaria ali em pouco tempo.
A família foi muito boa comigo, deu-me uma sopa rala que eles comiam, ofereceram-me o chuveiro (eu devia estar imunda), eu agradeci mas disse que era melhor não arriscarmos fazer muito barulho dentro da casa e que logo os meus amigos estariam ali e a polícia também para eles não se preocuparem. Contei o meu milagre para eles e eles, por incrível que pareça, acreditaram, pois naquelas condições achei quase impossível alguém acreditar numa coisa tão tremenda, mas eles conheciam o meu Deus.
Eu orava a Deus em Espírito enquanto estive sob a proteção daquela família para que os bandidos não nos encontrassem ali de jeito nenhum. E realmente, ouvi barulho de carros, muitos, também a sirene da polícia, abrimos a porta e lá estavam.

LIVRE DO CATIVEIRO

         Corri para abraçar o meu Adônis que não correu em direção a mim, abracei-o com tanta força que não sei como não quebrei-lhe nenhum osso. Ele ficou estático, atônito, abestalhado, olhando pra mim, com uma expressão que eu não consegui identificar. 
– Você es...tá AN...DAN...DO? – ele falou pausadamente, com cara de bobo. Só então eu entendi toda aquela estranheza na recepção, já estava habituada ao meu milagre e os policiais olhavam para mim com cara de “que foi que aconteceu?”.
         Eu o apertava com tanta força e ele, depois do susto e das lágrimas que corriam sem fazer esforço nos meus olhos e nos dele, retribuiu o meu abraço com tanta ternura que a minha vontade era não sair dali nunca mais, mesmo estando amarrotada, suja como estava, nem lembrava disso, só queria aquele aconchego tão esperado e tão recusado por tanto tempo...
         Depois desse encontro, voltei até a família para agradecer o que tinham feito por mim. Dirigindo à moça e aos idosos.
– Nem sei como expressar minha gratidão pelo que fizeram nesta noite, não vou esquece-los e voltarei aqui para falar com mais calma. – eles estavam um pouco tímidos na frente de tanta gente, mas tinham um sorriso discreto que revelava que todo o empenho foi de coração. Era gente humilde que eu sabia precisavam de ajuda e depois do que me deram eu seria grata para o resto de meus dias.
– Não precisam se preocupar, a polícia estará aqui de vigia, toda a área será vasculhada até encontrarem o cativeiro. O que vocês fizeram não tem preço. Vou voltar aqui com uma boa quantia para demonstrar o carinho de forma recíproca com que trataram minha amada. – meu Adônis falava isso atracado a mim, dando mostras de que nunca mais soltaria (eu tava feliz por isso), a palavra AMADA soou tão franca e tão lindamente romântica que eu já nem parecia lembrar dos horrores que foram aqueles tantos dias que passei em cativeiro. Ele estendeu a mão a eles, aquele homem de 1,85m e tão cheiroso contrastando comigo naquele momento, deixou aturdidos meus anfitriões ao estender a mão cordialmente para cada membro da família agradecendo o abrigo que me deram num momento tão difícil, parece até que eles se encolhiam com vergonha ao apertarem a mão estendida.
– Não se preocupa não moço, nóis só fiquemo com dó da moça e  abrimo a porta da casa pra ela. – respondia o senhor ainda encolhido ao apertar a mão de André.
– Deus sabe o quanto fizeram por nós, estaremos aqui em breve, fiquem com Deus.
Despedimo-nos agradecidos e voltamos para casa, ele dirigiu com a mão estendida no meu braço, o câmbio automático do carro facilitava essa posição, nós não queríamos nos separar nem um só minuto...
        
NO HOSPITAL

         Ele me levou direto para o hospital, sob protestos meus, eu queria ir para casa, tomar um banho, descansar, estava exausta, ele insistiu no fato de que os médicos deveriam me ver antes de tudo. Somente ao chegar lá e me levarem para o quarto nos distanciamos. Eu apaguei na maca, só acordei no dia seguinte, percebi que necessitava urgentemente de um banho, meu Adônis dormia a sono solto num sofá, ao lado da minha cama, pobre André, não deve ter tido um minuto de sossego enquanto estive na clausura. A enfermeira entrou para ver como eu estava, eu ia para o chuveiro, ela me ajudou a tomar um banho delicioso, eu estava com o soro no braço o que impossibilitava minha fácil locomoção, porém, eu estava tão feliz por estar andando que poderia ter me virado sozinha se não fosse por insistência dela em ficar e  me ajudar.
         Ao voltar para a cama o médico já me aguardava e meu André já estava em pé com o rosto mais doce e o sorriso mais lindo que eu já vi em um homem. Tive certeza de que o amor que eu sentia por ele era tão grande que já não cabia mais em mim e eu nunca iria negá-lo.
         Abracei-o com ternura e dirigi-me ao médico com um “bom dia”, num sorriso de orelha a orelha.
         – Estou chocado, você é a única sequestrada que chega rindo e feliz ao hospital, nem preciso perguntar como vai não é?
         – Já teve oportunidade de atender a outros pacientes nas mesmas condições minhas, doutor?
          – Sim, já atendi pós-sequestro e as pessoas simplesmente chegam aqui transtornadas, com depressão, síndrome de pânico e tudo mais que você possa imaginar de abalos psicológicos, seu estado muito me espanta.
         É claro que o hospital para onde fui levada era chiquérrimo e caríssimo, eles deveriam atender casos de sequestros famosos.
         – Doutor, eu era paraplégica e fui curada para fugir, não dá pra ter senão alegria dentro do meu peito, livrar-me da morte e de quebra, de uma cadeira de rodas. Só por milagre de Deus, como posso estar abalada? Claro que sofri muito, nem quero me lembrar, mas a bênção que recebi apagou toda minha dor, só sinto muito cansaço, só isso.
         O médico olhava para mim com um ponto de interrogação na testa e desconfiado, acho que ele pensou que eu bati a cabeça e estava sofrendo de transtornos de personalidade, que eu estava imaginando tudo aquilo por causa do trauma. Mas não comentou nada, só olhou para André com uma cara de que queria falar com ele lá fora.
         – O doutor lembra-se do caso Raquel Albuquerque do Prado, a ricaça que bateu o carro na década de 90 depois de uma noitada e ficou paraplégica? Saiu em todos os jornais impressos e até na TV!!
         Ele olhou para mim com o ponto de interrogação que depois transformou-se na cara de espanto mais estranha que já vi.
          – É mesmo, era você? Mas você já havia se recuperado do acidente antes do sequestro e talvez, por causa do choque e do trauma, não se lembra, isso é natural.
         – Não, doutor, eu fui curada durante o sequestro, foi um milagre, eu nunca mais poderia andar, tentei tratamento até nos Estados Unidos e todos disseram que não havia volta para o meu caso, eu ficaria na cadeira para o resto dos meus dias.
         – É verdade doutor, ela foi sequestrada paralítica, ela não está com nenhum transtorno de personalidade por causa do trauma, o que ela está contando é a mais pura verdade. – André dizia isso na maior felicidade, quase podia vê-lo dando pulos dentro do quarto, mas ele deixou a emoção só na expressão, sorriso de orelha a orelha.
         O médico fez uma cara de que não estava entendendo nada, ele poderia achar que eu estava louca com o trauma, mas o André, já era diferente, ele não soube o que dizer.
         – Bem, já fizemos alguns exames e constatamos o que já demonstra – falou não muito crédulo nisso – está gozando de perfeita saúde, pode ir para casa.
         O médico desejou-me boa sorte e saiu do quarto sem dizer mais palavra, não sei o que estava pensando, era uma incógnita, mas isso já não importava mais...
         André levou umas roupas para mim, vesti um jeans, uma camiseta e um tênis e voltamos para casa exalando felicidade pelos póros, já não nos soltávamos mais.

         Ainda no carro, depois de nos instalarmos confortavelmente, eu já pressentia o que ia acontecer estava esperando...
         – Falta a coisa mais importante que aguardo há séculos... – virou-se e vagarosamente encostou delicadamente os lábios nos meus intensificando a pressão e me tirando o fôlego totalmente, estava selado ali o nosso amor.
        
EM CASA...
        
         É claro que a imprensa seguiu nosso carro, mas eu detestava holofotes, então ele despistou-os no trânsito. No trajeto André revelou-me algo que me deixou mais estarrecida ainda com o poder de Deus em minha vida.
– A polícia entrou em contato comigo ainda nessa madrugada, demoraram pouco para encontrar o local onde você estava, já completamente vazio é claro, sabe por que não te encontraram? – nem deu tempo para eu tentar adivinhar e ele mesmo deu a resposta. – Por que você correu mais de vinte e cinco quilômetros, não te alcançariam, você deve ter corrido num pique de velocista, aquela família que te abrigou são os caseiros da chácara vizinha. Suas pernas estão curadas e prontas para qualquer desafio. – ele ria fazendo graça da minha performance de fuga.
– Depois de tudo o que passei, tinha que correr mesmo. – devolvi o sorriso, porém mostrando que ainda não estava pronta para contar  tudo o que havia passado, ele, cavalheiro que é, entendeu.
– Ah! Tem mais uma coisa, a Ana me ligou e disse que os jornalistas abarrotaram os portões da mansão, que eles estão pedindo uma entrevista com você, é claro que ela disse que você vai chegar cansada e com certeza não vai querer dar nenhuma declaração, mas eles não arredam pé de lá, vamos ter de lidar com mais essa. Mas eu já instruí a Ana do que eles devem fazer ao chegarmos e ao menos por hoje não teremos mais problemas, ok?
– Engraçado, eu sempre amei estar nas revistas, nos jornais, quanto mais escândalo, mais engraçado eu achava, eu nem ligava. Quando houve o acidente falaram barbaridades de mim, só faltaram me chamar de vadia publicamente, apesar de saber que era merecido, era a minha vida e eles não respeitaram a dor daquele momento. Não quero falar com eles, não tenho nada que os interesse agora, não faço escândalos, não saio com o marido de ninguém. Só quero paz. Não quero dar entrevistas.
– Depois a gente resolve isso, por ora, temos que entrar na mansão e fechar os portões e estaremos “a salvo”, ok? Já falei com Ana, João e Sônia, eles sabem o que fazer, não se preocupe. – disse me deixando confortada, recostei a cabeça no banco e cochilei de tão exausta.

RECEPÇÃO CALOROSA

Ao chegar em casa havia muitos jornalistas, câmeras, microfones e aquela parafernália toda da imprensa, fomos abrindo caminho com o carro e não abrimos os vidros, acionamos o portão e eles se atreveram a entrar, mas graças a Deus meus assistentes domésticos estavam a postos e pediram com muita educação que eles respeitassem minha condição e que eu não queria dar nenhuma declaração.
Após fecharmos os portões, o burburinho midiático ficou lá fora e a paz voltou a reinar. Esquecemo-nos deles, pois, havia sido preparada para mim uma linda surpresa, todos os meus assistentes estavam me aguardavam ansiosos, havia um banner de boas vindas e flores enchiam a casa toda, prepararam-me uma recepção calorosa, nos abraçamos, nos beijamos, choramos muito, eles glorificavam a Deus pelo milagre recebido, os que não professavam minha fé, de Ana, de Rosa, de João e de Sônia, se dobraram ao milagre e agradeceram a Deus também. Abracei-os a todos efusivamente, mas quando fui abraçar Ana, meu choro intensificou-se.
         – “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu,nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera.” (Isaías 64:4). Seja bem-vinda minha filha, o Senhor está contigo. – ela falava com o amor habitual da pessoa terna e doce que sempre foi, era de se esperar que ela tenha orado por mim durante todo o meu suplício.
         – Te amo Ana, você já era minha segunda mãe, agora é minha irmã na fé, sei que orou por mim, Deus houve por bem dar esse lindo presente para mim, o milagre concedido é fruto de tuas orações, eu recebi dois grandes milagres minha transformação interna e meu renovo, Deus devolveu minhas pernas e isso, nunca vou poder pagar a ele.
         – Minha querida, não conseguimos pagar nada do que Ele deliberadamente faz por nós, mas mesmo assim Ele faz com o maior amor, por isso esse é o maior de todos os dons descritos na Bíblia.
         Aquela tarde ficamos conversando e rindo com entusiasmo, porém eles sabiam que eu precisava descansar e voltaram a seus afazeres me desejando boa sorte e com muitos abraços afetuosos. Fiquei então sozinha na sala com o meu Adônis.
Olhamo-nos, até então eu não havia conversado exclusivamente sobre as transformações que ele havia dito tinham acontecido na vida dele também. Ele beijou-me com languidez e uma doçura tão intensa que me deixou novamente sem ar, imaginei se toda vez que isso acontecesse eu perderia o sentido como se tivesse sido arrebata, ao separar os lábios dos meus começou a falar, uma conversa que realmente precisávamos ter.
– Quando viajei a Israel, encontrei com um grupo de pessoas, alguns antigos amigos, que começaram a falar sobre Jesus para mim, no começo achei tudo aquilo muito monótono e maçante, mas depois tudo começou a ficar tão claro para mim, e eu estava num território tão propício a acreditar nos milagres descritos na Bíblia, que resolvi participar de uma reunião. Saí de lá mudado, quando voltei para o Brasil já não era a mesma pessoa, então eu soube que não havia coincidências, que não foi por acaso que eu os encontrei, nem por acaso que eu tinha ouvido tantas coisas, era para que eu cresse e fosse transformado. Demorei muito tempo fora do Brasil, a minha viagem a Israel foi um convite de um dos meus clientes do Oriente Médio, ele iria para lá, ele é muçulmano e quis levar-me com ele, veja só como é o trabalhar de Deus. Decidi aceitar, tinha trabalhado tanto naquela campanha, eles são tão tradicionais e radicais, deu-me tanto trabalho agradá-los, até que finalmente gostaram do trabalho e ele me fez esse convite. Como já disse, em Israel encontrei meus amigos brasileiros e o restante eu já contei. Liguei para você quando retornei ao Brasil, passei bastante tempo fora e veio bem a calhar o trabalho, eu precisava viajar e sair daqui um pouco, não sabia o que fazer com relação a você, sempre te amei tanto e você sempre me recusou. Naquela noite na fazenda quando senti a tua pulsação nos meus braços tive certeza que era medo e que você retribuía meu amor, mas aí você disse tudo aquilo e eu fiquei arrasado, confuso, achei que era melhor ficar longe de você por um tempo, só não sabia que ia ficar tanto tempo fora, mas, enfim, foi muito bom para nós.  Porém, quando soube do sequestro, corri para cá, montei acampamento aqui, toda vez que ligavam eu atendia prontamente o que me pediam e orava, queria você de volta a qualquer preço, aprendi a orar na marra.Eu nem sabia o presente que receberíamos, depois de toda dor e angústia desses quase trinta dias de martírio e dor. Você não faz ideia como sofri sem saber ao certo se estava viva ou não. Infelizmente, eu só tinha a palavra do crápula do seu irmão e mais nada, foi muito duro te esperar.
– Para mim também foi muito difícil, mas não vamos falar do meu irmão com rancor, já senti raiva o suficiente pelo que ele me fez, só peço a Deus que tenha misericórdia dele e dê a ele uma chance de ouvir a voz de Deus como nós a ouvimos. Quanto a você nem preciso dizer que o meu encontro com o Mestre calou as minhas perguntas existenciais e me deu segurança para saber que amor é amor, não importando se o outro está numa cadeira de rodas quem ama não impõe condições “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...” (Coríntios 13: 7). Assim, eu deveria aceitar o seu amor e ser grata por Deus ter colocado no meu caminho um homem como você.
Beijamo-nos novamente com doçura, no começo ele foi leve, depois aumentou a pressão nos meus lábios e meu ar sumiu dos pulmões, eu parecia flutuar a cada volta que ele dava na minha boca, tive certeza de que seria arrebatada toda vez que ele me beijasse. É natural que suas mãos procurassem o meu corpo durante aquele beijo tão ardente, mas afastei-o e ele não ofereceu resistência, sabia com certeza o que ia dizer.
– Esperamos até agora, quero fazer as coisas da maneira correta, não quero atropelar nada, Deus tem nos abençoado tanto, eu desejo você tanto quanto acredito que você me deseje. – ele sorriu em cumplicidade, revelando aquelas covinhas arrasadoras que também me tiravam o fôlego – mas é melhor não sermos precipitados, entende o que eu falo. – buscava dele a resposta que veio a seguir.
– Recebemos tantas bênçãos, Ele foi fiel conosco e devemos ser fieis à palavra. – ele levantou-se do sofá e tirou do bolso um pequeno embrulho, estendeu a mão para mim, eu peguei o embrulho, havia uma linda caixinha dourada dentro, abri e a pedra era tão brilhante que ofuscou meus olhos, eu fiquei sem palavras olhando, ele ajoelhou-se na minha frente como um lorde e solenemente disse: “Raquel Albuquerque do Prado, quer se casar comigo?”. Debrucei-me sobre ele com lágrimas nos olhos (passei a ser uma chorona inveterada) e respondi com um sonoro “SIM, eu caso” que a casa inteira ouviu. Eu beijei-o (e perdi o fôlego, é claro), e saí correndo e gritando pela casa mostrando o meu anel a todos. Naquela noite eu fui cedo para a cama, parecia que flutuava numa nuvem de sonho e felicidade...
André passou a dormir na minha casa porque achava melhor ficar por perto depois de tudo o que aconteceu, mas é claro que dormíamos em quartos separados, você pode achar piegas, porém, recebi muitos presentes de Deus e queria agradá-lo fazendo tudo conforme sua vontade, afinal de contas, sabia que seria ainda mais abençoada assim.

A IMPRENSA

No dia seguinte ao meu retorno ao lar, durante o meu café matinal, notei que não havia nenhum jornal por perto, pedi a Rosa que os trouxesse para mim. Ela olhou para André com olhar de cumplicidade e pedindo que ele desse as devidas explicações.
– Minha querida, é melhor você não se desgastar hoje, você já sofreu bastante e esses jornalistas inventam bobagens, fazem deduções e isso vai magoá-la. Não se preocupe com isso por ora, ok? – ele me dizia quase implorando para que eu não exigisse ler as notícias do dia sobre mim.
– Por favor, não quero se poupada, preciso saber o que estão falando, eu tenho defesa, eles podem falar o que quiser isso não me incomoda, mas tenho o direito de mostrar a minha versão dos fatos, certo? Dê-me os jornais Rosa, por favor.
Rosa olhou para André buscando permissão e ele fez-lhe um sinal positivo. Assim que ela os trouxe folheei cada um deles e as manchetes já não eram favoráveis: “Socialite teria fingido paraplegia para atrair os holofotes?”, “Termina o cativeiro de Raquel, socialite acidentada nos anos 90” e como subtítulo aparecia: “Caso estranho de socialite que foge de um sequestro, correndo!” ou “Socialite paraplégica foge de sequestro correndo”, e outras tantas aberrações que escreveram sem saberem nada sobre o que verdadeiramente aconteceu. Numa das notícias estava escrito: “A socialite Raquel Albuquerque do Prado, famosa por seus escândalos, que sofreu um terrível acidente nos anos 90 e desde lá, dizia-se paraplégica, ficou confinada em sua mansão por mais de dez anos, até que estranhamente foi sequestrada, dentro de sua casa, no dia dez de outubro. Segundo a polícia o irmão estava envolvido no crime. Com a notícia, as pessoas ficaram comovidas e abaladas, pelas condições em que Raquel vivia numa cadeira de rodas e ainda mais por seu próprio irmão estar envolvido. Porém, na madrugada de ontem, foi encontrada pela polícia e seu noivo, André Paiva Sobrado, dono da agência de publicidade Enjoy us, numa chácara em Jarinu, interior de São Paulo há pouco mais de 80 km da capital. Para surpresa de todos ela conseguiu fugir correndo do local. É claro que o caso ainda é misteriosos, ela parece alegar ter acontecido um milagre, mas muitos fatos podem envolver o fenômeno. Já há especulações de um retorno aos holofotes de forma triunfal, digno de Raquel de Albuquerque do Prado, famosa por suas festas cheias de sexo drogas e rock’n roll...”
Parei a leitura com vontade de vomitar, não era do mamão que estava comendo, mas por estar enojada com tantas invencionices e mentiras, que eu sei, a partir de então seriam disseminadas como fogo num canavial. Eu não poderia detê-los, fechei os jornais.
 – Vocês tinham razão, Rosa, por favor, leve essas porcarias para o lixo. Eu não vou perder meu tempo com isso. – falava sentindo meu sangue esquentar até minhas bochechas, estava com raiva, mas sabia que não adiantava lutar contra essas mentiras. Pensei “deixe que falem o que quiserem, o que importa é que não são verdades e pronto.”
– Melhor assim. – respondeu meu Adônis, discreto como sempre, sem alongar meu sofrimento, encerrando ali o assunto.
Por mais alguns dias, a imprensa insistiu em permanecer na minha porta, mas quando as calúnias já tinham sido ditas aos montes, e o assunto já perdia a graça para o público e perceberam que eu não me pronunciaria sobre absolutamente nada, eles resolveram me deixar em paz. Claro que a notícia do casamento os incitou um pouco, mas já não ficavam em peso na minha porta, já não havia escândalo e notícias deturpadas o suficiente para eles.

OS PREPARATIVOS
                                            
Nos dias que se seguiram eu estava tão feliz e tão absorta com os preparativos do casamento que aconteceria dentro de dois meses, que me esqueci dos bandidos, do cativeiro e do meu irmão, nem pensava mais naqueles amargores, mas não deixei de orar pela salvação do meu irmão, sabia que aquela vida o levaria a uma morte terrível e não queria que ele se perdesse para a eternidade, clamava pela vida dele, mas não ficava mais pensando no que ele deveria estar fazendo agora, relaxei.
Os pais de André (ainda nem falei sobre a família dele) e seu único irmão que já é casado e tem uma linda menina de doze anos moram em Manhattan por causa dos negócios, o pai dele trabalha com consultoria empresarial e o irmão trabalha com fundo de investimentos num banco famosíssimo, a família é bem conceituada nos Estados Unidos, conheci seus pais uma vez que vieram visitar o André há uns dois anos, mais ou menos, era o André que sempre ia visitá-los e, me convidava, mas eu sempre recusava, primeiro porque não queria passar tanto tempo sozinha com ele (agora reconheço) e segundo porque achava que iria incomodá-lo demais.  Enfim, os pais de André eram pessoas muito distintas e tão simpáticas quanto ele, a mãe (a senhora elegância: Gucci, Dior, Prada, a mulher desfilava sobriedade e classe e tinha um rosto perfeito, André é a imagem e semelhança dela, incluindo suas maravilhosas covinhas) é mais calada, reservada, o pai (é dele que o André herdou a simpatia, a altura e os olhos verdes profundos e o cabelo de um castanho aveludado) é bastante extrovertido e sabe deixar você à vontade. Quando os conheci eu era a amiga de André, agora eu seria apresentada como sua futura esposa.
O irmão (que era tão alto e tão lindo quanto André, porém, tinha o queixo um pouco mais afinado e um nariz mais longo, parecia mais com o pai), a linda e loira cunhada de 1,75m e a não menos bela Beatrice (com seus cachinhos dourados), filha do casal eu conhecia somente por fotos no facebook.
Eu estava ansiosa por recebê-los, eles viriam somente às vésperas do casamento em razão dos negócios.
Claro que nosso casamento seria um acontecimento ímpar, eu queria uma recepção íntima, mas isso não seria viável, com a notoriedade que o trabalho de André tinha seria impossível fazer uma festa íntima, eu tinha que receber pessoas importantes. Quanto a mim, já sabem, minha família são meus assistentes domésticos e eles seriam apresentados como minha família, afinal é o que eles são, foram eles que me ampararam desde o meu acidente e isso não mudaria nunca. Eu sempre circulei pela alta sociedade paulista e conhecia pessoas muito importantes, mas eu formei o meu casulo e me distanciei de todos, agora os meus chegados eram as pessoas que frequentavam a comunidade evangélica, não pense que lá só havia pessoas pobres, não, o legal, o realmente bacana é que havia pessoas de todos os níveis sociais.
A minha festa não seria feita para impressionar ninguém, porém, sempre foi um sonho, meu primeiro casamento foi algo tão mecânico, sem sentimento, agora era diferente, eu queria fazer o casamento dos meus sonhos, porque agora eu acredito em união conjugal, em matrimônio, em felicidade a dois, em amor verdadeiro, antes eu zombava disso, achava que era apenas uma convenção social. Não dá para comparar com eu penso agora com como eu pensava antes, hoje sou uma nova pessoa, renascida para a vida e com outros valores.
 Com a influência de André conseguimos reservar em tão pouco tempo um dos lugares mais requintados de São Paulo para a realização da cerimônia e da festa. Posso dizer que estava sendo realmente maravilhoso, ir à prova de doces, do bolo, do que seria servido como coquetel e jantar, André liberou todos os subsídios para fazermos tudo sem medir esforços financeiros, claro que eu também não medi gastos para fazer as minhas vontades, contratei tudo do melhor e de muito bom gosto, estava sendo um período maravilhoso. Eu sempre levava Ana, Rosa e Sônia comigo para onde quer que eu fosse e sempre as apresentei como minhas irmãs que eram, na fé e no coração. Elas ficavam deslumbradas com tudo aquilo e nos divertíamos muitíssimo.
Fomos fazer a lista de casamento em duas das lojas mais badaladas do ramo, havia produtos que eu nem conhecia ainda. Foi uma experiência incrível eu estava me deliciando com tudo aquilo e, claro, fazendo tudo com muito amor.  
Cuidei de cada detalhe, pois para mim tudo era imprescindível, desde a cor das flores, os enfeites, as lembranças, os convites, as fotos, o diário da noiva e do noivo que nós dois elaboramos com tanto carinho, a orquestra, a banda, tudo foi escolhido a dedo por mim e por meu Adônis (como ele tinha ficado todo o tempo do meu cativeiro sem atuar diretamente na agência, tinha deixado praticamente seus negócios nas mãos de outros, ele teve que voltar a pleno vapor ao trabalho e restava pouco tempo para me ajudar nos preparativos, mas ele estava tão feliz que procurava reservar tempo à noite para ir a alguns lugares e fez o possível para ajudar em cada decisão comigo. Deus realmente tinha me concedido outro presente, um homem espetacular em tudo.
Você deve até pensar “este homem não deve ser tão perfeito como ela diz”, realmente, ele também tinha defeitos, torcia o nariz quando não gostava de algo, deixava as roupas exatamente onde as tirava, mas isso não importa, dialogávamos em tudo e chegávamos num consenso com nossas diferenças, quem ama abre mão, cede, se doa, cada um faz isso um pouco e no final sempre chegamos ao meio-termo.

SURPRESA NEFASTA

Já havia me distanciado tanto da dor, tinha guardado numa caixinha no fundo do closet, essa é a tendência do ser humano, livrar-se rapidamente do que o incomoda, que eu realmente relaxei e cometi o maior dos erros, esqueci-me do meu irmão e de sua gangue.
Saímos uma noite para entregar convites, chegamos tarde à mansão, era por volta da 00:30h, não sei ao certo, estava muito cansada e André, exausto, quando chegamos perto dos portões, André acionou o controle e ao entrarmos com o carro duas pessoas com armas em punho acompanharam-nos tão rapidamente que eu só os vi quando já estavam batendo com suas automáticas no vidro do carro. Fiquei em pânico, desci do carro e reconheci aqueles rostos sombrios, o alto com gorro e o loiro, meu Deus, começava a passar um filme na minha cabeça dos quase trinta horrendos dias que estive aprisionada, era o pesadelo revivido, só que agora não era só minha vida que estava em risco, mas das pessoas que eu mais amava no mundo.
Desci do carro, o alto apontava a arma na cabeça de André, pois ele estava com o vidro abaixado e o loiro apontava a minha cabeça. Num gesto de profissional no negócio ele virou e agarrou-me por trás, arrastando-me para dentro, enquanto o outro dava ordens para o Adônis abrir o portão para a entrada dos outros comparsas. Dirigia-me quieta para a casa com o coração quase saltando pela boca e a cabeça trabalhando a mil, eu pensava “eu não nadei para morrer na praia” uma expressão que uma amiga irmã na fé sempre usava. Comecei a afastar os fantasmas da minha cabeça e orar em espírito para que Deus nos desse um livramento.
Quando chegamos à sala de estar fui jogada no sofá com força com a arma ainda apontada para mim, André entrou em seguida com as mãos para cima e escoltado pelos outros cinco do bando, o mulato, o outro moreno claro baixo, que desta vez estava sem gorro, o loiro líder, a mulher e para minha infelicidade total, meu irmão Jonas.
Observei que somente o loiro e o alto portavam armas, os outros, ao menos visivelmente, não carregavam nada.
André olhava para mim com um olhar enigmático e fazia um sinal discreto com o indicador apontando fora da casa. Eu não sei o que significava, mas eu sei que para nossa sorte (ou não), o bando se dissipou pelos cômodos da mansão e só restou na nossa frente o loiro, o alto e meu irmão, talvez estivessem procurando alguma coisa.
– Tava com saudade sua vadia. – o loiro falava me fuzilando com os olhos, todo o ódio contido pela minha fuga, agora seria descarregado. – Sua vadia finda, fingiu ser doente, aleijada e olha aí, andando pra todo lado com essas pernas sadias, você é uma vagabunda mesmo... – e começou a gritar e ergueu o cabo da arma mirando minha cabeça me encolhi instintivamente.
– Para aí, cara. – gritou meu irmão fazendo a arma ficar estática no ar. – Viemos com um objetivo só e não vou deixar você fazer o que quiser, lembra do combinado otário. – meu irmão falava com persuasão, mas fiquei preocupada com as ofensas o outro podia se zangar e rolar com ele ali na minha frente, meu irmão não estava armado aparentemente, eu temi por sua vida.
Continuava orando em espírito e pedia para Deus dar outra chance para meu irmão e ajudar-nos a sair de mais essa.
Foi tão rápido que quase não dá para descrever o que se seguiu, ouvi sons fortes lá fora de muitos carros se aproximando e de repente já estavam dentro dos portões da mansão, um megafone em punho um policial gritava “Vocês estão cercados, se entreguem, saiam com as mãos na cabeça”. O que veio a seguir aconteceu num átimo, no susto dos bandidos, André fez sinal para eu me abaixar, eu me atirei no chão e rolei para baixo do sofá, ele, num movimento rápido aproveitando-se da pequena distração causou a chegada da polícia puxou o braço do rapaz alto para cima fazendo a arma dispara para o teto, meu irmão correu para o loiro que disparou um tiro, tudo isso eu vi no átimo em que me joguei no chão e a confusão estava armada, a polícia entrou com estrondo, ouvi debaixo do sofá o ricochetear de tiros para todos os lados a polícia gritando “parados, vocês não têm saída” e eu pedi clemência a Deus. Quando os tiros pararam, eu continuei amotinada no chão, encolhida, tampando os ouvidos, ouvi alguém dizer, num tempo que pareceu durar uma eternidade “ta tudo bem, minha querida, pode sair daí, me dá a mão, abri os olhos com muito esforço e olhei a mão que estava estendida e uma cabeça abaixada pedia para que eu saísse dali, estendi a mão para o meu Adônis, a outra mão forçava um ferimento no outro braço, não sei quanto tempo levei para obedecer e sair de lá, só sei que saí aos prantos olhando assustando para o outro braço dele que sangrava muito.
 – Você está ferido? Meu Deus, ta sangrando muito. – eu nem sei qual era o volume da minha voz, eu não conseguia nem enxergar a quantidade de policiais que estavam aglomerados na minha sala.
 – Shshsh! Calma, isso não é nada, eu vou ficar bom. Você precisa ver seu irmão. – só quando ele disse isso eu me virei procurando-o e ouvi os gemidos de dor e alguém que estava rodeado jazia ao chão com tiro no peito.
Levantei atordoada e me atirei no meio do grupo que rodeava o corpo. Aquela cena marcou-me para o resto da minha vida, meu irmão estava no chão gemendo, me encolhi perto dele apoiando sua cabeça no meu colo, eu gritava.
– Meu Deus, meu irmão, o que fizeram com você. – um lapso de lucidez tomou meus pensamentos e eu ouvi a voz novamente “é a chance dele” – parei de gritar e aproximei minha boca no ouvido dele. Proferi essas palavras com uma dor lancinante no peito, talvez meu peito doesse mais do que o dele estourado por aquela arma. – Meu irmão, eu te amo e Jesus também, você aceita o sacrifício Dele na cruz do calvário por sua vida, Ele que te receber no céu.
Quase sem forças e gemendo sem parar ele só teve tempo de dizer “ACEITO”, depois de um tempo que sei que foram segundos, mas que achei ser a eternidade de gemidos e soluços, ele ficou imóvel nos meus braços.
Nem sei direito o que houve depois, só vi a mulher e o mulato descerem a rampa de acesso ao piso superior algemados e de relance vi dois corpos no chão, obviamente foram mortos na troca de tiros, jazia o homem alto, o loiro que eu sempre considerei o líder da gangue; o baixo e moreno vinha escoltado e algemado da sala de jantar.
Eu já não tinha mais nem forças para chorar ou fazer qualquer coisa. Meu Adônis foi levado para o hospital, e eu o acompanhei, a polícia se encarregou da limpeza da casa e Ana, Sônia e João se encarregaram de todos os trâmites de um enterro digno para o meu irmão.

MAIS UMA EXPERIÊNCIA

O tiro que acertou meu Adônis pegou no braço e foi de raspão, nada grave, não atingiu nervo nem nada que pudesse deixar sequelas. André insistiu em sair do hospital, mesmo não estando totalmente recuperado, para enterrarmos meu irmão.
Chorei muito, pelos últimos dias afastei por completo a dor que sempre esteve no meu coração por tudo que tinha vivido, mas as feridas se abriram e eu estava sofrendo, guardar as lágrimas em algum lugar escondido não foi a melhor saída, cheguei a conclusão de que o sofrimento deve ser enfrentado, vivido, só assim, verdadeiramente nos livramos dele.
O que mais me doeu, depois que eu fiquei sabendo ao certo o que aconteceu na minha sala, é entender que a bala que acertou meu irmão estava destinada a mim, ele se sacrificou por mim, foi o seu último ato e foi um ato de amor. Na hora de sua morte ele aceitou o sacrifício de cruz e como Jesus fez com o ladrão que foi crucificado ao seu lado e que se arrependeu, sei que fez com o meu irmão, e ao dizer para o ladrão, “... Em verdade, em verdade, te digo que hoje estarás comigo no paraíso”(João 23: 43), sei que essas palavras também valeram para o meu irmão. Havia conforto no meu coração, apesar dos flagelos.
Aprendi com cada lágrima que derramei, tive perdas, mas também tive vitórias, cresci como pessoa, sou agradecida a Deus por tudo. Você pode pensar “como ela pode agradecê-lo se só tem sofrido dissabores?”, lembre-se de que somente ao conhecermos a dor valorizamos cada minuto de felicidade que temos. E os meus milagres?? Como posso ser ingrata se Deus deu outra chance ao meu irmão e salvou-o, me curou, me libertou, me limpou, trouxe paz ao meu coração, me livrou da morte várias vezes, tenho todos os motivos para ser-lhe grata.

ENCONTRO VALIOSO

Não adiamos o casamento, acreditei que não havia mais nada a fazer e eu queria ser feliz de novo, recomeçar esse era o meu lema. Continuei com os preparativos, organizamos até nossa lua-de-mel que seria um tour pela Europa. Mas eu ainda precisava levar um convite de casamento muito especial. Necessitava encontrar a ex-esposa de meu irmão e meus sobrinhos. Contratei um detetive particular e informei que precisava das informações urgentemente, pois ia me casar e tinha que entregar o convite de casamento a eles.
Numa tarde ensolarada, o meu celular tocou e eu estava escolhendo as lembranças do casamento, experimentando diferentes bem-casados e ao atender tive uma das surpresas mais agradáveis, o detetive encontrou minha cunhada. Ela estava casada e morava agora nos Estados Unidos, na Virgínia. Fiquei tão feliz com a notícia que larguei o que estava fazendo, deixei Ana, que estava me acompanhando decidir qual bem-casado seria entregue aos convidados e disparei para o trabalho de André. Ao chegar lá tive de esperar meia hora até terminar uma reunião de negócios, estava tão ansiosa para contar a novidade, organizar a viagem rapidamente, comprar as passagens que o tempo pareceu um século, quase fiz um furo na recepção da agência, andando de lá pra cá, aguardando para dar a notícia a ele.
Quando terminou, entrei em sua sala, cumprimentei as pessoas que estavam por ali se despedindo, ao ficarmos sós contei as novidades, ele já ligou para o aeroporto reservando as passagens para aquela noite. Voei para casa para arrumar nossas malas, estava desesperada para encontrar a parte da minha família que eu ainda não conhecia.
Já no avião ficava imaginando como seriam meu  sobrinhos, meu irmão havia me dito que tinha um casal de filhos. Com certeza a moça foi embora para os Estados Unidos para reconstruir a vida e com medo de sofrer algum tipo de pressão do criminoso que era meu irmão. Eu estava perdida em meus devaneios e sonhando acordada com meu encontro. Não passava nem um dia sequer, desde que revi meu irmão, sem orar por sua família.
Lembrei de tantas coisas de nossa infância, imaginei como seria o nosso encontro, mas não tinha ideia do que Deus já havia preparado para nós.
Não tive dificuldades com o idioma, afinal meu inglês era perfeito e André falava inglês como um nativo, o que seria de se esperar de um publicitário que viaja o mundo.
André já havia solicitado um carro alugado e assim que chegamos ele já estava a nossa espera no aeroporto. Descemos em Los Angeles, foi o voo que conseguimos, daí fomos para a Virgínia, em Washington, André conhecia muita coisa lá, já tinha viajado para vários lugares nos Estados Unidos e o GPS também facilitou o percurso e por essa razão, não erramos o caminho.
Ao chegarmos no condomínio onde eles moravam, fiquei feliz, pois é um lugar muito bonito, de classe média-alta para os padrões de lá.  Anunciei-me na portaria como irmã do Jonas. Temi que ela ficasse com medo e não me recebesse. Mas, ao contrário disso, permitiu a nossa entrada no ato. Na porta da casa senti um gelo no estômago, abriu a porta para nós uma moça bonita de cabelos castanhos bem curtos, olhos castanhos e um sorriso bastante hospitaleiro, ela dirigiu-se a mim com carinho.
– Olá Raquel, estou feliz por recebê-la, como vai? Veio conhecer os sobrinhos? – ela falava de maneira desenvolta e com real interesse.
– Você não sabe o quão ansiosa eu estava, achei que não fosse me receber, tinha todos os motivos para bater a porta na minha cara. – falei me desculpando por chegar de forma inesperada.
– Fique tranquila, o Jonas sempre falou muito bem de você, apesar dos problemas que enfrentaram e de como ele era – fez um gesto com a boca, demonstrando as falhas de caráter do meu irmão – ele tinha um carinho especial por você, não gostava que ninguém falasse mal da irmã. Eu achava isso legal da parte dele. – ela encarou-me com um ar de súbita preocupação – Eu acredito que deva saber que eu amei muito seu irmão, ele é pai dos meus filhos, e a pesar de tudo eu o respeito como tal, pena que não posso dar meu endereço a ele, e a justiça deu-me a guarda total dos nossos filhos por causa de suas ações. – abaixou a cabeça como se se desculpasse – Ele não pode saber de jeito nenhum que estou aqui.
Ela atingiu o âmago da questão, meio sem jeito encarei-a e as lágrimas começaram a brotar naturalmente.
       Vim dar-lhe duas notícias, uma excelente e outra horrível, qual você quer primeiro?
       A notícia ruim – ela olhou-me parecendo prever o que eu diria.
         –  Eu sinto ser a porta-voz de notícia tão terrível, mas... meu irmão... – tomei fôlego, e continuei com a voz embargada – Jonas foi morto por bandidos dentro da minha casa, nos meus braços.
         Ela olhou-me com um ar indefinido, até romper em lágrimas, choramos juntas, abraçadas, ali, na porta da casa. Passado o momento de desabafo, ela convidou-nos para entrar, era uma casa muito bonita, ampla, com móveis de muito bom gosto.
         André só nos acompanhava sem dizer palavra, sabia que era um momento nosso. Ela ofereceu-nos um quarto de hóspedes na casa e disse que poderíamos ficar quanto quiséssemos. Agradecemos com carinho, mas resolvemos não aceitar, afinal, não conhecíamos o atual marido dela e não tínhamos de como meus sobrinhos nos receberiam.
         Ela é uma moça encantadora, cheia de vida e extremamente feliz, mostrou-nos a casa confortável, realmente linda. Avisou-nos que os filhos estavam na escola e chegariam logo. Eu estava ansiosa para vê-los. O mais velho Pedro, tinha dezesseis anos, a do meio Paloma, tinha doze anos e o mais novo, filho do novo casamento Brian, tem cinco anos. Ela disse que o marido trabalharia até tarde aquela noite, ele tinha uma empresa de limpeza de casas, o trabalho que as diaristas fazem no Brasil, lá, são empresas contratadas, que em poucas horas, levando alguns funcionários e toda espécie de equipamento para tal, todo o trabalho de limpeza da casa.
                  Ela tinha que buscar os filhos em escolas diferentes, então nos oferecemos para ir com ela e apanha-los, fomos conversando, e ela foi contando em detalhes, como foi a vida difícil com Jonas, e quando decidiu deixar tudo para trás e tentar a vida com dois filhos numa terra tão distante, veio apoiada pela família, dois irmãos já estavam morando ali nos Estados Unidos e eles a receberam até ela ajeitar casa e trabalho. Ela começou a trabalhar na empresa de limpeza doméstica e assim conheceu o marido que parece ser um excelente homem e um bom pai, inclusive para meus sobrinhos.
                  Ao descermos na primeira escola, onde Pedro e Paloma estudam, fiquei perplexa, ao avista-los vi que o garoto era a cara do meu irmão, cabelos loiros, olhos de um azul insondável, pele clara, era meu irmão jovem, como eu me lembrava dele. A menina já era mais parecida com a mãe, linda cabelos castanhos, pele clara, olhos amendoados. Eu os abracei tão efusivamente, que não me lembro da reação de ambos. Quando souberam que eu era a tia, ficaram felizes, conversamos em português. Eu entendi naquele encontro, que minha cunhada nunca instigou-os a ter raiva do pai, e as lembranças deles era de que o pai era amoroso e só precisava de ajuda para curar uma doença, as drogas. Passamos na escola do menor, o Brian, ele também é uma graça de garoto, bastante comunicativo e bem inteligente para sua idade, falava um português ruim, talvez tivesse aprendido com os irmãos e como era pequeno tinha dificuldades no idioma, mas isso o tornava engraçado no meio de nossas conversas.
                  Voltamos para a casa deles e continuamos a colocar a conversa em dia. Não havíamos dito ainda que o pai havia morrido, até que minha cunhada, num determinado momento da nossa conversa, disse a eles que fomos dar duas notícias uma boa e uma ruim e contou a eles.
                  Eles choraram muito e todos nós voltamos às lágrimas. Senti que realmente eles guardaram muito amor pelo pai. Eu disse a eles que Jonas teria muito orgulho de ambos como eu tinha a partir daquele momento em saber que são jovens tão doces e tão amáveis.
                  Jantamos com eles, e Pedro engrenou uma conversa sobre publicidade com André, disse que se interessava muito pela área, e André ofereceu-se para ajudá-lo, contou ter uma filial da agência nos Estados Unidos, que ele já viajou muito pra lá e que, quando quisesse trabalhar na área, sua agência estaria com as portas abertas para o sobrinho (já o considerava como tal).
                  O marido, James Ashley, um homem alto e loiro, parecidíssimo com o pequeno Brian, chegou à casa e, para minha surpresa, foi extremamente amável conosco, ela o havia avisado mais cedo, durante nossa estada na casa que estávamos lá, por isso não foi surpresa para ele, e avisou que passaríamos o dia com eles. Ele insistiu para que dormíssemos lá, mas agradecemos e entregamos o convite de casamento dizendo que essa era nossa notícia boa e que exatamente por isso deveríamos voltar às pressas ao Brasil, faltavam menos de quinze dias e nem tudo estava pronto ainda. Ela abriu o convite agradecendo e nos perguntou.
       Vocês faraó o casamento em um buffet? Quem vai celebrar?
       Um pastor – eu respondi – somos evangélicos.
       Meu Deus!! Que maravilhoso – nós também somos.
         Nessa reposta eu, mais uma vez, me surpreendi com o trabalhar de Deus, eu disse para ela que quando estivesse no Brasil para o nosso casamento eu contaria meu testemunho. Na verdade eu não falei sobre isso com eles durante o dia, e nem tenho falado sobre isso ultimamente, mas senti que não demoraria e eu já estaria pronta até mesmo para contar sobre os dias no cativeiro. Despedimo-nos com a promessa de que eles viriam, com certeza, ao nosso casamento. Saí de lá com uma sensação maravilhosa de “agora minha família está completa”.
           Ficamos num hotel aquela noite, em quartos separados (meu Adônis é muito tentador para mim e eu não sou de ferro), no caminho para o aeroporto, André já havia reservado as passagens para o dia seguinte. Voltamos ao Brasil trazendo os indícios de um recomeçar surpreendente.


O CASAMENTO

                  Na véspera do casamento recebi na mansão a família de André, que foi bastante simpática comigo e também o restante da minha família, minha cunhada, seu marido, que agora eu já considerava como um cunhado também e meus sobrinhos queridos, o Brian também passei a considerar como sobrinho e ele aceitou numa boa, eu já era a titia Raquel para ele. Estava tão feliz que não cabia em mim, parecia inflar a cada sorriso, cada gesto de carinho, meus assistentes foram apresentados e tratados como da minha família como sempre considerei, eram meus irmãos, Ana, era como minha segunda mãe, e assim todos os trataram. Faziam as refeições à mesa conosco, sem nenhum embaraço. A família do André, apesar de pertencer à alta sociedade, é muito simpática e compreensiva e todos, como uma família passamos um dia agradabilíssimo juntos.Até os meus mais novos familiares, cunhada, cunhado e sobrinhos, se entrosaram como já nos conhecêssemos há muito tempo, tudo se encaixou. É bênção de Deus, eu pensava olhando-os assim, como família. Eu que vivi tão reclusa durante tantos anos, agora tinha muitos parentes, uma família linda.
                 
                  Na manhã seguinte, o grande dia, eu acordei tão nervosa, ansiosa e feliz. Tinha que tomar um café da manhã leve, pois passaria o dia num spa com massagem, óleos aromáticos, banheiro de hidro e tudo para me deixar relaxada e calma. O maquiador e o cabeleireiro foram até o spa para cuidarem de mim. Minha família iria ficar toda em casa curtindo a piscina, a sala de cinema (que já não era usada há tanto tempo), enfim, todo conforto que podíamos oferecer-lhes. Se quisessem dar uma volta, o parque Ibirapuera fica a algumas quadras, não daria para se sentirem entediados.
                  Foi um dia de princesa para mim, maravilhoso, senti-me re-energizada, pronta para o meu Adônis, eu fiquei imaginando o momento que eu me dirigiria até meu deus grego vestindo um smoking preto, meu Deus!!!! Não posso perder o fôlego nessa hora, isso me deixaria sem ar no cérebro, eu desmaiaria e seria um vexame total. Decidi que não olharia para ele, veria os convidados, acenaria com a cabeça, mas, sob hipótese alguma, olharia para o altar onde meu Adônis me receberia com aquele sorriso de covinhas. Meu Deus!!! Eu dizia para mim mesma: “Não posso pensar nisso! Não posso pensar nisso! Não posso pensar nisssssso! E ponto final!” Assim passei um dia tranquilo e maravilhoso.
                  Eu já estava vestida para a cerimônia e pronta para entrar na limusine contratada para levar-me até o buffet onde seriam a cerimônia e a festa. Olhei-me pela última vez no espelho, o vestido era lindíssimo, ultrarromântico, tinha um decote em V, todo trabalhado em renda francesa com bordados de pérolas e cristais, as costas ficavam bastante expostas num decote em V mais ousado, até quase a cintura; na cabeça uma tiara de cristais, o cabelo preso num coque de onde descia um véu bem fino até a cintura, a saia abria em evasê todo bordado. Tremia como nunca segurando um buquê de flores do campo bem delicado. Estava pronta finalmente. Dirige-me a limusine locada para levar ao buffet. Estava acompanhada de minha fiel escudeira, Ana, todo o trajeto foi percorrido em silêncio, ela respeitava meu momento. Quando chegamos, olhei nos olhos dela e segurei sua mão.
                  – Apesar de querer que minha mãe estivesse aqui, querer que meu pai me levasse ao altar, querer que meus padrinhos fossem Jonas e sua esposa, eu sei que tudo foi preparado de forma especial por Deus e mesmo estando tudo diferente eu sei que agora eu encontrei a verdadeira felicidade. – uma lágrima rolou grossa sobre a maquiagem, sequei, mas o nó persistiu na garganta.
                  – Você queria a felicidade, e ela cercou-a de uma forma maravilhosa não importando as lutas, os desgastes, a solidão, ela finalmente alcançou você, seja grata por isso sempre. – sabiamente respondeu Ana.
                  – Eu sei minha querida, apesar de tudo que eu procurei com minhas próprias mãos, Deus me deu tantas chances, porque eu tive várias e aqui estou, posso ser feliz. Obrigada por estar aqui nesse dia tão especial. O que eu ia dizer é justamente isso, eu tenho tudo o que preciso aqui paz, amor, amigos de verdade, alegria de viver.
                   – “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos,os meus caminhos, diz o Senhor, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos.” (Isaías 55: 8 e 9). Se você não tivesse passado por tudo isso não teria chegado até aqui, não dessa maneira. – sorrimos em comunhão e cumplicidade, não precisávamos dizer mais nada, descemos do carro e eu me encaminhei com passos firmes ao altar.
                  Como combinei comigo mesma, olhava para os convidados e acenava com a cabeça, sorrindo de orelha a orelha, mas em dada volta do pescoço para o corredor da esquerda e da direita, vapt, bati os olhos no meu Adônis, daí em diante nem sei como cheguei ao altar parecia hipnotizada e não tirei mais os olhos dos dele. Assim foi até o “sim” tão esperado. Beijamo-nos e nada mais havia ali, música, risos, flashes tudo ficou em segundo plano.
                  Dancei bastante, divertimo-nos com tudo que um casamento proporciona, os convidados: amigos do trabalho de André, empresários, gente importante, nossos irmãos na fé que congregam na nossa comunidade evangélica, nossas famílias; ricos, pobres, juntos, sem diferenças ou entraves, o mundo era só felicidade.
                  Joguei o buquê, uma estagiária da agência de André pegou-o e ficou feliz, só o namorado parecia um pouco desconsolado. Despedimo-nos e voltamos para a limusine que nos levou ao hotel onde passaríamos a noite para depois viajarmos, nossas malas tinham sido enviadas para lá.

ENFIM SÓS

                  Eu já tinha feito sexo muitas vezes na minha vida, mas estava nervosa como se fosse minha primeira vez, porém, dadas as circunstâncias seria minha primeira vez, com amor, sinceridade, cumplicidade, doçura, verdadeira união de almas. O amor é a união de almas propensas à felicidade.
                  Ele desabotoou os duzentos botões do meu vestido e fui para o banheiro me preparar para ele.
                  Ao voltar para o quarto ele me olhava com tamanha doçura e desejo que eu tremia só de pensar no seu toque. Ao me ver seus olhos pareciam incendiar-me.
                  Beijamo-nos com uma pressão voraz, seu corpo estava tão quente que parecia em brasa, a pele era tão macia e aveludada, seu coração batia tão forte e acelerado que parecia galopar no meu peito como um cavalo. O meu não estava diferente.
                  Naquela noite nossos corpos se fundiram como se o mundo não existisse mais e o amor finalmente floresceu como o fruto maduro e tenro de uma próspera colheita.
                 
                  Nossa lua-de-mel maravilhosa foi um tour pela Itália, Grécia e França, passamos o Natal em viagem, numa ilha da Grécia, foi muito romântico.
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MAIS FESTA

                  Voltamos da lua-de-mel antes do Ano Novo, planejamos passar a festa de Ano Novo nos Estados Unidos, em Manhattan com a família de André, convidamos minha cunhada, mas eles passariam com a família de James. Combinamos no próximo Natal ficarmos juntos.  Eu estava muito feliz com os mais novos membros da minha família.
                  Enviamos passagens para os meus assistentes domésticos Ana, Sônia e João (os outros já tinham compromisso com suas famílias), que chegaram ao aeroporto na véspera de Ano Novo e foram recebidos por mim, pelo André e por sua mãe. Ficamos todos hospedados no apartamento dos pais de André que é um duplex maravilhoso e gigantesco.
                  Depois das festas passamos mais uns três dias em Manhattan, que fica no centro de Nova Iorque, para que pudéssemos fazer compras e mostrar-lhes melhor a cidade.
                  Visitamos uma comunidade cristã de lá, foi muito bom, essa comunhão existe em qualquer lugar do planeta não importa a língua que se fale.
                  Voltamos para São Paulo com muitos presentes e a vida parecia plena.

NOTÍCIAS AMARGAS

                  Tudo voltou à normalidade. André voltou para o trabalho e eu, precisava arrumar algo para fazer urgentemente, não dava mais para manter minha rotina entediante, e pode acreditar, não era pelo fato de já não estar mais numa cadeira de rodas, algo estava realmente faltando.
                  Passei tanto tempo fora que havia me esquecido da crueldade da mídia, fiz questão de ver os jornais dos dias próximos ao meu casamento e me deparei com algo que não me surpreendeu em nada, porém, deixou-me triste, angustiada. Algumas manchetes diziam: “Raquel, a ex-cadeirante, casa com ricaço publicitário”, “O suposto milagre de Raquel e seu estranho retorno aos holofotes”  e a matéria sem escrúpulos dizia: “Finalmente o retorno esperado pela socialite Raquel Albuquerque do Prado. Casou-se ontem em alto estilo num buffet famosíssimo em São Paulo, com o ricaço André Alberton. A história contundente de seu acidente e a suposta paraplegia, após mais de dez anos de vida reclusa, renderam-lhe novamente um retorno aos holofotes com esplendor. Ela agora conta  uma história para lá de fantástica, num  sequestro que durou quase trinta dias e foi arquitetado por seu irmão (morto pela polícia em sua mansão, numa tentativa de outro sequestro infrutífero) e seus comparsas, ela consegue livrar-se de forma muito miraculosa alegando ter sido curada, numa fuga digna de Alcatraz, a socialite consegue atrair com todo esse enigma os holofotes para si outra vez, não sabemos qual será o próximo passo escandaloso, porém, se ela queria, conseguir uma volta triunfal...”
                  Desisti de ler essas idiotices, meu peito parecia que ia estourar de tanta raiva. Achei melhor não ler mais e me esquecer que existia gente desse tipo no mundo que alimenta maldades e mentiras na mente dos outros. Destrói-se em um minuto o que se levou a vida toda para ser construído.
                  Afinal de contas, quem queria saber a verdade? Se a mentira os satisfazia e não os deixava pensar no verdadeiro motivo e origem do milagre?

REUNIÃO DE FÉ

                  Estávamos numa reunião da comunidade cristã que frequentávamos, eu, André, Sônia, João e Ana, sempre íamos à igreja, mas relato este dia em especial porque Deus falou comigo de forma diferente, tocou-me de maneira diferente. Nunca paramos de aprender, enquanto estivermos vivos haverá aprendizagem.
                  O pastor pregava sobre a história de Davi e Golias, talvez você não a conheça, mas é muito interessante, naquele tempo em que os homens lutavam face a face, o exército de Israel, cujo rei era Saul, foi desafiado pelo gigante filisteu chamado Golias que possuía três metros de altura (já imaginou!), ninguém de Israel conseguia detê-lo, por essa razão estavam acuados e amedrontados, até que um jovem israelita chamado Davi que era formoso, porém pequeno, se dispôs a lutar com o gigante. É claro que ninguém acreditou que aquele rapaz franzino teria sucesso, colocaram nele uma armadura e Davi achou muito pesada, mandou que tirassem. E foi contra o gigante apenas com uma funda (é como um estilingue, feito com uma correia ou uma corda dobrada) com a qual ele lançaria uma pedra.
                  E o pastor leu a seguinte passagem: “Disse o filisteu a Davi: Sou eu algum cão, para vires a mim com paus? E, pelos seus deuses, amaldiçoou o filisteu a Davi. Disse mais o filisteu a Davi: Vem a mim, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas-feras do campo. Davi, porém, disse ao filisteu: Tu vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado...” (I Samuel 17: 43 a 45).  Ele pregou fundamentado nessa passagem, em que Golias não deu crédito àquele jovem pequeno que lhe veio com uma simples funda e uma pedra, e foi aquele jovem que derrubou o gigante com um tiro certeiro e depois lhe cortou a cabeça. E ele dizia, inspirado na palavra, que não devemos ouvir o que as pessoas falam a nosso respeito, o que importa é a verdade e o que Deus faz por nós.
                  Eu não sei se você já conseguiu fazer a conexão, mas a palavra de Deus é assim, ela está em constante ligação com o nosso espírito e atinge o ponto certo, nunca volta vazia, surte o efeito para o qual ela foi emitida. A minha ficha caiu e as angústias causadas pelas difamações da mídia me voltaram à mente e à boca com um gosto muito amargo. Eu realmente não deveria dar crédito a isso, o que importava era o milagre que o Senhor tinha operado em minha vida e o quanto isso mudou a minha visão das coisas, se falavam mentiras a meu respeito eu deixaria que Deus cuidasse de apresentar-lhes a verdade de alguma maneira.  
                  Davi era tão pequeno e desacreditado, mas nem por isso deixou de alcançar a vitória não só para ele, mas para toda uma nação.
                   Mal sabia eu o que ainda estaria por vir, que tudo o que aconteceu até agora foi só o início de um caminho bem diferente e cheio de surpresas, de descobertas e o que é mais interessante de grandes e boas mudanças. Não tem preço em poder doar-se um pouco que seja para os outros. Vou tentar a partir de agora descrever para você (além de tudo o que já contei até aqui) as novas trilhas que surgiram na minha vida e quão maravilhosas e gratificantes elas são. Mas isso é para outros capítulos...

UMA CONVERSA IMPORTANTE

                  Cheguei em casa “ruminando” aquela palavra, ela foi realmente certeira a tudo o que eu precisava ouvir para ignorar os comentários e seguir em frente fazendo a vontade do Senhor na minha vida.
                  Enquanto André ia para o quarto preparar-se para dormir, fiquei na sala absorta nos meus pensamentos, meditando na palavra. Ana encontrou-me na sala assim, pensativa, ao notar sua presença percebi que ela estava olhando para mim com um ar de questionamento e sabendo o que ia dizer (nossas almas conversam, com certeza) eu lhe adiantei:
                  – Você já sabe o que a palavra desta noite quis dizer, não é? – ela olhou-me com cumplicidade.
                  – Acredito que sei, você não deve dar ouvidos àqueles falsos e mentirosos que tentam roubar sua paz. – responde ela com clarividência.
                  – Existem mais alguma coisas que eu precise saber, não é?
                  – Sim, existe, você recebeu grandes presentes de Deus e precisa compartilhá-los, por seu medo de exposição você tem sido egoísta demais e acredito que, no fundo, já sabe disso! – falou-me sem reservas, em avalanche, aquilo que ela parecia ter tirado de dentro do meu coração. – Já pediram para falar das suas vitórias e você não quer contar, ainda está com medo?
                  – É difícil para mim, as pessoas acreditam que eu fiquei numa cadeira para chamar a atenção, mesmo que mostrasse meus exames da época do acidente e que fui até para os Estados Unidos tentar a cura, talvez diriam que eu os forjei. Você sabe, para a mentira sempre há um jeito, a verdade funciona diferente. E tem mais, ainda não consegui contar nem para vocês o que aconteceu comigo, digo, no cativeiro e, falar da minha vida, expô-la, é demais, é tudo tão vexatório! E simplesmente não quero trazer à tona aquele inferno. Ainda é muito para mim. E além disso...
                  – E blá, blá, blá... me perdoe minha menina, nunca na vida te disse isso, mas depois de tudo o que recebeu ainda tem medo? Diante do Deus vivo e poderoso que serve e já deu-lhe evidentes mostras de tudo isso. A cruz era a morte mais vexatória e indigna da época em que Jesus se sacrificou nela por mim e por você e Ele não se preocupou com o vexame, a vergonha. E, pode acreditar, Ele não precisaria fazê-lo para mostrar que Ele é quem é, só o fez para nos libertar. E você vem me dizer que tem medo? Davi teve medo? Você ouviu a história, elas são reais, mas também são metáforas da nossa vida. Pense em tudo o que me disse. Existem milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro que precisam ouvir a sua história de vitória e conquista, porque apesar de todo o caos você conseguiu vencer os obstáculos e está aqui muito bem, as pessoas necessitam saber que existe um Deus maravilhoso que pode ajudá-las também. Lutar suas lutas, vencer suas batalhas, será que você não entende? O quanto pode abençoar outras vidas e dar forças para quem ouvir seu testemunho? Expor sua vida? Você não acha que isso já aconteceu demais e de forma extremamente negativa na sua juventude. Antes você nem se preocupava com as más línguas. Agora que tem todos os motivos para gritar para os quatro cantos da Terra o quanto Deus fez por você simplesmente você diz que não tem CORAGEM? Deus teve coragem de mudar tudo para abençoar sua vida e tirar você do lodo em que você mesma se enfiou, então tenha coragem de mostrar tudo o que Ele fez por você. Não pense que isso significa que só você errou na vida, não, de jeito nenhum. “Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”(I João 1:10). Todos tivemos e ainda temos nossos podres, a grande diferença é que agora somos justificados pelo sacrifício de Jesus na cruz, mas não sou melhor ou pior do que você.
                  Ana nunca havia falado comigo daquele jeito, cada palavra que ela dizia produzia um impacto no meu coração e eu ia pouco a pouco entendendo o significado de tudo aquilo.
                  – Você tem toda razão, eu estou sendo tola e egoísta, só pensei em mim até agora, sendo que eu sempre busquei um sentido real para a vida e que, é claro, eu encontrei, meu caminho, a felicidade, mas de que adianta se não reparto com os outros para que também tenham esperança e sejam felizes. Mas você sabe que não cometeu pecados como eu... – ela olhou-me com um olhar inquisidor e interrompeu a minha fala para despejar:
                  – Não fale bobagens, todos pecamos, até em pensamento, não somos puros, ninguém é, por isso não podemos nos vangloriar de nada. Não existe pecado pequeno ou grande, todos cometemos erros e precisamos da justificação pelo sangue de Cristo, para que não nos enalteçamos, não somos bonzinhos, a natureza do Espírito Santo que está em nós porque gentilmente o aceitamos é que nos faz melhores, não perfeitos. Sua vida é um exemplo para pessoas que passam ou passaram por problemas tão fortes, tão difíceis, é uma esperança para dizer “olha, se eu consegui, você também pode é só buscar a Deus.”
                  Eu fiquei perplexa com tudo aquilo, ainda não havia atinado quão importante era tudo o que vivi e quão útil poderia ser para as outras pessoas sabê-lo. Mas ainda ficou uma dúvida que precisava tirar do meu peito.
                  – Eu entendo agora o que você está dizendo, já ouvi testemunhos nas reuniões que me deram forças para continuar nos momentos mais difíceis, mas eu sei que Deus tem coisas diferentes para cada um, se eu saí da cadeira de rodas não significa que todos sairão, correto?
                  – Correto, mas não é o fato de estar na cadeira que te deixava infeliz era? – pense nisso.
                  – Realmente, às vezes eu achava que ela incomodava os outros, mas isso não me perturbava, só no começo, é claro, até a adaptação, depois, ela transformou a minha vida para o bem, parei com tudo o que eu fazia e simplesmente dei uma volta de 180º graus, você mais do que ninguém sabe disso, o acidente me fez ver a vida por outro ângulo, me ensinou a viver. Foi procurando um caminho que eu encontrei esse Jesus lindo!!
                  – Viu? A cadeira não foi empecilho, parece até contraditório, mas ela te ajudou a encontrar seu caminho. Se você não estivesse nela, não pararia para pensar nele. Seguiria sem parar para o abismo com a vida desregrada e louca que levava. Você precisou do milagre para fugir daqueles bandidos, mas o maior milagre foi você conhecer esse Deus lindo e aceitá-lo em sua vida. É isso que as pessoas devem reconhecer no seu testemunho, não se vão ou não sair da cadeira de rodas, mas para cada um Deus tem um escape diferente e especial, entende? Que o impossível para nós é possível para Ele.
                  – Você está certíssima, como não enxerguei isso antes!!! Eu fui egoísta, guardei só para mim todo o melhor de Deus!!! Sendo que Ele ama a todos do mesmo modo como me amou, eu devo dizer isso a todos!
                  – É... você tem uma missão...
                  – Eu tenho mesmo e agora eu sei qual é! – retribuí seu olhar com consentimento.
                  Tentei desligar a minha mente durante a noite, mas não consegui. Fiquei acordada pensando em todas as coisas que eu deveria fazer a partir de agora. Na manhã seguinte já tinha em mente que o primeiro passo seria contar na reunião da comunidade evangélica o meu testemunho. Era o que ia fazer. Liguei para o pastor e pedi uma parte no culto de domingo, ele disse que estava orando e aguardando este dia, para minha surpresa ele disse que teria todo o tempo que quisesse no culto para falar. Desliguei o telefone e senti que algumas coisas mudariam para sempre na minha vida.

O TESTEMUNHO

                  Eu me preparei durante toda a semana, li a palavra, meditei, pedi discernimento a Deus. Estava muito ansiosa e, ao mesmo tempo, aflita, eu já tinha falado para muitas pessoas em reuniões de negócios, mas num púlpito de igreja, nunca. Falar das coisas de Deus eu sabia que é muita responsabilidade. Orei durante a semana e fiz algo que aprendi a fazer, jejuar, como fazia Daniel e outros grandes nomes da bíblia.
                  Chegou o domingo e um frio incômodo percorreu a minha espinha durante o dia todo, estava com as mãos suadas e nem fazia tanto calor. Passei o dia em casa com André e estudando a bíblia.
                  No culto, nós oramos, louvamos a Deus com muitas músicas até que chegou o momento em que o pastor passou a palavra para mim. Minhas pernas tremiam e eu tive de me segurar em André para me levantar do banco. Orei em pensamento, “Senhor dá-me forças e sabedoria para falar como tu queres.” Após essa rápida oração minhas pernas se firmaram, cheguei até o púlpito ainda tremendo um pouco, porém, ao abrir a minha boca emanava uma segurança que nem eu mais sabia que teria lá em cima.
                  – A graça e a paz do Senhor Jesus. – cumprimentei a comunidade como era nosso costume, assim como fazia Paulo na bíblia. Se você não conhece a história de Saulo abro uns pequenos parênteses para dizer que ele perseguia os cristãos, até que o Senhor o derrubou do cavalo e ele ficou cego, apenas por algum tempo e após sua cura ele já era o Paulo, o pregador da palavra de Deus, um dos maiores que a bíblia relatou. Bem, como ia dizendo, cumprimentei-os e eles devolveram o cumprimento.
                  Comecei a contar meu testemunho desde quando era criança enfim, toda a minha saga, que vocês já conhecem. Claro que eu dei ênfase ao que achei ser mais importante e sintetizei o que não era. Falei por cerca de uma hora.  Na bíblia usei um dos capítulos de um livro muito conhecido na bíblia, os Salmos. “Esperei confiantemente pelo Senhor; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro. Tirou-me de um poço de perdição, de um tremedal de lama;colocou-me os pés sobre a rocha e me  firmou os meus passos.E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verão essas coisas, temerão e confiarão no Senhor.” (Salmo 40: 1 a 3). Foi exatamente isso o que aconteceu na minha vida, acredito não haver palavras que definiriam melhor o meu testemunho, muitos ouviram-no e confiaram no Senhor.
                  O que mais devo destacar aqui é que a cada passagem da minha vida que eu contava e nas quais houve grande transformação as pessoas ficavam boquiabertas e glorificavam o nome do Senhor, muitos choraram. Meu intuito não era comover ninguém, mas mostrar as maravilhas que Deus pode operar na minha e na sua vida. Porém, no final do testemunho, foi feito um apelo para quem queria aceitar o sacrifício de Cristo e muitos foram para frente. Outros foram para receber uma oração de fé porque estavam bastante desanimados. O que vi me deixou estarrecida, os corredores da igreja ficaram cheios. A palavra realmente não volta vazia, surte o efeito para o qual foi emitida.


REPERCUSSÃO

                  Meu testemunho teve uma repercussão que eu não esperava, durante toda a semana recebi telefonemas de outras igrejas evangélicas para pregar. Eu respondia que não era uma pregadora, porém, eles insistiam que eu precisava contar meu testemunho. Como eu já sabia que não poderia fugir, e no fundo eu não queria, ajudar os outros me dá prazer e uma sensação de que posso fazer alguma coisa. Pedi a Ana que abrisse uma agenda e fosse marcando os compromissos.
                  A partir disso não parei mais, toda semana eu tinha uma igreja diferente para visitar. Para a minha surpresa, André ficou muito feliz, estava radiante e acabou confessando que ele já sabia (o Espírito Santo que habita em mim, habita nele também) que todas aquelas bênçãos tinham de ser compartilhadas, eu não poderia guardar isso só para mim, isso traria força, renovação, motivação e conquistaria o coração de muitos. Ele foi realmente mais um presente de Deus para mim. Pode acreditar, quando nos colocamos na vontade do Senhor, Ele faz o melhor para nós. 
                  A imprensa tentou jogar areia, como imaginei, me chamando charlatã, mas em poucos dias esqueceram o assunto (claro que por causa de nossas orações para este fim), e se eles não acreditavam, pouco importava, eu vivi esses milagres e sei do que Deus é capaz, infeliz deles que não acreditam e não vivem essas experiências por falta de fé.
                  Tudo aconteceu tão rapidamente que eu já era chamada para pregar até em outros Estados, claro que eu me preparava na bíblia e achei justo entrar num curso de Teologia, ficou bem apertado por causa da agenda, mas consegui dar conta com a graça de Deus. André fazia tudo para me acompanhar em todas as viagens que eu marcava somente nos finais de semana. Mas estavam acontecendo tantas coisas por onde eu passava que valia a pena todo o meu esforço. Muitos voltavam-se para Jesus, muitos recebiam bênçãos grandiosas e depois me escreviam e-mails contando, era maravilhoso. O Senhor estava usando a minha vida como canal de bênçãos. Eu nem sei dizer o quanto estava feliz.
                  Ana tornou-se minha secretária, cuidava da minha agenda, dos meus compromissos com carinho, me acompanhava nas viagens que eram financiadas por mim e pelo André, afinal, eu tinha plenas condições de fazê-las, para dizer a verdade quanto mais eu ofertava e abria a minha mão para fazer a obra, mais o Senhor abençoava os nossos negócios e investimentos de forma miraculosa como Ele sabe fazer muito bem. É claro que ninguém deve fazer dívidas e despender aquilo que não tem, mas é incrível, quando você tem o coração aberto para fazer as coisas de Deus tudo se multiplica de maneira favorável.
                  Não quero convencê-lo a nada, só quero contar minha história e fazê-lo refletir nessas coisas que só te farão bem como fizeram a mim e a milhares de pessoas que já ouviram testemunhos fantásticos como o meu.
                  
MEU LAR

                  André sempre foi um homem extremamente doce e compreensivo, me faz a mulher mais feliz do mundo. Nunca negligencia minhas vontades, mas eu também, em contrapartida, nunca negligencio as dele. O casamento é uma troca constante e uma renovação constante de amor e de entrega. Só nos faltava algo que começamos a notar após seis meses de vida agitada com tantos compromissos. Você pergunta, o que falta? Um filho.
                  Eu nunca havia pensado tanto em ter um filho, mas já estava com meus 38 anos e o André era extremamente carinhoso e atencioso com as crianças, revelava um desejo ardente de ser pai. Eu também comecei a sentir essa vontade.
                  Numa noite, quando já estávamos em casa e abraçados em nossa cama, iniciamos uma conversa sobre o assunto.
                  – Você tem paixão por crianças, não é? Vive agradando os filhos dos outros. – Tento puxar o tema e observo a reação, ele ri um sorrisinho torto que mostra aquelas covinhas avassaladoras de fazer qualquer mulher ir à loucura.
                  – Não seria má ideia termos o nosso baby, seria? O que você acha? – Cavalheiro como sempre, ele devolve a pergunta para saber a minha vontade.
                  – Acho que nunca é tarde para ser mãe e eu sou muito jovem ainda, não acha? – Sorrio em cumplicidade ao seu pedido, piscando o olho, deixando claro que também é a minha vontade.
                    Ele se anima bastante com a minha resposta e envereda por esse campo sem nenhum receio mais.
                  – É o máximo você ter puxado esse assunto, sei que você toma anticoncepcional e acho que deve parar de tomá-los e até procurar um médico para que tudo corra bem, o que acha? – já ria solto como sendo ele a própria criança. Eu já imaginava que ele teria essa reação, mas ele superou minhas expectativas.
                  – Pode deixar eu já estou tomando minhas providências. – Sorri e puxei-o mais para mim, ele entendeu a linguagem do corpo e... treinamos muito para realizar o nosso desejo.
                 
DECEPÇÃO

                  Passou-se um mês inteiro de treino intensivo e fervoroso (como é maravilhoso com muito amor!), mas não obtivemos nenhum sucesso. Procurei um médico, ele recomendou uma batelada de exames. Eu os fiz e para minha surpresa soube que havia algumas complicações no meu útero e, por isso, eu deveria operar para tirar um mioma e não poderia ter filhos.
                  Posso descrever a você o momento da notícia, o chão fugiu dos meus pés e a terra começou a girar com tal fúria que eu desmaiei, na frente do médico, acordei nos braços de André que acariciava meus cabelos com carinho e doçura e tinha um olhar de total compreensão apesar de eu ter a certeza de que ele tentava esconder olhos vermelhos e um pouco inchados.
                  – Meu amor, está tudo bem, você só teve uma vertigem.
         – Como posso não te dar um filho, você é o melhor marido do mundo, será o melhor pai do mundo! E eu não posso te dar esse presente? – eu comecei a chorar de forma compulsiva parecendo uma criança mimada nos braços da mãe.
                  – Não chora minha querida, para mim pouco importa isso, o que eu mais prezo nessa vida eu já tenho, e é você, nada vai mudar isso. – Enquanto falava emanava doçura e sinceridade, mas acalentava a dor que também devorava o meu peito. Abraçamo-nos em silêncio, só regados pelas lágrimas que ele então também compartilhava comigo.

NOVAS EMOÇÕES

                  Ao chegarmos à casa eu corri para contar em prantos para Ana. Aqui você já deve ter percebido que faz toda a diferença contar a ela, como sempre, ela fez o choro tornar-se em regozijo, pelo simples fato de lembrar-me que esta não era uma situação comum e que Deus estava no controle de tudo.
                  – Mas porque vocês se esquecem tão facilmente dos milagres que O Senhor realizou em suas vidas. Ele pode todas as coisas e o que o médico colocou como causa perdida Deus pode colocar como milagre, certo? Você, Raquel, mais do que ninguém sabe disso!
                  Ela sempre tem razão, como eu poderia ter me esquecido de tudo o que passei? Estou viva e estou andando, por que não poderia mudar o diagnóstico do médico? Deus faz o impossível.
                  Não respondi nada a ela, só abracei-a com força e meu pranto virou riso de felicidade. Compartilhamos nossa conversa com André e seu rosto iluminou-se.
                   – Vocês têm toda razão, Deus pode operar mais um milagre. – Preocupado comigo ele reiterou. – Porém, quero deixar claro meu amor, que mesmo que Ele não fizer isso, te amo e  nada muda, certo? – Percebi que ele tinha esperança, mas não queria pressionar-me. – Sabemos que tudo está no controle do Senhor e se Ele achar que é melhor para nós ficarmos assim, a vontade dEle é o melhor!
                    – Eu sei disso e te amo por me apoiar. – Respondi para tranquilizá-lo, mas a chama da esperança já estava acesa e eu ansiava por mais esse prodígio de Deus.
                   Eu sabia plenamente que os planos de Deus são maiores que os nossos, Ele sempre faz o melhor, isso significa que talvez eu não tivesse o filho que eu queria, talvez houvesse por bem adotar um, o que seria maravilhoso também, eu já pensava nessa hipótese com muito carinho.
                   Como sempre faço com tudo o que preciso em minha vida, empenhei-me a orar nesse sentido. Ressalto um texto bíblico de uma de tantas mulheres que viveram a minha aflição. Ana, da bíblia, era uma israelita que não podia ter filhos, estava tão amargurada que foi ao templo fazer um voto a Deus. “... levantou-se Ana, e, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente. E fez m voto, dizendo: Senhor dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva tu não esqueceres, e lhe deres um varão, ao Senhor, o darei por todos os dias da sua vida...” (I Samuel 1: 10 e 11).
                   Lendo essa passagem animei-me ainda mais e orava com muita fé.

O TEMPO PASSA...

            Um ano se passou e não tivemos nenhum filho, mas eu não desanimei, continuava orando, pregando nas igrejas, fazendo a obra do Senhor, a vontade de Deus, muitas pessoas contavam os milagres que estavam acontecendo em suas vidas, ratificando a renovação de fé que meu testemunho dava a elas, em nenhum momento eu falava do fato de não poder ter filhos e que ainda queria mais um milagre. Se você me perguntar por que eu fiz isso, posse dizer que achava muito egoísta da minha parte, mas eu errei, pois estava escondendo minha dor e tentando limitar o poder de Deus.
                   Numa noite, eu havia terminado meu testemunho durante um culto e muitas pessoas (como sempre acontecia) haviam se disposto a receber uma oração e outras aceitaram o sacrifício do Senhor Jesus. Ao término da reunião, eu estava rodeada de gente que sorria e me cumprimentava quando alguém se aproximou e me disse profeticamente que eu teria o presente de Deus que estava esperando há muito. Fiquei estarrecida com aquela palavra, a mulher que se dirigiu a mim não conhecia o meu problema, mas o Deus que eu sirvo e que conhece todas as coisas conhecia melhor do que ninguém o meu caso e o que eu tanto aguardava. Chorei, abracei-a, porém, somente agradeci sem dizer palavra sobre a minha dor.
                   Chegando à casa eu contei ao André, ele abraçou-me, beijou-me com ardor e olhando para mim com intensidade disse:
                   – Seja feita a vontade de Deus!! Sempre te amarei saiba disso. – E ainda pensativo continuou. – Vamos aguardar essa promessa.
                   Toda a intensidade do amor derramou-se em nosso leito conjugal e era como se em reposta dissesse que independentemente disso, ele me sempre me amaria, não só com palavras.
                   Após uma semana dessa experiência profética Deus preparou-me uma surpresa. Recebi um convite para pregar em outro país, o México. Conversei com meu marido e decidimos que iríamos viajar. André, sempre que precisava, viajava a negócios, e é claro, que, eu o acompanhava nessas viagens sempre que podia, e ele me acompanhava nos finais de semana, por isso dávamos certo, nos encaixávamos, um nos compromissos do outro, somente não estávamos juntos quando nossas agendas coincidiam, isso era raro.

COMPRAS E MAIS SURPRESAS...

                   Eu ainda não contei, mas fizemos amizades muito abençoadas nas reuniões da comunidade, uma delas é a Sara, mulher inteligente, descolada, veste-se muito bem e frequenta os melhores restaurantes da cidade com o marido, ele trabalha como gerente de banco e ela cuida da casa dos dois lindos filhos, um de 9 e outro de 7 anos, costumamos sair juntos os dois casais. Seu marido chama-se Marcos, ele é o que chamamos de diácono na igreja, é mais ou menos um faz-tudo entende? Ajuda em absolutamente tudo o que a igreja precisa. Pessoas como ele dedicam seu tempo, sem ganhar absolutamente nada em troca, mas não é por dinheiro que as pessoas trabalham na obra do Senhor, é por amor, isso, ninguém entende. É maravilhoso podermos dar um pouco do nosso tempo para coisas boas que transformam o mundo ao nosso redor em algo melhor.
                   Bem, feitas as apresentações, posso começar a saga da viagem ao México. Saímos para fazer compras no shopping (eu amo fazer compras: sapatos, bolsas, roupas... é adorável!), mas como eu ia dizendo eu tinha que preparar minha mala para a viagem e precisava levar uns ponchos, pois estávamos em novembro e o inverno já estava se mostrando por lá com temperaturas baixas. Não havia muitos casacos nas lojas porque, é claro estamos quase no verão aqui no Brasil. Então tudo que encontrei estava em promoção, botas, ponchos, casacos, luvas, tocas, até boina eu comprei, procuramos bastante para acharmos, pois as lojas estavam abarrotadas de roupas bem vaporosas. Tomamos um café no shopping e, acabamos encontrando uma moça muito simpática que nos abordou enquanto jogávamos conversa fora, numa mesa tomando cappuccino (amo cappuccino e tudo relacionado com café, por isso, para mim não importa a temperatura para degustar um bom e quente café), falando sobre a viagem e que eu já havia estado no México que isso foi há muito tempo, quando fui abordada por uma moça bem jovem e simpática, ela chegou-se a nós bem animada e apresentou-se.
                   – Olá, graça e paz, posso me apresentar? Você é Raquel Albuquerque do Prado, contou seu testemunho na minha igreja há uns dois meses. Meu nome é Patrícia, como vai? – Ele tinha a mão estendida e eu levantei-me para completar a apresentação com um abraço caloroso como costumo fazer quando as pessoas me procuram.
                   – Olá minha querida, graça e paz do Senhor, que bom conhecê-la, sente-se e tome um café conosco. – Falei com desprendimento para que ela se sentisse à vontade.
                   – Obrigada pelo convite, mas eu só parei porque não podia deixar de contar uma bênção que recebi naquele dia. Eu não podia ter filhos e estava muito desorientada, já havia feito milhares de tratamentos, tinha perdido a esperança. Naquele dia, após contar seu testemunho, levei uma descarga de motivação, pedi a Deus que realizasse o meu sonho, pois lembrei-me que tudo é possível para Ele. Pois, para minha surpresa, uma semana depois descobri que estava grávida, o Senhor operou o milagre. Só queria agradecer, seu testemunho me trouxe coragem e novas esperanças e o milagre aconteceu. Obrigada.
                   Eu olhava para ela num misto de surpresa, feliz, assustada, decepcionada e sei lá eu mais o quê. Só sei que quando ela terminou era como se um terremoto tivesse invadido meu cérebro e eu não ainda não conseguia coordenar minhas ideias, fiquei olhando por alguns segundos seu rosto, sem falar palavra, ela percebeu meu encabulamento.
                   – Desculpe tê-las interrompido, mas eu precisava contar, você foi um canal de bênçãos usado pelo Senhor para  a minha vida e eu só queria encorajá-la a fazer a continuar dando seu testemunho, ele é realmente incrível.
                   Como uma lufada de vento soprada na minha cara voltei a respirar com dificuldade e então consegui esboçar uma reação propícia à notícia.
                   – Meu Deus, isso é incrível, é que eu fiquei tão... tão... – a palavra não vinha... – emocionada com seu relato. Eu sempre recebo milhares de testemunhos por e-mail, até por carta, maravilhosos, mas igual ao seu... isso é... incrível. Agradeço por sua disposição em contar-me, fico muito feliz e isso renova as minhas forças pode estar certa disso.
                   Ela despediu-se, mas antes, trocamos telefones, fazia questão de estreitar a amizade. Só Deus sabia que eu tinha, pela primeira vez, sentido um ciúme terrível daquele milagre em especial. Senti-me mal, dei uma desculpa para Sara e voltamos para casa. Confesso que eu estava arrasada.

QUESTIONAMENTO

                   Ao chegar à casa, fui direto para o chuveiro onde não queria falar com ninguém, fiquei trancada no meu quarto o dia todo. Chorei muito e questionei demais a Deus. Você pensar que eu estava sendo extremamente egoísta, já havia recebido tantos milagres, os outros te todo o direito de recebe-los, Deus é quem decide, não existem cotas de milagres para cada um, a vontade do Senhor é soberana e, pode acreditar, é o melhor para nós. Porém, sou humana e, como tal, perguntei por que razão esse milagre não acontecia comigo? E uma voz bastante familiar, porém, que há muito eu já não ouvia me disse “A minha graça te basta!”. Olhei para os lados instintivamente como sempre e nada, não havia ninguém. Eu já sabia quem era, chorei compulsivamente. Procurei me recompor para que ao chegar à casa, André não notasse a minha dor e tristeza. Não consegui. Ele voltou do trabalho e me encontrou no escuro, no quarto, deitada, com os olhos inchados e muita dor de cabeça. Ele abraçou-me com amor e me acariciou os cabelos. Dormi envolta no seu  aconchego, era o consolo que me restava.
                   Na manhã seguinte, ele me acordou com um beijo e perguntou se eu queria que ele ficasse em casa para cuidar de mim. Eu disse que não que já estava bem e se precisasse eu o avisaria. Ele beijou-me e foi para o trabalho. Tentei levantar e minha casa girou, estava com muita dor. Chamei por Ana (a campainha ainda existia no meu quarto, mesmo depois de todas as reformas que fizemos na mansão), ela subiu o que agora eram escadas, abriu a porta e eu, automaticamente, comecei a chorar novamente.
                   Aquele dia foi muito difícil para mim, Ana chamou meu médico ele veio me fazer uma “visita” em casa. Examinou-me e receitou uns comprimidos para a dor (enxaqueca) e descanso na penumbra. Passei três dias inteiros desse jeito. Não pense que deixei de falar com Deus, eu nunca deixo de fazê-lo, principalmente em situações como essa, em que há silêncio e muitas perguntas.

UM NOVO DIA

                   É claro que, com tudo isso, tive que adiar minha viagem para o México. Após uma semana de reclusão, numa determinada manhã acordei sentindo que as coisas mudariam e uma nova esperança surgiu no meu peito. Eu já não sentia nem vestígios de dor e resolvi levantar-me e voltar a minha rotina. Tive outra daquelas conversas francas com Ana durante o café da manhã, Sônia também participou.
                   Pela primeira vez contei a elas tudo o que havia ocorrido nos últimos dias, desde o encontro no shopping, toda minha dor, meu questionamento, até a familiar voz desembocando em meus dias de total desespero.
                   Ana sorriu, aquele sorriso de compreensão que diz para você o quanto você está sendo tola.
                    – Deus disse a você que a graça dEle te basta porque é só isso que você precisa, não é? Na hora certa Ele vai trazer a tua bênção, é promessa Ele não mentiu para você, só quer que você tenha forças para continuar caminhando. E você não pode parar, se você deixar de fazer o que Ele quer que razão Ele terá de fazer o que você quer. A vontade dEle é sempre a melhor para nossas vidas, hoje não entendemos, mas um dia entenderemos. Você não deve entregar os pontos! 
                   – É mesmo Raquel, Ana tem toda a razão, você deve entender que Ele nunca abandona ninguém, se houver uma tempestade e você não consegue enxergar nada, saiba que Ele está no meio dela com você. Você não nadou, nadou para morrer na praia! Só precisa ter paciência, tudo tem seu tempo.
                   Lembrei-me daquela palavra já citada aqui, que tudo tem seu tempo embaixo do sol. É verdade, se este era o tempo de sentir dor, a alegria ainda chegaria. Aquela conversa me deu motivação. Voltei a cumprir minha agenda, na semana seguinte estaria embarcando para o México com Ana e meu marido.

EM CHIHUAHUA
                  
                   A nossa estada no México aconteceu no Estado Chichuahua, que fica bem no norte do país, fomos para um lugar chamado Ciudad Juarez, o fuso horário tem diferença de cinco horas de São Paulo, enquanto aqui era 15 horas, lá ainda estávamos em plenas 10 horas da manhã. A cidade é muito bonita, lugar muito populoso, uma cidade grande. Ficamos num hotel simples chamado Hampton Inn, não queríamos ostentação, só queríamos um lugar para ficar os poucos dias que passaríamos lá.
                   O importante em ressaltar é que houve um mover fantástico naquele lugar nos dois lugares em que preguei os cultos ficaram lotados. Muitas bênçãos foram derramadas e muitas vidas aceitaram Jesus. Foi maravilhoso. Foram dias que renovaram as minhas forças. Ficamos quatro dias por lá.
                   Numa tarde, saímos para as famosas compras, não podia deixar de trazer os souvenires como fazia nas minhas viagens, nos divertimos e conhecemos alguns pontos turísticos da cidade. 
                   Na volta, ainda no aeroporto, nos despedimos de uma comitiva de pessoas que tiveram o prazer de nos levar até lá, fomos muito bem tratados, os mexicanos são um povo muito hospitaleiro e cortês.
                   Você deve estar perguntando por que contei essa experiência, na verdade, essa seria a primeira de muitíssimas viagens missionária que passamos a fazer.

O TRABALHAR DO MESTRE

                   Ao voltarmos ao Brasil descobri que havia muitos convites para outros países, a partir dessa viagem eu começaria a visitar o mundo inteiro contando meu testemunho. Sem saber, eu já era muito conhecida. Começamos a organizar a agenda novamente, eu passei a fazer parte do mundo e nossas malas estavam sempre prontas. Como de costume, eu procurava ir nos finais de semana, nos ínterins entre as viagens consultava meus investimentos, fazia o que precisava fazer, não pense que abandonei meus negócios, só treinei outra pessoa para cuidar deles, a Rosa, a sobrinha de Sônia e João que trabalhava na minha casa passou a me secretariar nas minhas finanças, ela estava estudando economia na faculdade era uma moça extremamente honesta e estava se saindo muito bem com meus negócios, é claro que supervisionava tudo de perto, mas tinha confiança no seu faro para investimentos e o banco me mantinha informada, tudo via internet. Deus foi trabalhando e abençoando a todos nós e eu ajudava-os como podia. Dei suporte financeiro no início da faculdade depois, claro, ela caminhou com suas próprias pernas, com o salário que ganhava trabalhando comigo, fazia por merecer. E o que mais me deixou feliz é que ela acabou por aceitar Jesus, foi para a igreja e a partir daí só fez crescer na vida. Foi muito bom acompanhar o desenvolvimento de Rosa e fazer parte disso.
                  
                   Enfim, viajamos para França, África do Sul, Guiné Bissau, Itália, Espanha e muitos outros países, em lugares pequenos, vilarejos, cidades populosas, no campo, lugares pobres e ricos que nunca havia conhecido antes. É interessante observar o trabalhar de Deus, eu estava tão absorta na obra de Deus, aconteciam tantos milagres a minha volta que eu esqueci totalmente de qualquer tipo de tristeza. Mas Deus não deixou de trabalhar nem um só segundo por mim, desde as mínimas providências, entre viagens, livramentos, bênçãos cotidianas, alegrias que vivíamos com tantas coisas fantásticas acontecendo a nossa volta.
                   Meu André estava, na maioria das vezes, ao meu lado, ele agora também subia no púlpito e passou a pregar a palavra junto comigo. Ele sempre foi uma bênção.
                   Apesar de toda a agitação da minha vida eu consegui terminar a faculdade de Teologia, passei, quando as viagens se intensificaram, passei a fazer trabalhos e provas via internet, consegui me formar. Meu André formou-se um semestre depois de mim. Tornamo-nos uma dupla abençoada e com base firme nos estudos da palavra. Foi difícil com a quantidade de trabalhos, mas conseguimos e com nossas agendas.
                   Já estava com pouco mais de 40 anos.  Nem me lembrava mais em ser mãe, mas no fundo, ainda alimentava esse sonho.

O TEMPO CERTO DE DEUS

                   Havia um compromisso marcado na Grécia (não existem coincidências para Deus), viajamos justamente para o lugar onde passamos uns dias de nossa primeira lua-de-mel. Passamos por várias ilhas fantásticas, com paisagens de tirar o fôlego, aproveitamos para fazer nossa segunda, lua-de-mel. Fomos só nós dois dessa vez. E, no fundo, eu sabia que tinha que ser assim, só não sabia o que Deus tinha preparado lá para mim.
                   Estávamos em Mykonos, um lugar fabuloso onde as construções são brancas, a cidade era um verdadeiro convite para a tranquilidade e o bem-estar, era tudo simplesmente deslumbrante.
                   Nosso tempo por lá foi muito bem aproveitado, passeávamos durante todo o dia e à noite, muito amor, compensamos todo o estresse acumulado. Vivemos dias formidáveis regados a muito carinho e diversão.
                   Numa noite, André estava na sacada do nosso maravilhoso apartamento com vista para o mar, e um pôr-do-sol estonteante anunciava o cair da noite. Fui até a sacada onde ele estava, juntei-me nos seus braços e ele envolveu-me, beijamo-nos. Olhei para aquele espetáculo da natureza, lembrando-me das tardes que passava na sacada em São Paulo, olhando para o pôr-do-sol.
                   – Parece que foi ontem que eu estava naquela cadeira, entediada pedindo para a minha vida mudar e mostrar-me algo novo. E olha onde estamos e tudo o que aconteceu. Nunca imaginei ser tão feliz. – Eu falava olhando naqueles olhos verdes inebriantes que me envolviam e me levavam para um lugar de sonhos.
                   – Você sempre foi a minha amada, minha escolhida, desde que coloquei os olhos em você, nunca mais meu coração foi de outra. – Ele falava e suas palavras em deliciavam como descrito na bíblia. “...O seu falar é muitíssimo doce; sim, ele é totalmente desejável. Tal é o meu amado, tal, o meu esposo...” (Cântico dos cânticos de Salomão 5:16).
                   Eu sorria, com um pequeno objeto na mão. Agora já não mais o escondia, balancei-o como pêndulo na frente do seu rosto. Eu tinha vontade de pular daquela sacada e gritar pelas ruas que, enfim, Deus concedeu o meu milagre.
                   Ele olhava com olhos marejados de água, cheio de felicidade, transbordando amor, parecia que as palavras estavam presas na garganta, misturadas ao nó que com certeza havia se formado ali e se desenrolava em grossas lágrimas.
                   Eu estava radiante parecia que não cabia em mim de tanta felicidade.
                   – Depois do atraso, fiz hoje um teste de farmácia e constatei que estou GRÁVIDA. – Falava enquanto meu coração acelerava num crescente pulsar de alegria.
                   Ele envolveu-me apertando-me junto ao seu corpo, beijou-me com entrega total, depois, permanecemos ali, juntinhos, contemplando o mais belo de todos os espetáculos da natureza, o pôr-do-sol.


                    

                  
                           



                 

 



                 

                 
                   

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